
No Brasil, Serguei Dovlátov era um dos segredos mais bem-guardados da literatura russa até a editora Kalinka começar a publicar seus livros, um após o outro. O conto aí embaixo é do livro O Compromisso – na verdade não é exatamente um conto, se trata de um capítulo do romance memorialista de Dovlátov sobre os dois anos que passou na redação do jornal Estônia Soviética, de Tállin, em 1976. Durante o período Brejnev, Orwell, que já era cartilha russa desde Stálin, virou o Meia-Hora: mentir nas notícias era pinto. Então cada capítulo de O Compromisso propõe narrar os bastidores da notícia – algo às vezes totalmente diferente do que aconteceu. Dovlátov tem grande senso de humor, uma prosa afiada como Hemingway (que ele amava) e alguns truques: suas sentenças são rápidas e curtas, piscam o olho pro leitor esperto, e nenhum período é seguido por outro começando com a mesma letra – regra meio absurda que se tornou sinônimo de vivacidade. Em 2018 ganhou uma biopic, que trata do período surreal em que ele viveu na Rússia, tomando uma garrafa de vodca por dia, no mínimo, traficando calças jeans, inventando notícias falsas para os burocratas e tentando publicar seus livros. Como sempre era censurado, emigrou para NY em 1979, e anos depois o gigante gentil (media 2 metros de altura) virava o escritor russo mais amado da América (e olha que Brodsky, seu melhor amigo, tinha ganho o Nobel). Morreu no meio da rua, de ataque cardíaco, aos 49.
























PROPOSTA
Bem, é isso o que você vai fazer: vai criar uma personagem interessante.
A ideia aqui é explorar as várias camadas de um personagem.
Existem no seu conto dois personagens: o personagem interessado e o personagem interessante.
O personagem interessante aparentemente é inofensivo, opaco, sem graça, comum, anódino, invisível.
Mas aos poucos vai se revelando ao personagem interessado como alguém muito interessante.
Tão interessante que passa a ser curioso, estranho, excêntrico, fenomenal.
Ou tão interessante que passa a se mostrar de uma maneira perigosa.
Seu personagem será descrito por outro personagem, que o observa, depois o conhece, em seguida trava relações com ele, relações talvez até íntimas.
Seu personagem será descrito em situações diferentes, em tempos diferentes.
Cada camada interessante do seu personagem interessante vai suscitar mais e mais a curiosidade do personagem interessado.
Até que o personagem interessado acaba sabendo coisas demais sobre o personagem interessante.
Talvez ele não seja tão interessante assim?
Talvez ele seja muito mais interessante do que aparentava, mas de um jeito surpreendente?
Ou quem sabe o personagem interessado é que é na verdade o personagem mais interessante?
Escreva em qualquer pessoa, em até 10 mil toques.
