por Américo Paim
Prezado senhor Serafim.
Nunca fomos apresentados. Meu nome é Oderval Santos, mais conhecido como Badogue, coisa de criança, do tempo que caçava sapo e passarinho. Trabalho de escriturário no Hospital São Feliciano já faz um tempo. Sou pessoa séria, esteja certo.
Escrevo ao senhor por causa do telefonema de um funcionário seu ontem. Não sou moleque de recado, pra ir atrás de alguém que faça serviço podre. E lhe digo: ele não vai aceitar esse trabalho sujo. É tudo por causa daquele caso, né? Se falou muito na época, por causa dos relatos da polícia. A história é por demais estranha, mas vou contar a verdade. Quero que minha mão caia agora se for mentira.
Nunca mais tive notícia dele e se desconhece o paradeiro do infeliz. Ele não é matador, não. O nome dele é Normando Cerejeira, mas o povo só chama de Asteroide. Tudo sobre ele virou lenda e a população tem medo, é o que acho. O certo é que ele é mais um cabra sofrido, de história difícil.
Guardei isso comigo por muito tempo. Agora posso falar de uma vez. Era um sábado. Fui levar comida e água, como sempre. Já tinha quase ano que ele vivia lá onde todos falavam que tinha um espírito dentro da pedra do asteroide, aquela grande que acreditam que caiu do céu e que é por isso que surgiu Pedra Velha. Ele ficava embaixo da pedra, em um buraco. Se o senhor for lá, tem umas mangueiras grandes e uns pés de lamparina junto. É a marca da entrada. Ali perto, no chão, bem escondida, tem a tampa de madeira. É só abrir, descer uns degraus de terra e chega no fundo. Anda uns vinte metros na direção da pedra até uma porta, que vive trancada. Eu tinha uma batida combinada e ele abria. Só para mim e pro finado Dr. Carneiro, que conhecia o tal esconderijo. Só ele, aliás. Nunca contou como ou quando aquilo foi construído e quem fez. O fugido Asteroide vivia só, por escolha de dor e saudade, desistido do mundo.
Cheguei e bati mais de uma vez. Sem resposta. Pensei que ele tinha morrido lá dentro, mas não senti cheiro ruim nem nada. Subi de volta e ouvi uma cantoria besta. Um nhém-nhém-nhém sem pé nem cabeça. Segui o som e achei ele sentado no chão, cortando talisca de canivete. Ele e Bendito, o papagaio que ele criava. Bicho esperto que só. Asteroide tava com o cabelo preto comprido caindo no ombro. Já era hora de cortar. Na barba batendo no peito ele não deixava mexer. Dizia que ela gostava assim. Sempre ela. Os olhos injetados e tristes, o rosto rude de marcas, as orelhas quase de abano, o corpo magro e resistente. Me viu e falou nada. Eu tava curioso. Ele só saía da toca à noite, pra ver a lua e lembrar dela. A conversa foi assim:
– Tá fazendo o que aqui?
– Ué, tá cego?
– Só num tô entendendo.
– É um reforço pra cadeira.
– Pro mode quê? A descoberto, em pleno dia?
– Faz tempo que não tenho nada a perder.
– Que história é essa?
– Ele já sabe que eu tô aqui.
– De que jeito, home?
– Tenho visto movimento, umas pegadas por aí.
– E essa agora. Tem certeza?
– Recebi um papel.
O senhor saiba que aquilo era sinal de coisa séria. A gente voltou pro buraco. Lhe entreguei o bujão cheio que me pediu. Ele trocou e o fifó acendeu fácil. O lugar tava em ordem. A mesa bem pequena com a cadeira simples. A cama improvisada de folhas e palha, a despensa. As paredes de barro – em uma o retrato dela, bem gasto, seguro por arame. Pelo chão as pequenas esculturas de madeira, todas para ela. Era só o que fazia na vida. Tudo limpo, impecável. A umidade alta, mas o ar circulava pelos tais tubos entranhados, inclusive a fumaça do fogareiro. Lá fora ninguém ia perceber. O local era pouco frequentado pelo medo da lenda. Ele buscou o envelope, sem identificação de conteúdo ou remetente. Abriu e me passou o papel. Estava escrito: “Sua hora chegou, desgraçado”. Só isso. Me apavorei. Ele, tranquilo, me falou o que ia fazer.
– É o que eu esperava.
– Você tem que ir embora.
– Oxe… Ele vem. Eu sei. E vai morrer aqui.
– Parece armadilha.
– Tenho medo de nada.
– Por que ele lhe avisaria?
– Tá confiante. Quer me assustar.
– Venha comigo pra cidade.
– De jeito nenhum.
Digo ao senhor que tentei convencer de todo jeito. Nada que fizesse a traria de volta. A vingança era desperdício. Ele devolvia que tava cansado, já não tinha vida. Se fosse preso ou morto daria no mesmo. Era muito jovem com tudo pela frente quando perdeu Olga na mão daquele demônio. Eu só sabia que tinha sido morte violenta. Assim Dr. Carneiro me contou. Ele me pediu pra ajudar a manter o Asteroide. Eu devia muito ao velho médico, que cuidou de mãe na longa doença dela, sem me cobrar um centavo. Até hoje desconfio que tinha coisa entre ele e mainha. Bem, acho que isso não vem ao caso, me deixe voltar. Normando tava falante e pedi que continuasse. Abriu uma caninha e deu um gole pra Bendito, óia só. E o pássaro falou: “Tá servido? Tá servido?”. Eu ri, mas não consegui beber, forte demais. Ele virou três doses e olhou desolado a parede. Enxugou os olhos com o braço sujo e me largou o doce, se o senhor me entende.
Contou que vivia bem em Serra Quente, tocando uma pequena farmácia. Um dia conheceu a moça, vinda da capital para a festa do padroeiro. Paixão imediata. Ele falava de olho na foto, que segundo ele, nem fazia justiça à beleza dela. Noivaram. Ela se mudou pra cidade. Trabalhou de professora na escola municipal. Seria assim até que se casassem. Eram os planos. Os negócios melhoraram e ele contratou um funcionário. Dirceu parecia boa gente. De origem humilde, mal sabia ler. Moço bonito, com jeito encolhido. Normando quis ajudar. O rapaz dormia nos fundos do estabelecimento. Os primeiros meses foram tranquilos, parecia à vontade e interessado em aprender. Ganhou a confiança do patrão, que não notou na época, mas agora achava que ele cresceu o olho para Olga desde cedo. Ela nunca se queixou de nada.
Na noite da tragédia, ela apareceu na farmácia de surpresa. Seu noivo tava fora em uma entrega. Dirceu a convidou a entrar. Veja o senhor que nesse ponto ele se calou. Caminhou angustiado pelo pequeno espaço. Retomou curto e grosso: ela foi agredida e estuprada. Ele chegou a tempo de se atracarem no facão. Abandonou a luta pra acudir a noiva, que sangrava muito. O agressor fugiu bem ferido e foi parar no hospital, na mão de Dr. Carneiro, que tava na cidade por acaso, ajudando no socorro às muitas vítimas de um incêndio na zona rural. Olga morreu nos braços do Asteroide. Os vizinhos chegaram atraídos pelos gritos e o acharam diante do corpo todo sujo de sangue com o facão melado na mão. Saiu dali corrido antes da polícia. Descobriu onde Dirceu estava. Foi até lá, mas desistiu de matar na última hora, por causa de Dr. Carneiro, que o convenceu a resolver de uma forma diferente. Nessa hora ele interrompeu a contação e me fitou estranho, com um sorriso de coisa ruim, num sabe?
O senhor deve estar curioso. Digo que um homem tem lá suas razões. Não tô defendendo. O senhor mesmo conclua. Eu perguntei como ele imaginava que seu esconderijo foi descoberto. Não fazia ideia, mas com certeza ele estava foragido da polícia, pois cumpria pena desde que saiu do hospital. Serra Quente é perto de Pedra Velha e as pessoas falam. Pareceu satisfeito que o criminoso chegou a ele, acredite. Sabe lá a razão… Ia perguntar só que ouvimos um barulho. Alguém abria o acesso para a escada. Ele fez gesto para que eu me calasse. Juro que nunca senti tanto medo na vida.
Apagou a luz rápido. A porta já estava destrancada e ficou atrás dela. Eu, em pé, ali no meio, tremendo, sem ação. A luz oscilante de uma provável lanterna ficou mais intensa e enfim o intruso adentrou o refúgio, armado. Jogou a luz sobre meu rosto, e antes que raciocinasse, recebeu uma pancada forte por trás da cabeça e caiu. Normando acendeu o fifó e sentou o homem na cadeira. Amarrou e amordaçou com destreza e lhe jogou água na cara. Ele despertou e os olhos arregalados mostravam que entendeu a situação delicada em que se encontrava. Gemeu e tentou gritar. Perguntei o que ele ia fazer. Chamar a polícia? Levar até a cidade? Sua expressão no rosto me aterrorizou.
– Não. Ele está do jeito que eu sempre quis.
– Como assim?
– Vai ficar aqui mesmo. Nós vamos embora.
– Não pode largar ele aqui.
– Posso e vou.
– Vai morrer de fome e sede.
– Pensei nisso.
Sempre com o riso maldoso, foi até a mínima despensa. Trouxe prato, garfo, faca e copo. Foi outra vez e veio com um pote grande tampado, de vidro, que colocou sobre a mesa, de frente para Dirceu, que se mexeu na cadeira, em grunhidos de terror e desespero abafados pela mordaça. O senhor creia que ali dentro, embebida em algum líquido, uma genitália masculina. Eu estava em choque com a cena. Asteroide apenas falou, enquanto colocava o conteúdo no prato e enchia o copo.
– Sentiu falta dele, diabo?
– Normando, não me diga que isso…
– Se tiver fome e conseguir, fique à vontade. Só aviso que Bendito tá sem comer há uns dias e ele come qualquer coisa, num sabe?
Me arrastou pra fora e trancou a porta. Pisei o primeiro degrau e ainda ouvi a ave:
– Tá servido? Tá servido?
Sem mais.
Oderval.
