(Angélica)
No meio da tarde a campainha tocou. Para o meu espanto, ao abrir a porta dei de cara com o meu tio Arthur e o Théo. Não entendi essa visita inesperada no meio da tarde, eles nunca vinham me ver. Aconteceu alguma coisa? Não, não. Estávamos passando aqui perto, falaram. Achei estranho o porteiro não ter avisado e também o jeito inquieto dos dois. O reflexo da luz amarela do corredor deixou o cabelo deles meio avermelhado, juntando o nariz pontudo, pareciam duas raposas. Entrem. Eles se sentaram em volta da mesa que ficava perto da cozinha, o Théo colocou a mala preta que trazia com ele em uma das cadeiras. Enquanto eu preparava um café, conversamos um pouco. Mostrei os crisântemos brancos que eu havia comprado e estavam por toda a sala, em vasos, copos e garrafinhas de iogurte (como se eles não tivessem visto). E também as três pilhas de livros que eu tinha feito no chão com os escritores que eu mais gostava, achei estranho as Histórias Extraordinárias do Edgar Allan Poe não estar lá. Quando eu estava pensando o que mais eu tinha de bom, eles me disseram vamos dar uma volta, Nina? Vamos, preciso tomar um banho, vocês esperam? Claro.
Demorei um tempão no chuveiro. Eu precisava limpar o box e para isso usei a minha escova de dentes. Nem lembrava mais que os dois estavam na sala. Só depois de tirar a gordura de todos os azulejos, me ensaboei, podia ficar mais algumas horas debaixo da água se o Théo não me chamasse. Desliguei o chuveiro e assim que pus a cabeça para fora da porta, percebi o quanto ele estava impaciente, me deu uma calça jeans e uma blusa lilás. Aquelas roupas não eram minhas, mesmo assim vesti e em um minuto eu estava pronta.
Quando reapareci, os dois me esperavam de pé. Podemos ir, Nina? O meu primo saiu primeiro, foi buscar o carro. Um pouco depois, eu e meu tio descemos. Lembro de ter ficado grudada numa das paredes do hall em pânico dizendo que se máfia turca estivesse por perto e visse que pretendíamos fugir, iria nos matar. Tio Arthur olhou para mim desesperado, não sabia o que fazer. Se ele estava assim, imagina eu, os dois podiam ser mortos por minha causa. O 4×4 do Théo parou na frente do prédio, saí correndo com o coração na boca, as bochechas enchiam e esvaziavam feito um sapo que respira pela pele. Meu tio me acompanhou como pôde, conseguimos entrar no carro sãos e salvos.
Não me recordo se conversamos no caminho. Já tinha esquecido a perseguição, me sentia relaxada, até mesmo feliz. Como eu estava sozinha no banco detrás, estiquei as pernas de lado e cochilei. Ao acordar, não reconheci as ruas, eram de um bairro desconhecido. Assim que eu ia perguntar aonde estamos indo, entramos num lugar com muitas plantas e árvores, muitas mesmo. No meio dessa vegetação toda, algumas casas brancas, antigas e térreas. Théo saiu do carro e eu fiquei com meu tio.
Meu estômago começou a doer, pedi para o tio Arthur comprar alguma coisa, a dor só ia passar se eu comesse. Ele saiu do carro e quando voltou disse que não tinha encontrado nada, ali não vendia comida. Não? Num lugar tão grande como esse? Entrei numa das casas, devia ser a recepção, porque havia duas mulheres sentadas atrás de uma mesa comprida. Usavam um uniforme branco. Me disseram que era impossível arrumar algo naquele horário. Fiquei muito brava, briguei com elas, era um absurdo que não me dessem o que comer. Voltei para o carro furiosa e indignada.
Alguns instantes depois, outra mulher, de cabelos escuros, magra e também de branco, sentou ao meu lado. Apesar de ser simpática, parecia apreensiva. Todos ao meu redor estavam assim, as pessoas vivem estressadas, concluí. Ela me perguntou se eu tinha algo nos bolsos da calça, disse que não. Pediu que eu verificasse e ao enfiar a mão no primeiro, tirei dois imãs de geladeira de lá: uma pizza e uma casinha de cachorro. São para me proteger, precisam andar sempre comigo, sabe? Sem dúvida, vou guardar para você.
Lembro que logo em seguida eu estava fora do carro segurando os meus óculos, só eles, sem o estojo de proteção. Quando a mulher disse vem comigo e se virou para a casa que ficava de frente para a recepção, entendi o que estava acontecendo: minha família, composta de duas raposas traiçoeiras, tinha me enganado. Como assim? Comecei a chorar feito uma criança que acabou de ser trancada num porão escuro e sabe que o psicopata que a prendeu já volta. Sem respirar direito de tanto soluçar, atirei os óculos no chão com força. Foi tudo o que eu fiz. Não esperneei, não me debati, não fui para cima de ninguém, apenas olhei para o tio Arthur na esperança que ele me socorresse e me levasse embora. Quando percebi que ele não se mexia, os braços estavam largados junto ao corpo como as mangas da camisa de um amputado, entendi que não ia ter mais jeito. Preferi não olhar nos olhos do meu tio. Enxuguei meu rosto com as costas da mão e tremendo me abaixei para pegar os óculos, por sorte as lentes não tinham quebrado. Ia fazer diferença? Não disse uma palavra e também não virei, a enfermeira segurou o meu braço devagar e me levou lá para dentro.
Depois de passar por umas portas grandes de madeira, cheguei numa sala clara e quadrada. No lado direito havia uma televisão na parede, um sofá marrom e algumas poltronas de veludo verde-escuro. O resto do ambiente era tomado por mesas e bancos de fórmica bege. Essa é a Nina, veio ficar com vocês. Nem sei quantas mulheres estavam ali, umas quinze talvez. Todas me cumprimentaram ao mesmo tempo. Em seguida segui por um corredor com várias portas, um daqueles quartos era o meu. Meu e de mais alguém, já que nele tinha duas camas. Antes do banheiro, um armário sem portas. Suas roupas estão nessa parte de baixo. Concordei com a cabeça.
Fui para o refeitório e ao me sentar me trouxeram um sanduíche. Com tudo isso, a dor de estômago não me incomodava mais e sim a sensação de que uma placa de metal estava atravessando o topo da minha cabeça. Quando abri o pão, me senti enjoada ao ver a mortadela, joguei aquele ser cor-de-rosa sujo num saco plástico laranja aberto em cima da mesa. Logo depois descobri que o saco fazia parte do material de uma das recreadoras para a atividade da tarde. Ela tirou a mortadela lá de dentro com as pontas do dedo e fez a mesma cara de nojo, quem pôs isso aqui? Eu. Como não podia explicar que por um momento achei que era o meu lobo frontal, só pedi desculpas.
Não me lembro como foi o resto do dia nem o começo da noite. Na verdade, quando a primeira enfermeira me levou lá para dentro, meu HD foi desconfigurado, todos os arquivos desapareceram. Por isso devo ter ficado sentada num dos bancos do refeitório esperando as horas passarem, jantado como todo mundo. Visto televisão? Nunca vou saber ao certo.
À noite, ao entrar na fila para pegar a medicação, me assustei com a quantidade de comprimidos que eu devia tomar. A enfermeira verificava a nossa boca. Levanta a língua. Apenas na hora de dormir, descobri quem ocupava a outra cama. Dona Zilda. E Dona Zilda ou as calcinhas que ela pendurava nos ferros da janela cheiravam xixi. Já estava tudo tão complicado, resolvi não ligar, eu só queria ficar quieta. Depois de vestir o pijama, ela olhou para mim, passou a mão no rosto flácido e disse, não sei o que eu estou fazendo aqui. Nem eu, Dona Zilda, não tenho a mínima ideia.
