Você me entende?

Um banheiro químico de luxo. Sabe como é? Com bancada, pia, torneira. Ao fechar a porta, a luz acende automaticamente. Entrei. Olhei no espelho. Observei minhas olheiras cor-de-cravo-de-defunto na minha pele de inverno. Tão branca que em alguns pontos as veias criaram vida própria,  traçando um mapa entre meus poros.  Estava hipnotizado pela minha imagem refletida naquele espelho de plástico de um pseudo banheiro quando a luz se apagou. Sem qualquer sinal. Estava claro. Ficou escuro. O pânico apossou-se de mim. Um pânico. Suava. Pensei que iria morrer. A batida do meu coração em compasso de samba. De samba enredo de escola no meio da avenida, não de um pagodinho de beira de estrada. Quanto tempo dariam pela minha falta? Dariam pela minha falta? Levariam o banheiro embora comigo dentro? Esmurrei a porta, ninguém me ouvia. No meu cérebro, uma luz acendeu: você pode respirar, acender a luz da lanterna do celular e achar a maçaneta. Fiz isso. E saí. Foram menos de alguns minutos. Pareceram horas.

Quando fui na Europa, ficava vagando de cidade medieval a outra cidade medieval. Visitava todos os castelos que encontrasse pelo caminho. Queria os detalhes, muros altos, torres, janelas pequenas, canhoneiras. Alguns com fossos, pontes levadiças. Os piores castelos, menos turísticos, eram os que mais me encantavam. Numa tarde quente, em que o sol era tocha e brigava para queimar qualquer coisa que ficasse a seu alcance, entrei em um castelo que ficava num terreno bastante elevado. Subi até o último andar, pulei uma cordinha que fechava uma escada, e cheguei na torre. Ninguém me viu. Olhei pela janela. Não vi ninguém lá embaixo. No alto daquela torre, nenhum móvel. Era eu, o teto em forma de triângulo ovalado, as paredes de pedra, a janela sem vidro. Coloquei minha mochila na parede. Deitei no chão. Abri os braços e as pernas como num quadro de Da Vinci. Meu corpo torrado, uma farinha mesclada à poeira do chão. Meu diafragma subia e descia como um balão voando no céu da Capadócia. Fiquei ali morando por dias. Sozinho. A mesma sensação. Mas, em paz. Quando a visitação acabava, as luzes se apagavam, eu podia descer para explorar. Enquanto durou minha comida, fiquei por lá. Quer dizer, ainda fiquei um dia e meio sem comer. Meu corpo estava invadido. Quando a fome foi maior que a sensação, saí.

Numa viagem de navio, me tranquei no fundo, na parte de baixo do casco. O ar era um pouco rarefeito, mas com respiração de yoga, inspirando pelo nariz, de forma lenta e ritmada, oxigenava e energizava meu corpo físico. Exalava também pelo nariz, me dava uma sensação de bem-estar e relaxamento. Quando batia uma onda, o barco virava para um lado, eu rolava para o costado. Fiquei ali por dois dias. Sensação de ser parte de um todo aquático. Foi uma libertação.

No fundo da Igreja, há uma cabine. Um gabinete pequeno. Um lado é aberto. O outro, fechado. Fechado com furinhos para entrar alguma luz. Algum ar. Entro. Sento. Tranco a porta por dentro. Não posso ver se tem alguém do outro lado. Desconfio que se alguém se sentar ali, poderá me ver. Pela fresta da persiana de madeira. Há botões de luzes. Uma luz verde, para indicar que há alguém aqui do meu lado (não acendo). Há uma luz vermelha para indicar que tem alguém na minha frente (melhor garantir para ninguém entrar). A missa deve demorar uma hora. Depois tem novenas. Posso ficar aqui um tempo. Um bom tempo. Trancado. No meio do cheiro de madeira, óleo de peroba, orações e pecados. Estou vivo. Numa sensação de total pertencimento. 

Pertencimento que me faltou naquela vez em que fui àquele evento. Me casar. Usava fraque com enfeite no bolso. As flores eram tão altas, muitas prestações atrasadas do nosso apartamento. Um tapete de espelho. Quem, em sã consciência, aluga um tapete de espelho? As fotos ficam distorcidas. Mulheres de saia curta ficam desamparadas. Violinos. Bolero de Ravel, talvez? Ali, naquela aura de transparência e fumaça. No cheiro de perfume misturado a arrependimento e ansiedade, me prendi. Não tem paredes, não tem casco, não tem solução. Estou preso. Num casamento fracassado. Não vejo o mar. Nem o infinito. Nem minha assinatura numa linha de um divórcio dentro de um cartório com janelas abertas, do teto ao piso, mesas brancas, rostos de plástico, canetas baratas, onde pego a senha, sento na cadeira conjutada, aguardo e carimbo. 

Estou preso em um corpo comandado por cartelas de psicotrópicos. Troquei balinhas do sinal por comprimidos duros e coloridos. Na ansiedade. Quero, mas quero para agora. Para ontem. Quero já. Preso em desejos. 

Antes, quando ainda era vivo, gostava de me prender em locais fechados, apertados, exíguos. Hoje me prendo em vontade. Estou preso na vida. Em dias, em horas. Um calendário de cima da mesa. Melhor, calendário de trás da porta, brinde de vendedor de gás. Caneta vermelha marca o dia que se foi, e o dia seguinte virá?

Preciso voltar a sentir a sensação. Aquela de antigamente. Se não estou livre agora. Quanto ainda respiro, quando ando na calçada, brigo no trânsito, namoro num show enfadonho de poltronas de corino rasgado.  Couro ecológico, nem pele de bolo presta mais.

Todas as noites coloco o ar condicionado no mínimo. Fico pelado e me deito. Não sinto frio. Meus pelos do corpo não arrepiam.  Me imagino deitado numa geladeira do necrotério. Quatro paredes geladas de metal. Escuro. Frio. Estou morto. Mas, vivo. 

Você me entende?

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