Tangente

Uma tragédia com desdobramentos dignos da novela das oito. Ao menos, Seu Evaristo havia descrito assim. Ao ligar para Jocarla, bem cedo, o barbeiro centenário disse que o cruzamento perto de seu salão estava tomado por policiais. Havia sangue, muito bate-boca, uma multidão de curiosos. Com certeza, uma pauta quentíssima para o jornal do bairro. Arrependida por ter saído da cama em uma manhã gélida, a jornalista aposentada chega a tal esquina e só encontra o movimento normal de carros, um ou outro pedestre subindo a rua até o metrô e a cabana de lixo que o Mendigo Que Berra usa como abrigo, em frente a um imóvel vazio.

Devia ter mandado a estagiária averiguar o ocorrido. Contratou a jovenzinha porque não dá conta de escrever e diagramar sozinha todos os textos. E ainda vender aos comerciantes locais anúncios em sua publicação de distribuição gratuita. Mas, a essa hora, Bruna deve estar na faculdade, sonhando em se tornar uma grande repórter investigativa. Sobrou para a veterana andar três quarteirões, toda encolhida, e descobrir se há uma notícia ali, no ponto em que duas ruas de mão única se encontram. Ambas cortadas por estreitas faixas vermelhas para bicicletas. Uma via mais plana e a outra, uma ladeira.

Não é a primeira vez que Seu Evaristo exagera. Há pouco tempo, ele denunciou ruídos suspeitos vindos da casa vizinha à barbearia. Jurava que assaltantes cavavam um túnel até a agência bancária do lado oposto da quadra. Tratava-se apenas de uma reforma no piso, como a polícia confirmou. Teve também a história do fóssil pré-histórico, encontrado por operários de um canteiro de obras. E o homem-sapo? Por anos, o velho espalhou a lenda pela vizinhança e alguém sempre confunde morador de rua com assombração.

Tudo começou com a galinha.

Tem galinha na cidade, Seu Evaristo?

No meu tempo, todo quintal virava galinheiro.

Tá. Mas hoje, no meio desses prédios?

Ih, até galo canta de madrugada.

E essa galinha foi parar na rua.

Por isso o André invadiu a ciclovia.

O do Opala?

Isso. Desviou da galinha.

Aí atropelou o ciclista?

Quase atropelou.

Sei. O Opala desviou da galinha e a bicicleta desviou do Opala.

É, mas o Francesco diz que foi de propósito.

O ciclista?

Um velhaco italiano, se acha atleta.

Já vi por aí. Com uniforme de competição e tudo.

Acusou o André de tentativa de homicídio.

Por quê?

Ixi, os dois tinham uma pendenga.

O motorista e o ciclista se conheciam?

Briga de trânsito. Francesco acertou a traseira do André.

Não acredito. A bicicleta já tinha batido no Opala?

Sim. E agora o André quis dar o troco.

Será?

Bem, ninguém viu galinha nenhuma na rua.

Entendi. Não tinha galinha.

Tinha. Na calçada. O Francesco amassou a coitada.

Espera. O ciclista matou a galinha?

A galinha dos Zimmermann.

A mesma que atravessou a rua?

O Opala desviou da galinha, o ciclista desviou do Opala. Mas a galinha não desviou do ciclista.

Seu Evaristo, o senhor tá me contando a história na ordem certa?

Pergunta pra Dona Rosa. Rosário Zimmermann. Ela fala que o Francesco ameaçou a galinha.

Como assim? No acidente?

Antes, minha filha. Muito antes.

O quê? O ciclista e a galinha também se conheciam?

E não se davam.

Pelo amor… No fim, a galinha é culpada e vítima?

Todos são vítimas.

E a culpa é de quem?

Pra mim, de todos.

Todos são culpados e vítimas?

Avisei que era uma história interessante.

Seu Evaristo não viu nada do acidente. Nem as outras pessoas reunidas em torno do bafafá que se formou entre os envolvidos e a galinha morta. Chegou uma viatura policial para acalmar os ânimos, mas os guardas já foram embora e a galera, dispersou. Com os outros cabeleireiros chegando e o salão cheio de clientes, o barbeiro reconta tudo sem organizar muito as ideias. Jocarla aproveita para voltar à cena do crime – ou dos crimes – e se enrola de novo no cachecol. Afunda o gorro de frufru na cabeça e completa a armadura com os óculos de lentes grossas.

A mancha de sangue de galináceo é bem discreta, adornada por penas cor de barro e as rachaduras da calçada, por onde respira um mato urbano. A jornalista tira foto com o celular. Não vai usá-la. Ainda que a manchete não esteja clara, com certeza não envolve um factual de caráter apelativo. Jornal de bairro se foca em eventos, problemas de zeladoria, memória da região e perfis de moradores. Talvez haja um bom personagem ali, quem sabe um colecionador de carros clássicos, um ciclista da terceira idade ou uma granjeira metropolitana.

A vinte metros do cruzamento, beirando a ciclovia, esconde-se a casa dos Zimmermann, nos fundos de uma longa entrada de vila. O corredor é cercado pelas paredes de dois predinhos comerciais, que ajudam a ocultar o lugar. À direita, uma clínica veterinária. À esquerda, uma lojinha de roupas abandonada, na frente da qual o Mendigo Que Berra se acomodou com suas tralhas. Do portão de ferro, Jocarla avista quatro galinhas ciscando entre as plantas, na lateral da via de paralelepípedos que leva à residência.

As galinhas são coisa do abestalhado do meu irmão.

E faz tempo que vocês têm granja, Dona Rosa?

Nah. Sabe as três torres que levantaram aqui perto?

Não me diga que eram os donos do terreno baldio?

Claro que não. A gente morava atrás, numa ruazinha.

Derrubaram tudo por lá.

E eu não sei? Ofereceram até apartamento naquele monstrengo.

E não aceitaram?

Quem quer viver longe do chão? Com o dinheiro, compramos as casas dessa vila.

Só pra vocês?

Pra alugar. Tem muito gringo que se hospeda aqui.

Tipo Airbnb?

Não sei. Um rapaz cuida dessa parte pra mim.

E seu irmão?

Ah, já faleceu. Próstata. Descobriu tarde demais.

Oh, sinto muito. Mas… e as galinhas?

Não gosto de cachorro. Queria um ganso cuidando do quintal. No fim, o Feliciano arrumou galinhas mesmo.

Ué? São… animal de guarda?

Melhor que alarme.

É? Se entrar ladrão, elas atacam?

Uma vez, o vagabundo que grita pelas ruas tentou passar a mão em uma das galinhas. Por entre as grades, sabe? As outras botaram o morto de fome pra correr, na bicada.

Ok… E nunca tinham fugido?

Fugir pra quê? Elas são livres.

Bom, parece que uma entrou na frente do carro.

Quem disse? Se atravessou a rua, foi na faixa de pedestres.

Na faixa de…?

O carro não parou, nem a bicicleta. E a Henriqueta pagou pela imprudência deles.

Me disseram que o ciclista tinha uma treta com a… Henriqueta.

Esse carcamano ameaçou fazer um caldo com as minhas meninas.

Mas assim, do nada?

Ah, ele vivia reclamando do barulho do galo.

Também tem galo?

Eu não. Só galinha.

E de quem é esse galo?

Ninguém sabe. Já escutei, mas nunca vi.

Um trio de moças vêm dos fundos da vila, todas com cabelos louros, olhos claros, mochilas grandes e um “bom dia” embolado na boca. Nenhuma está agasalhada o suficiente para uma manhã tão fria. Alemãs? Talvez escandinavas, conversando em uma língua nórdica cheia de consoantes. A saída das hóspedes obriga Dona Rosa a abrir o portão pela primeira vez desde o início da conversa com Jocarla. Mas a jornalista se convence de que, por enquanto, seu trabalho ali não tem mais propósito.

Até a estagiária, ainda caloura no curso de Comunicação, sabe que um repórter precisa ouvir os dois lados de uma história. Porém, fora da sala de aula, descobre-se que toda história tem inúmeros lados. Segundo Seu Evaristo, o motorista do Opala, seu cliente, mora nas proximidades, mais para as bandas do condomínio de três torres. No caminho, observa o semáforo no lugar onde ocorreu o acidente e nota que está no modo de segurança, amarelo piscante. Isso derruba qualquer preferência dos veículos. Todos devem parar antes da faixa de pedestres. Já estava assim quando a galinha passou? A matéria pode ser sobre as constantes falhas nos faróis do bairro.

Na portaria do edifício de André, um segurança manda Jocarla esperar na calçada. Já se passaram quinze minutos. Só de ouvir o assovio do vento, a aposentada sente a atrite cristalizar os dedos das mãos. O joelho direito também grita. Quando a temperatura cai, o corpo inteiro dói. Há umas horas, analisava se valia a pena abandonar as cobertas quentinhas. Fez plantão por décadas em redação de jornal. Quando cobria política, passava horas em frente das casas de autoridades, esperando aspas que, muitas vezes, nem valiam o sacrifício. Saudade zero de sofrer assim por uma matéria. Abriu o jornalzinho para manter a mente ocupada, sem exigir tanto do corpo. São suas palavras cruzadas.

É um absurdo. Agora tenho que esperar uma galinha atravessar a rua?

Senhor André, não é pela galinha, mas pra ver se vem pedestre.

Ninguém ia dar a mínima se fosse pomba.

Teoricamente, se estiver no amarelo…

Farol piscando é sinal de oscilação da energia elétrica.

Verdade. Mas quem culpar? A Prefeitura? O Detran?

Sou engenheiro. Quase sempre, essas falhas rolam por furto de cabos.

Tá dizendo que…

Esse povo de rua rouba a fiação o tempo todo. Pra vender, claro.

O ponto é que, em vez de frear, você jogou o carro em cima do ciclista.

E por que aquele velho idiota não parou? Ciclista é dono da verdade.

O Francesco mencionou crime premeditado.

Mas que filho da puta…

Verdade que já tinham se desentendido?

O cara tem mil anos. Deve ser o inventor da bicicleta.

Na hora, viu que era ele?

Me diz se uma múmia dessas precisa descer a rua igual mountain bike.

Meio estranho virar pro mesmo lado que a galinha fugiu.

O Francesco se fantasia de esportista, mas não enxerga o nariz. Da outra vez, me arrebentou a lanterna de um Buick 69.

Olha, se você tivesse parado no farol amarelo…

Onde a galinha tava quando morreu? Se eu tivesse subido na calçada com o carro, iam me linchar. Mas bike tudo bem, né?

Ok, ok. Sorte que só a galinha se deu mal.

A galinha que se foda. E meu carro? Nessa brincadeira, risquei a roda no meio-fio.

E você coleciona carro velho?

Compro, restauro e revendo. Imagina a trabalheira pra achar peças originais.

Um trovão anuncia chuva e André corre para cobrir o Opala com uma lona. A garagem está com muito vazamento. Nem se despede e larga Jocarla sozinha na frente do prédio. É aqui que mora a Heloísa? Sim, a vizinhança mudou muito, mas é aqui. Voltavam juntas do trabalho de vez em quando. Lembrar de nunca insistir em pauta sobre especulação imobiliária. Não em jornal com anúncios de página inteira dedicados a empreendimentos com Villagio, Maison ou Park no nome. Boa repórter, só foi inocente demais. Será que achou outro emprego?

A aposentada aperta o passo. Quer chegar ao restaurante de Francesco antes do temporal. Corta caminho por duas ruazinhas e repara que as vias se tornaram mortas-vivas. Sobrados de tinta gasta de um lado, um longo muro alto do outro. São as costas de condomínios. Na sarjeta, canos despejam litros de água que empoçam valetas e seguem para as galerias subterrâneas. Seu Evaristo conta que, por baixo, é tudo rio. Também dizia que havia uma célula terrorista nos fundos da padaria do finado Cesário, o comuna. Mas há mesmo uma bacia hidrográfica sob o asfalto. Perto dos bueiros, ouve-se até uma corredeira.

Quase no restaurante. É bater as informações com o Francesco e encerrar o dia, fazer um escalda pés, preparar um chá quentinho. Ouvir todos os lados de uma história não basta para alcançar a verdade. Mesmo porque pode ser que ninguém esteja mentindo. São várias verdades e o leitor junta as peças do texto e constrói sua própria versão. O motorista do Opala foi surpreendido por um animal na pista. O ciclista subiu na calçada para se proteger de um veículo. A galinha atravessou a rua na faixa de pedestres. E a atropelaram na calçada.

A Vigilância Sanitária não permite granja caseira em área urbana. Ponto final.

Eu pesquisei, Francesco. Pode sim, se a galinha for bicho de estimação.

Haha. Era o que faltava. Ela leva os frangos pra passear?

Não sei. Olha…

A mulher dá banho nas galinhas? Diz que sim, por favor.

Igual ter passarinho, acho.

Quero ver jogar bolinha pra galinhada pegar.

Dona Rosa disse que você fez ameaças.

A velha é caduca. Só reclamei do maldito galo.

Que não é dela.

De quem seria? Esse cocoricó não me deixa dormir. E levanto cedo pra pedalar.

Já foi ciclista profissional?

Não, por quê?

Sei lá. Tá quase nevando e você sai com esse uniforme fininho colado no corpo.

Reparou, hein? Isso é estilo. Antes de pedalar, me aqueço, faço alongamento.

E sabe que lei de trânsito serve pra bicicleta, não sabe?

Como? Se motorista não respeita ciclista.

O André diz que você já bateu no carro dele.

Ah, esse canalha não esquece disso. A culpa foi do mendigo.

Que mendigo?

O doidão, que vive fazendo bagunça.

O que dorme ao lado da Dona Rosa?

Agora, né? Duas semanas atrás, dormia na porta do meu restaurante.

Ah, por causa do toldo aí na frente.

Antes de abrir a casa, tinha que acordar o folgado e lavar o xixi.

Eles ficam onde pode ter o que comer.

Aqui não. O governo não me deixa dar sobras pra essa gente.

Não é bem assim.

Depois passa mal e vão dizer que foi minha comida.

E o que ele tem a ver com você e o André?

Tava revirando lixo, jogando tudo no pista. Desviei de um saco e relei de leve na lata-velha do playboy.

Não quebrou a lanterna?

O André é um baita malandro. Óbvio que já tava quebrada.

O italiano começa a receber os primeiros fregueses para o almoço e deixa de dar atenção a Jocarla. Ela se dirige à saída, mas uma garoa leve piora a sensação térmica e segura a jornalista sob a proteção do toldo. Galinhas, carro velho, bicicletas. Chega dessa história maluca. Como enfiar tudo em um jornal no formato tabloide? Ninguém vai morrer se não ler sobre mais uma manhã qualquer na vida desses personagens. Tudo bem, a Henriqueta morreu, mas não é uma reportagem que vai ressuscitá-la.

A aposentada aperta o passo até sua casa. Nunca lembra da sombrinha. A ventania atira as gotículas geladas contra as lentes dos óculos, embaçando a visão. Ainda bem que a rua é plana. Mais três quarteirões. Só que acabou no cruzamento do acidente, agora mais agitado. É gente subindo em direção ao metrô, carros disputando a preferência no semáforo de amarelo piscante. Ninguém nas ciclofaixas. E o Mendigo Que Berra segue dormindo dentro do sarcófago de entulho. O último elo, única possível testemunha ocular do mapa de subtramas que desembocaram nesta esquina. A jornalista ensaia seguir em frente, mas dá um passo atrás.

O sujeito havia estendido o plástico preto na grade da vitrine vazia, improvisando uma cabana. Uma vez dentro, cercou-se como pôde de papelão de caixas de supermercado. Apenas os pés descalços sobraram ao relento. Ao se aproximar, Jocarla procura não fazer barulho. Ninguém gosta de despertar no susto. Opta por bater os dedos na frágil estrutura e soltar um ô, amigo, oi, com licença, ei, as batidas ficando mais fortes, a voz subindo de tom. Até uma parte do saco ceder. Ela paralisa, envergonhada. O Mendigo Que Berra permanece imóvel. Olhos semiabertos, boca roxeada e seca, nenhum movimento no peito. Abraçado a um display de papelão com a figura de um rapaz sorridente, morre outro morador de rua na noite mais fria do ano.

Deixe um comentário