por Américo Paim
Firmino Notre Dame e seu primo Humberto chegaram juntos à lanchonete de Zé Tripa. O sol já estava frio. Fulustreco e Zoião já estavam lá. A conversa começou com futebol, passou por causos bem duvidosos e descambou para falar mal da vida alheia. Cada um contou história e a coisa ia absurda, uma risadaria só. Zé também encostou para ouvir o conversê. Na vez de Firmino falar, ele nem tinha assunto pronto. Foi bem na hora que ela entrou.
O vestido estampado, pulseiras, sapato marrom escuro rasteiro com o pé sobrando um pouquinho de gordura. O conhecido crucifixo de prata no pescoço. Nas mãos, anéis em tudo que é dedo – diziam que ela lia carta, mas só quando queria, não era para ganhar a vida. Cumprimentou a todos sem falar e foi direto ao balcão. Os quatro concordaram entre si que ela ainda guardava restinho da beleza antiga, daqueles olhos verdões, da pele morena clara.
– Não vou mentir, a coroa é bonita. Mais novinha e eu até pegava.
– O que, corcunda? Se feche.
– Tô lhe dizendo. Eu sei a história dela: Dona Aurora Fernanda do Espírito Santo.
– Oxe, é esse nome todo?
– Nunca esqueci. Mainha me contou tudo. Já já eu falo.
Ela trocou poucas palavras com Zé e saiu com uma sacola de plástico. Todo mundo já estava começando a ficar meio feliz das ideias e Firmino resolveu contar sua história.
– Tu sabe de que, rapá? A mulher é toda na dela.
– Fulustreco, fio, tu num faz ideia…
– Vai, home, conta logo.
– Ô, Zé, traz mais uma aê que a coisa vai render aqui.
O corcunda tomou um gole longo, tipo gargarejo com cascalho, que sai limpando tudo. Fez um suspense e começou. Disse que aquilo já fazia tempo. Se Dona Aurora estava com uns sessenta ou mais agora, na época tinha 35 anos, no máximo. Nem vivia em Pedra Velha ainda.
– Mainha foi colega dela no tempo de moça, em uma escola da capital.
– Que coincidência.
– Num é? Depois seguiram pela vida e se falavam sempre.
– Quem diria…
– Dona Aurora vivia sossegada e solteira. O povo falava mal porque ela já tinha mais de trinta.
– Tempo escroto da porra, né?
– Barril. Ela saía pouco, mas tinha amigos.
– Acho ela até simpática.
– Eu também, Zoião. Reparem. Certa feita, à toa, ela foi no bingo.
– Jogo chato retado. Gosto não.
– É popular, véi. Nesse dia tinha um brinde especial e, espia só, ela ganhou!
– Era o quê? Um carro?
– Curso pra ser freira? Do jeito que aquela gosta de reza…
– Nada disso. Cês num adivinham é nunca.
Ficaram curiosos ao saberem que ela ganhou o passeio em um resort de rico no sul do estado. Sete dias! Na beira da praia, com passeio de cavalo e charrete, piscina, salão de jogos, tiro ao alvo, barco no lago, caminhada no mato, música ao vivo com dança, coisa que não acaba mais. Com direito a acompanhante. A mãe de Firmino não podia ir, aí ela convidou Dona Vivinha.
– Essa mesma que cês tão pensando.
– A vizinha de Dona Mina, das histórias de assombração?
– Oxe, gosto nem de falar daquilo…
– Me arrupiei aqui.
– Tô atentando agora, sempre foram amigas mermo.
– Ali era lé com cré.
– Apois. Dona Aurora pagou os extras das duas.
– Oxe, é rica? Nunca pensei. Se vive lá no Chupa molho?
– Era bem de vida, Humbertinho. Tinha uma herança do pai, de fazenda de cacau.
– Óia, quem lhe disse isso?
– Tô falando. Só não teve foi muita instrução.
– E por quê?
– O pai dizia que lugar de mulher era em casa, aquela coisa.
– Hoje ela tá pobre? Que história é essa?
– Me deixe contar, agonia.
E voltou à narrativa. Dona Aurora não aparentava ter dinheiro, vivia em estilo mais discreto. Poucos próximos sabiam da sua real condição. Não abria sobre a vida pessoal. Ao chegaram ao resort, as amigas deram de cara com o sujeito, logo no primeiro dia. O homem era mais velho, entre 45 e 50, em ótima forma. Parecia bem comum, embora fosse arrumadinho e usasse umas roupas combinadas, sem exageros. Cara confiante, de riso malicioso. Bom de leriado, se chegou bem fácil. Já partiu para passear com as duas mulheres pelos jardins. Cheio de gentileza, puxando cadeira, beijinho na mão, servindo as taças delas primeiro. Um cavalheiro. Dona Vivinha percebeu que ele queria Dona Aurora, que achou ele bonito, mas não se impressionou muito de primeira. Só que do segundo dia em diante, a maré virou.
Com voz suave e modos simples, ele falava bem e parecia entender de tudo que era assunto. Sabia remar, então teve barquinho e aula sobre navegação e construção de barcos. Contou ser engenheiro, que trabalhou muitos anos com bons cargos em empresas grandes, todas com nomes complicados. E os cavalos? Deu show de montaria, explicou tudo para ela. Foi sócio de haras, seguiu no ramo por um tempo, comprou cavalos, mas se apaixonou por vinhos e mudou o foco. A cada garrafa servida, ele discursava. Era aroma disso, gosto daquilo, amadeirado para cá, frutado para lá, safra tal, vinícola fulana. Dona Aurora foi se soltando e já o via com outros olhos. O homem era um monumento. As pessoas se reuniam em volta da mesa que ele estivesse e o ouviam com atenção. A mulher suspirava com aquilo tudo e ficou mais falante. Ele já avançava com facilidade no outrora misterioso território de Dona Aurora. Fulustreco disse:
– Rapaz, que home é esse…
– Cê devia aprender com ele, bicho feio.
– Óia quem fala. Cada olho é uma bola de futebol. Num pega nem gripe…
– E eu que achava que ela nasceu já toda religiosa, como é hoje…
– Calma. Escutem.
Firmino lembrou passagens engraçadas no resort, que sua mãe ouviu Dona Aurora contar. O homem, todo cheio de cultura, desandou a falar de música. Clássica, claro. Mozart, Beethoven, minueto, sinfonia, orquestra, o som dos instrumentos. Quis saber o compositor preferido dela, que mandou na lata: Zeca Pagodinho! Adorava. Até cantarolou uns sambas, alegrinha que só. Ele ficou sem jeito, mas não perdeu o ritmo. Foi para a literatura. E tome Jorge Amado, Drummond, Clarice. Caiu na besteira e perguntou o que ela mais gostava de ler. Recebeu pelos peitos: Caras! Louca por revista cheia de foto e fofoca de celebridade. Aquilo foi duro, só que o cabra era bom. Emendou um passeio diferente. Foram praticar tiro com arco e flecha. E não é que o cara era bom disso também? Quando convidou Dona Aurora para jantar no apartamento dele, acertou mais uma no alvo. Ela topou na hora. Aí Humberto interrompeu:
– Já tava achando que não ia passar o rodo.
– Que nada. Ele não era fraco, não.
– E aí, deu no quê?
Nesse ponto a conversa virou debate. Seria Dona Aurora ainda virgem? Não combinava com ela sexo antes do casamento. Ela já era carola? Alguns copos depois, aceitaram que talvez tudo aquilo fosse verdade mesmo. Firmino retomou, deixando claro que tiveram uma noite maravilha, de acordo com o que Dona Aurora contou pra Dona Vivinha no dia seguinte. Falou foi coisa boa do amante. Acontece que a amiga fez umas perguntas sobre a vida dele, de onde ele vinha e tal. Dona Aurora se tocou que não sabia quase nada. Caiu em si ao recordar que sempre que tentou saber alguma coisa, onde morava ou nasceu, essas coisas básicas, ele respondeu seco e cortou. Disse que aquela conversa era desnecessária e não detalhou a vida pessoal. Depois do alerta da amiga, ficou cismada e foi atrás de informação. Só sabia o nome: Alcides Guimarães. E se fosse falso? Ligou para um amigo engenheiro na capital. Ele foi pesquisar e retornou que ninguém conhecia engenheiro ou mesmo professor da faculdade com aquele nome. Falou um ou outro nome de empresa, com o mesmo resultado. Ela ficou preocupada. Não estava gostando.
No penúltimo dia, muito aflita, ela foi à capelinha do lugar, rezar para Santa Rita de Cássia, a das causas impossíveis. Estava apaixonada e com medo. Um exagero alguns diriam, porém, foi o que resolveu, segundo ela contou. Estava lá concentrada e ele apareceu. Ali mesmo, na frente de tudo que é santo, jogou um agá que recebeu telefonema com uma emergência na empresa e que o dinheiro dele estava preso em outro negócio e se ela podia ajudar. Ele pagaria na semana seguinte. Era dinheiro grande. Ela ouviu tudo. A conversa dele era danada. Ela quis dizer não, mas estava quase caindo. Aí apareceu Dona Vivinha e o peão recuou. Disse a ela para pensar que depois falava de novo. E foi embora. Quando ouviu as novidades da amiga, Dona Aurora paralisou. Zoião, que estava agoniado, disse:
– O que foi, véi?
– Dona Vivinha correu atrás. Tinha batido um papo com uma camareira.
– Brinque com mulher…
– A moça foi namorada de um ex-motorista do esperto.
– Eita! E aí?
– Pra começar, não era a primeira vez dele naquele hotel.
– Eita, chega engasguei aqui.
– Ele foi casado e viuvou duas vezes…
– Opa aí tem!
– Pois é, Zoião. Mortes suspeitas. Uma foi em acidente de carro meio estranho.
– E a outra? Fala, home!
– Morte súbita. E não teve autópsia. A criatura colocou no testamento que não queria.
– Que história é essa, mermão?
– Apois. Uma mulher saudável, com quarenta e poucos, que já tinha até testamento pronto?
– Isso é coisa do demo.
– Oxe, é de safado mermo!
– O peão ficou com o dinheiro de herança das duas.
– Ué e os filhos?
– Ele só pegava mulher sozinha.
– Feito Dona Aurora…
– Só que ela pulou fora. Foi embora no mesmo do dia.
– O cara deve ter emputecido.
Zé Tripa, que ouvia todo o papo, claro, trouxe outra rodada. Curioso, perguntou sobre Dona Aurora.
– Ô, corcunda, então ela é rica?
– Sei não. Uns dizem que torrou o dinheiro. Outros que doou. Eu acho que tá imocado.
– Ela vive tão simples. Mal sai da pensão.
– É verdade, Zé.
– Já chegou aqui devota. Por isso o povo chama de Dona Fervorosa.
– Óia que eu nunca soube.
– Ela considera que tudo foi livramento operado pela santa.
– Quem vai dizer que não?
– E tem mais. Ela e o tal homem se encontraram de novo aqui em Pedra Velha.
– Oxe, sério? E quem é ele, se não é Alcidio?
– Fulustreco, tu já bebeu demais. É Alcides, mas o nome dele é Serafim Antônio Lima da Silva.
– Deus é mais! Seo Serafim? O que é mau feito pica-pau? Foi livramento mermo!
– Pois é, Humbertinho.
Zoião deu um soluço alto e todos riram. Então, com a boca cheia de bola de gude, ele mandou:
– Rapaz, santa forte da porra! Será que resolve meu problema?
– Zoião, pra sua feiura, nem congresso de santo.
