Eu te vejo!

Eu te vejo! (de Carol Schettini)

Renan está sentado em cima do escorregador prateado no parquinho infantil em frente ao prédio de Joana. A ferrugem solta do brinquedo pinta sua calça jeans de alaranjado. Ele observa Joana pela janela utilizando um binóculo comprado para levar sua mãe ao show do Roberto Carlos. Os lugares eram no fundo e precisava de uma ajudazinha para ver o rei cantar emoções. Subir no escorrega para bisbilhotar estava virando um hábito.

Na primeira vez em que esteve na casa de Joana para buscá-la para ir ao cinema, mal passou da porta. Do batente, observou uma mesa com um computador onde havia um celular e um livro grosso, dois livros grossos, três livros grossos de matemática. A cortina balançava como um fantasma dançarino. Joana correu para fechar a janela e, enquanto desciam as escadas, lhe contou que dava para observá-la de fora do apartamento naquele local. Poucos sabiam disso, ela falou. Falou de um jeito banal, acrescentando não poder fazer sexo na varanda, ou seria notícia no dia seguinte, como o artista bonito de malhação, flagrado num hotel de Copacabana.

Renan mora a poucos quarteirões da casa de Joana. À noite, sai para dar uma volta, para correr, para ver a lua, as estrelas, o céu, São Jorge e o dragão e aproveitava para dar uma espiadinha em Joana. Nada de mais.

Agora, neste exato momento, Joana está sentada escrevendo no notebook, com uma perna no chão e a outra perna esticada na cadeira na sua frente. No seu colo, Chico, o coelho, remexe de um lado para o outro. Renan se atrapalha e deixa o binóculo cair, batendo no metal frio causando um estrondo, vários estrondos, bombinhas de São João. Joana chega na janela e olha diretamente na direção dele. Ela franze a vista e mira dentro dos olhos dele. Renan olha de volta, abaixa a cabeça, pega o binóculo e, antes que consiga sair correndo, ela grita:

— Para aí já! Eu te vi! Te vi!

Quando Renan levanta os olhos do chão, após contar as milhares de pedrinhas brancas que servem de tapete persa para o parquinho, ela está parada na sua frente. Não sorri e não franze a testa. Joana tem o rosto paralisado. Como se tivesse acabado de sair do dermatologista e aplicado doses de botox em toda superfície da sua face. Renan aperta os lábios para falar que estava observando pássaros. Poderia ser uma boa desculpa, se não estivesse escuro e o local não fosse um descampado.

— Nem pense em contar uma mentira. Sei que estava me espionando. Eu te contei!

Joana fala sem mover o rosto. Renan fica apavorado e contra-ataca:

— Você está de roupão no meio da rua!

— Não é um roupão. É um robe de plush. Falou o homem que segura um binóculo!

Renan tenta desviar a atenção do seu prisma Roof, escondendo-o embaixo da blusa. Talvez, se ensinasse a ela a diferença das lentes oculares e objetivas do seu binóculo para um clássico, ela não se aborreceria tanto. 

— Pior usar roupão no meio da rua. E sem sapatos!

Joana estreita os olhos e faz sinal com a cabeça para Renan a acompanhar para dentro do edifício. Ela mantém os braços cruzados em frente ao peito, pisando com seus pés descalços no piso frio de forma firme e pesada. Joana costuma ser leve, está andando como um elefante. Renan a segue com os ombros baixos, arrastando seus tênis de lona cor verde militar desbotado. Um bicho preguiça.

Dentro do apartamento, Renan se senta no sofá. Um sofá cru, com uma manta azul de letrinhas jogada no canto. Joana puxa uma cadeira da mesa e se senta na frente de Renan.

— Então? — ela diz.

Renan se lembra da primeira vez em que viu Joana. Ela trabalhava na biblioteca. Vivia empoeirada, com os braços amarrados em livros. Usava sempre uma roupa neutra para não descombinar com nenhuma das capas que carregava para cima e para baixo. Seu rosto era da cor da sua roupa. Sem nenhuma cor. Joana era uma pessoa de uma cor só. Quando abriu uma vaga para assistente na coordenação, para cuidar da parte de monografia, ela ficou com a vaga. Pintou a cor do cabelo. Uma mulher de uma cor com um cabelo mudando de cor. Algumas vezes, ficava pegando fogo. O cabelo, vermelho. O resto do rosto, ainda sem cor.

— Então, Renan. — Joana insiste, sacudindo os braços. 

— Você nunca usa maquiagem? — é o que ele diz.

Joana se levanta sem mexer a cadeira. Vai para o quarto e fecha a porta. Renan continua sentado. Pensa em ir embora, mas a cada ensaio de movimento uma voz na sua mente grita: espera! Dez, quinze, vinte minutos depois, Joana volta. Ainda vestida de roupão/robe, descalça, maquiada. Uma Joana com o melhor filtro do Instagram. Tem cor na pele, nos olhos, nos cílios, na bochecha, na boca. Glitter voa até Renan.

— Uau! 

Joana volta a se sentar na sua frente. Seu rosto pintado tal qual uma tela de Romero Britto continua impassível. Um contact.

— Uau! Você diz uau?! Era isso? Bisbilhotava para saber se eu uso maquiagem. Sério?! Quer que eu acredite numa bobice dessa? 

Joana fala sem gritar, ainda assim, sua voz surge como uma chama azul, com combustão completa. 

— Você quer saber se tenho tatuagem? Não tenho. Cicatriz de operação? Não tenho. Roxo? Veias com trombose? Nada. Nada. Nada. Então?

Renan não sabe o que dizer. Quer saber porque ela tinha um livro de matemática na mesa e agora tem um livro de botânica. Palavras cruzadas. Ela deve fazer palavras cruzadas.

Chico, o coelho, surge debaixo do sofá e pula na cadeira. Seus olhos vermelhos frente a frente com os olhos de Renan. Joana pega Chico, o coelho, no colo e faz massagem nas suas orelhas. Renan está com os dois braços retos em volta do corpo, suas mãos apertam as almofadas do sofá. Ele não diz uma palavra. Um silêncio ocupa todos os espaços ao redor do ambiente. Só Chico, o coelho, permite um espirro. 

— Por que você tem um coelho?

— Quando ele morrer, vou ter um pé de coelho só pra mim.

Renan não acredita. Joana só pode estar brincando.

— Por que você tem um coelho?

— Por que eu não teria?

— Todo mundo tem cachorro. Ou gato.

— Ou porco. 

— Ninguém tem porco.

— Ou galinha. Ou vaca. Ou pássaro. Ou pombo.

— Um coelho vende em pet?

— Eu ganhei esse coelho.

Renan nota uma leve subidinha no canto da boca de Joana. Como se ela estivesse segurando um riso alto. Um riso no cemitério, no meio do velório do chefe ou do parente esquisito. Ganhou? Quem ganha um coelho? 

— Ah, tá! — ele diz, ainda sentado, sem se mexer, com medo dela jogar o coelho no seu colo. Renan é alérgico a muitas coisas, só o fato de imaginar um pelo de coelho entrando por seu nariz faz seu nariz fechar, sua glote, sua garganta. Um conhecido teve uma falta de ar e outro conhecido o salvou com uma caneta bic. Enfiou na sua goela. Se é verdade, não tem como provar, foi o que lhe contaram. Renan costuma andar com caneta bic na pasta, nunca se sabe.

— Você tem uma caneta bic? — ele pergunta a Joana.

— Tenho um monte de canetas. Pra quê?

— Bic? Tem bic?

Renan sente sua garganta fechando. Corre até a varanda para pegar um pouco de ar. Abre e fecha a boca repetidas vezes. Passada a crise de pânico, olha para Joana. Ela está de pé encostada na parede segurando um copo d’água. Joana entrega o copo para ele.

— Cadê os livros de matemática? — ele pergunta.

— Quais livros?

— Vi outro dia aqui.

— Devolvi. Eram da biblioteca.

— Você estuda matemática?

— Não.

— Faz palavras cruzadas?

— Não.

— Faz joguinhos com contas?

— Que ideia!

Renan precisa saber porque Joana tinha aqueles livros de matemática. Livros da biblioteca devolvidos ou trocados por outros tantos livros de botânica. 

— Você pegou livros de matemática à toa?

Joana não é de falar muito. Usa frases curtas e rápidas. Transmite sua mensagem sem firulas. É uma boa mentirosa. Mente sem mexer o músculo que denuncia a falta da verdade. Não olha para cima nem para baixo nem para o lado. Mentir para ela é como fazer crochê. A linha precisa ser bem trançada. Quanto menos informação, menos chances de errar um comentário. Não sei porque dei corda para esse Renan. Ódio de mim. Joana não foge da resposta. Uma mentira rápida é melhor do que uma dúvida eterna na mente nem tão brilhante de uma pessoa que trabalha lado a lado com ela. 

— Estou escrevendo um romance.

— Um romance?

— Nunca viu um romance? Um livro com muitas páginas onde a mocinha casa no final. Ou morre.

— Um romance de matemática?

— O personagem é um contador.

— Um contador?

Joana está perdendo a linha. Pode dar nó ou perder um ponto. Uma mentira com detalhes precisa ser anotada em um caderninho. Passa do ponto de crochê para um ponto de tricô, bem mais largo. É hora de Renan ir embora. Ela anda até a porta da sala, abre e fica esperando ele sair. Renan coloca o copo em cima do livro de botânica, olha para o título, olha para Joana, espera e não diz nada. Perto de Joana, é o leão do Mágico de Oz, sem coragem. Os lábios cerrados de Joana e seu rosto tombado para cima mostra: já deu. Renan desce. Antes de voltar para casa, ele sobe no escorregador e grita por ela. Joana aparece na varanda e ele grita:

— Você quer ir ao cinema de novo?

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