Abro os olhos sem me mexer. Sei de quem acordou em quarto estranho para, num salto, quebrar o nariz na quina de parede que não lembrava que estava lá.
A luz do poste filtrada nas folhas abaixo de mim revela que ainda não amanheceu. Bom. Posso descer com calma sem o risco de ser visto. Desato a cinta que me prende à confluência de dois galhos, ajeito nas costas a mochila que me serviu de travesseiro e posiciono o corpo de frente para o tronco. Gatos não sabem descer de árvores porque tentam fazer isso com a cabeça para baixo: o medo os paralisa. Aprendi desde garoto que a melhor posição para descer é igual à da subida, com o corpo arqueado, mãos esticadas e pés bem apoiados no caule.
Desenvolvi a técnica de trepar em árvores e escalar pedras na trilha para o famoso jequitibá-rosa de Cachoeiras de Macacu, onde nasci. Comecei aos cinco ou seis anos, sozinho, nas árvores ao longo do rio. Meu pé criou um couro duro e riscado de tanto raspar nos troncos de palmeira. Pré-adolescente, já encarava com os moleques as escarpas do pico da Caledônia. Era escalada raiz, sem cordas, luvas especiais ou sapatos com pregos. A modalidade solo ainda é a mais divertida.
Começo minha perambulação pelas ruas vazias. A primeira pessoa com quem cruzo é Virgínia, que sai da guarita de vigia onde cumpre o turno noturno como Leonel (mas essa é outra história). Me lança um olhar cúmplice se equilibrando nos saltos em direção à praça no fim da rua. Acho que Virgínia sabe onde eu passo as noites, como eu sei o que ela faz para pagar os boletos. Informação é essencial; sempre foi. Passo na igreja onde o padre dá café com leite para o povo da rua. Entro na fila depois de Zé Todinho, bêbado sem passado que gesticula para o vazio. Logo aparece atrás de mim o Mendigo Que Berra. A agitação de um e os gritos do outro não me incomodam. Sigo sem levantar os olhos do cão. Na minha vez, recebo o saquinho e o copo plástico e não respondo amém. Como enquanto ando. Sou invisível como os loucos, como os bêbados. Segurança era um dos meus lemas na corretora.
Minha cor ajuda a ficar invisível na paisagem urbana. Quem repara num sujeito com a pele entre o castanho e o verde-oliva (o IBGE me classificaria como pardo) zanzando por aí com roupas doadas? A calça é de número maior que o meu e o moletom exibe buracos nos cotovelos. Na cabeça, um gorro. O saco com latinhas vazias completa meu uniforme. A jaqueta térmica e os sapatos de escalada ficam escondidos na mochila esfolada pelo uso. Meu pai era mirrado como eu e quase branco; herdei mais a cor da mãe. A pele escura dela brilhava com as gotas de suor que brotavam na lida com a criação na chácara onde morávamos. Mesmo assim, ficava marcada pelas pancadas que o pai lhe dava nas noites de sábado, quando bebia o salário de caseiro. Fugi de casa assim que mãe morreu.
Para mim, a vida no Rio de Janeiro era parecida com a da roça. Acordava cedo para vadiar e escalar ─ agora na Agulhinha e na Pedra da Gávea, antes que chegassem os playboys com suas roupas coloridas. À tarde, fazia bicos como entregador de armazém (em vez de carregar lenha) e depois seguia para o curso noturno. Dormia num quartinho no fundo de uma birosca na Rocinha. Até que entrei na UFRJ como cotista. Antes de me formar em Economia já estagiava no mercado financeiro. Informação era meu outro mote.
Ainda não contei que estou agora em São Paulo. Me hospedei em hotéis na Cracolândia até descobrir como é difícil passar despercebido, mesmo no centro do fluxo, com tantos porteiros, tiras e caguetes. Até que o Carioca teve de sumir de novo. Ando pela calçada da Santa Casa com a vista no chão, como quem procura tocos de cigarro. No longo muro de tijolos antigos que me lembra Londres existe um ponto de droga 24 horas. O carro para na esquina da Marquês com a Vila Nova, um sujeito retira o pacotinho de trás de um tijolo solto e o negócio é fechado. Passo por ele, que está distraído no celular, e recolho uma garrafa vazia jogada no pé da árvore. Será útil hoje à noite.
As festas juninas são famosas em Cachoeiras de Macacu. Eu e os outros meninos ficávamos engalhados nas mangueiras da pracinha de Boca do Mato desde o começo da tarde. Em silêncio como se fôssemos preguiças depois do almoço, o embornal cheio de bombinhas que fabricávamos com bolinhas de pingue-pongue e restos de pólvora. Na hora da quermesse, já com o céu recoberto de estrelas, cada um soltava seu traque na cabeça de um desavisado. Era bonito de ver a correria do povo. Quando se juntavam num canto para caçar o pivete suspenso, outra bomba estourava do lado contrário do largo. Enquanto eles corriam com pedaços de pau lá embaixo, nós cruzávamos pelo alto guinchando feito micos-de-topete.
A corretora onde comecei ficava perto, em São Conrado. Um dia, o diretor me chamou.
“Você mora na Rocinha, né, Zinho?” (Esqueci de dizer que me chamo Cézar.)
Não dá para negar um dado para quem tem acesso a sua ficha de admissão.
“Tô vendo um lugar melhor na Barra, seu Hermes”, menti.
“Não se preocupa. É que alguém que te conhece lá do morro garantiu que você é firmeza.”
“É?”
“É. O pessoal sabe que você estuda direitinho e não tem ficha. Faz esporte, gosta de escalar montanha…”
“Estou aprendendo ainda.” “Pois então. Eu queria te propor um negocinho que vai dar para você comprar muita cordinha importada. E, logo, logo, aquele apartamentinho na Barra da Tijuca.”
E foi assim que entrei para a facção. Não para o exército armado deles ─ digamos, para a intendência, que fornece os bens e serviços dirigidos ao afluente mercado do crime organizado. Mais especificamente para o setor de lavanderia. Cada vez que explodia um caixa eletrônico em Alagoas, eu abria uma carteira de blockchain. Uma cidade do interior do Paraná amanhecia sitiada e eu aplicava numa conta sem lastro na internet. Passei a receber meu contra-cheque no RH e um envelope na sala do seu Hermes. Sobrava tanto dinheiro que deu para percorrer o circuito dos sonhos de todo alpinista: da Serra do Cipó ao Matterhorn. Da Chapada Diamantina a Khuite. Eu adorava a ação.
Quando me preparava para alcançar o topo do mundo, no Nepal, o mosquetão que sustentava o esquema quebrou. Era dezembro de 2020. A facção precisou de dinheiro rápido para pagar um carregamento no Tom Jobim, mas as criptomoedas haviam atingido naquele mês o valor mais baixo da história e só consegui entregar metade do valor investido. Meu contato ligou para reclamar na hora em que eu almoçava no quiosque em frente à corretora. Tentei argumentar que era só esperar uns meses para a cotação voltar a subir. Ele bufou e ficou de retornar. Ao atravessar a rua, vi seu Hermes sem paletó saindo da corretora e entrando numa SUV preta. Fui para casa, fiz uma mochila com o essencial e chamei um Uber até São Paulo. O chip do celular ficou na pista da avenida Brasil.
O apresentador do telejornal na tarde fazia um discurso cheio de perdigotos contra a “facção que está destruindo o Brasil”. Era meu segundo dia no hotelzinho barato da alameda Cleveland. Mesmo tendo quebrado os cartões de crédito, eu ainda tinha dinheiro vivo para bancar um mês no Fasano, mas resolvi ficar abaixo do radar por uns tempos. Na tela da TV, a cara do apresentador nervoso diminuiu para dar lugar a grandes letras brancas sobre fundo vermelho: “Banco do crime estourado no RJ”. Na sequência, à esquerda surgiu a cara bolachuda do seu Hermes, nomeado “Grego da Pavuna”. Eu apareci à direita, com o cabelo raspado dos tempos do Exército e a legenda “*uzinho de Cachoeira”.
O burburinho que vinha da rua aumentou de volume quase no mesmo instante. Da janela, vi que cinco ou seis homens em fila atravessavam a multidão de zumbis. Distribuíam pancadas de um lado e outro para abrir caminho. Esperei entrarem no hotel para pular para o galho da figueira que quase tocava a janela. Era uma das únicas árvores de grande porte que restavam na região, e eu havia escolhido aquele quarto exatamente por isso. Passei a noite amarrado no galho mais alto, em silêncio, enquanto os invasores me esperavam deitados na cama.
Um ano depois, tenho um mapa mental com os melhores abrigos vegetais da cidade. Tentei de início os bairros mais verdes, como Jardins, Morumbi e Chácara Flora, para descobrir que entre as árvores frondosas vicejam vigilantes armados e grupos civis dedicados a fazer de alvo os moradores de rua. Prefiro a região em volta do centro. Claro que lá é mais difícil encontrar os espécimes adequados. Jequitibás em Santa Cecília. Quaresmeiras na Mooca. Sibipurunas na Liberdade. Em compensação, dá para se misturar aos pobres e miseráveis que reviram o lixo e dormem nas calçadas sob viadutos e marquises. Tanto eu como eles somos galhos quebrados depois da ventania. A diferença é que eu escolhi viver assim.
Nas tardes de cachoeira, aprendi a conviver com os bichos com quem compartilhava os galhos. Formigas que vinham passear em minhas pernas. Besouros que grudavam no meu cabelo. Larvas rastejantes. Periquitos me acordavam pica-paus furavam o tronco a poucos metros de mim. Saguis me acertavam com gravetos. Li que as plantas se comunicam entre si por meio de uma rede imensa formada por raízes e fungos. Trocam quimicamente informações sobre o clima, sobre a posição e o ritmo de crescimento das espécies em volta. Cooperam para sobreviver. Às vezes acordo com um leve estremecimento nas folhas. Fico alerta; em um instante a chuva começa. O tronco pulsa; chega o caminhão da poda. Já aconteceu de eu descer de uma tipuana minutos antes de ela desabar sobre os carros, arrastando os fios elétricos da rua. Informação a serviço da segurança, da sobrevivência.
Meu estoque já está de bom tamanho. Venho enchendo garrafas com gasolina há algumas semanas. Estão camufladas em buracos no pau-ferro e no jatobá que se erguem diante da transportadora de valores na Barra Funda. De cima, vejo os carros-fortes alinhados no pátio às escuras. Em um dia normal, saem às sete da manhã em direção aos bancos e caixas eletrônicos. Cada veículo carrega milhões de reais e quatro ou cinco guardas com escopetas. Nenhum deles chegou a esta hora.
As árvores sabem que o ataque da facção virá no meio da madrugada. Eu também sei. Informação. Segurança. Ação. Esta noite vai ser estrelada como nas festas juninas de Cachoeiras de Macacu.
