(Angélica)
– Sabe, no fim de semana eu assisti um caso no Youtube, num desses canais de crimes, e achei que eu era um dos personagens.
Me olhando surpreso, Doutor Abelardo pergunta – De crime? Como assim, Nina?
– Vou contar a história para o senhor. É do começo do século XX, nos Estados Unidos, não lembro o nome da cidade. Uma tal de Dolly, casada com um industrial muito rico chamado Fred, é dona de casa e gosta de costurar. Um dia, a máquina de costura quebra e o marido manda um funcionário ir lá para fazer o conserto. Quando o Otto chega, Dolly o recebe praticamente nua. Ele tem dezessete anos, um metro e meio de altura, é franzino e míope. Os dois se atracam na mesma hora. No começo, os encontros são nos hotéis da cidade, mas por ela não ter como justificar tantas saídas e também os gastos, Otto passa a visitar Dolly todas as tardes. A fofoca dos vizinhos faz com que os amantes tomem uma decisão: ele se demite e vai morar no sótão. Como não tem família, ninguém questiona o seu sumiço. O lugar é apertado e sem janelas. Otto se distrai lendo livros de faroeste e também escreve algumas histórias picantes, deve ter bastante inspiração. Durante a semana, enquanto o marido trabalha, os pombinhos rolam pelo tapete da sala. E rolam muito, viu? Depois de cinco anos, Fred decide morar em Los Angeles. A esposa pede para escolher a mansão, lógico, precisa de um sótão e de preferência maior. Otto se muda um dia antes do casal e o rala e rola continua. Até que numa tarde, a polícia recebe um telefonema de uma vizinha, ouviu uns tiros e está em pânico. Quando os investigadores chegam, encontram Fred caído na escada, morto. Uma bala atrás da orelha esquerda e outra no coração. Acham Dolly trancada no armário do quarto. Ela sai desesperada gritando que foi um assalto. Com tantas joias, o ladrão só roubou o relógio de bolso de Fred e ainda por cima cometeu o crime com uma pistola calibre 25, arma de mulherzinha segundo o chefe do departamento de investigações. Mesmo sendo a principal suspeita, ela é liberada, não há nenhuma prova que a incrimine. Dolly se muda para uma casa nova e se envolve com o advogado que está cuidando do espólio do marido, Shapiro é o nome dele. Já o Otto vai muito bem, obrigada, e segue no sótão. Depois de alguns anos, ela se cansa dos dois e arruma outros amantes. Tem um caso com um tal de Glumb. Dolly acaba pedindo para ele se livrar da pistola. Mas ao ser rejeitado pela devoradora de homens, decide contar para a polícia onde a arma do crime está, num poço cheio de piche. Mesmo não tendo indícios do crime na pistola, Dolly é presa. Aí vem uma dúvida cruel na sua cabecinha, vai falar do Otto ou não. Como a porta do sótão está trancada pelo lado de fora, ele pode morrer de fome. Manda Shapiro, que até então não sabe de nada, libertar o prisioneiro, inventa que ele é um meio irmão. Otto conta tudo e aproveita para sair do país. Mesmo ciente dos chifres, um ano e oito meses mais tarde, o advogado consegue que Dolly seja solta e todas as acusações são retiradas. Depois de sete anos, Shapiro não aguenta mais o comportamento devasso da mulher e escreve um dossiê para a polícia. Dolly e Otto vão a julgamento. Aquela vizinha que ligou para polícia diz que quando escutou os disparos, correu para janela e viu os pés de um homem andando na sala de jantar, o estranho é que ele estava descalço. Nada menos que os pezinhos de Otto. No depoimento, ele conta que passou vinte anos no sótão. Além de trocar os lençóis toda semana, cuidar das roupas do Fred, engraxar seus sapatos, também limpava a casa e atendia aos desejos sexuais de Dolly várias vezes ao dia. O júri fica com pena de Otto e o condena por homicídio culposo, o crime já tinha prescrito e ele acaba livre. Ela também. Uma semana antes de morrer, aos oitenta e um anos, Dolly se casa de novo, e na foto, mal para em pé.
O Doutor Abelardo ri levantando o queixo – Esse caso é ótimo, mas me explica, não entendi, com quem você se identificou?
– Com o Otto, oras. Quem me dera ter o fogo da Dolly.
– Até me assustei.
– Essa coisa de não poder beber, também estou presa num sótão. Não aguento mais sair para tomar café.
– Então, agora é minha vez de contar uma história. Pode ser?
– Claro.
Alguns anos atrás, um rapaz chegou aqui bastante transtornado. Assim que começamos a conversar, ele disse que foi expulso do consultório do outro psiquiatra. O que aconteceu?, perguntei. Não sei o que deu em mim. Pois bem, quando ele chegou para a sessão, a secretária abriu a porta, disse que o doutor ainda estava atendendo, e se arrumou para ir embora. Ela sempre fazia isso, ele era o último paciente. Sentou no sofá e ficou aguardando. Às vezes a consulta anterior atrasava um pouco. Mas nesse dia, segundo ele, não terminava nunca. Entediado com a demora, começou a observar a sala de espera. Como o quadro da mulher pelada em cima da cama ele já conhecia bem e era de extremo mau gosto, resolveu procurar algo um pouco melhor. Ao se virar para a outra ponta do sofá, viu uma samambaia. Geralmente elas ficam penduradas, mas essa não, estava num vaso alto com os pés de ferro. Era bem verdinha e ia até chão. Ele deu um pulo e foi para o lado dela. Como não tinha ninguém olhando, resolveu cutucar a planta. Depois disso ele apagou. Só voltou a si quando ouviu os gritos do psiquiatra. Por que você fez isso? Você enlouqueceu? Não, não foi isso, quis se vingar, não é? Ele não conseguia se mexer, estava assustado. O psiquiatra ficou tão vermelho mas tão vermelho, que por um momento o rapaz achou que quem precisava de um médico era ele. Mesmo em pânico, pensou que se pedisse desculpas e dissesse que não queria se vingar de ninguém, estava lá só para fazer a consulta, o outro ia se acalmar. Assim que tentou pronunciar as primeiras palavras, percebeu que tinha alguma coisa grudada nos lábios dele. Se pelo menos o psiquiatra parasse de berrar. Na hora que foi limpar a boca, umas folhinhas voaram para o seu colo. Ao olhar a samambaia, quase teve um piripaque. Eu fiz isso? Não é possível! Sabe quando o gato come um passarinho e fica com umas penas na boca? Ele comeu a planta toda. Os galhos secos pulavam do vaso como uma peruca com um cabelo grosso e duro. O psiquiatra botou ele para correr. Disse que dava para escutar os berros lá da esquina e que aquela porcaria de samambaia era o xodó dele.
Estou chorando de tanto rir quando o Doutor Abelardo acaba, ele também solta algumas risadas. Nunca tive um psiquiatra que risse tanto, entre todos, sem dúvida nenhuma ele é o mais bem humorado. Mesmo na minha pior fase, sua voz nunca se alterou, sempre foi tranquila como um quarto sem pernilongos. Se toco num assunto cabeludo, saio da sessão com uma trança.
– Nina, sabe por que esse rapaz entrou nesse estado?
– Ele era psicótico?
– Não, mas estava tomando remédio para esquizofrenia. Depois que me contou tudo isso, perguntei o que ele tinha feito antes de ir para o consultório. Disse que foi num posto de gasolina e tomou uma long neck. O que ele tem, na verdade, é embriaguez patológica. Não pode beber de jeito nenhum.
– Tudo isso por causa de uma cerveja e ainda pequena?
– É, o cérebro dele é sensível a álcool. O seu também, mas por outro motivo.
– Nunca mais vou contar uma história para o senhor, Doutor Abelardo.
