por Américo Paim
Os quatro ainda estavam à beira do campo de futebol, meia hora após o fim do jogo. As divergências antigas voltaram à tona e Luvanor e Ubajara perderam a linha. Estavam à beira de algo mais grave.
– Você é um zé ninguém igual a seu pai.
– Retire esse insulto, canalha!
– Ele é um velho inútil. Um peso!
– Tudo tem limite, Luvanor!
– Ainda bem que meu pai despediu aquele traste bêbado!
– Tô lhe avisando…
– Ele é mais um indiozinho de merda, feito você.
– Vai pagar por essa língua suja!
– Ele que morra de cachaça longe da fábrica!
– Cuidado com o que diz, desgraça!
– Além de tudo, ladrão. Deu desfalque no escritório.
– Mentiroso! Foi tudo plantado. Você sabe!
Gumercindo e Eliezer impediram o pior, mas cheio das humilhações, Ubajara surpreendeu:
– Chega! Se desculpe ou aguente.
– O quê? Vai me bater?
– Não. Vamos fazer do jeito dos antigos.
– Com peninha de cocar, seu frouxo?
– Não. Um duelo. Você escolhe as armas.
– Que piada é essa?
– Tá com medo, maldito?
– De quem? Tá louco? Isso acaba mal pra você…
– Vai encarar ou não?
– Cara, tu tá é morto. Se é o que quer, vamos de 38.
– Perfeito. Vai ser na regra das três sentenças.
– O que é isso? Mandinga de índio?
– Você escolheu as armas. Eu digo onde e como.
– Vai levar um balaço no meio dos cornos.
– Veremos. Esperem Eliezer na praça, amanhã cedo, 7:30h. Só vocês dois.
– Estaremos lá, mortinho.
Cada dupla foi para um lado. Eliezer ainda estava incrédulo sobre o que ouviu:
– Perdeu a razão, véi?
– Não. Tô com a cabeça boa.
– Ele é o maior atirador da região. Isso é são?
– Calma, não é o que parece.
– Cara, é suicídio.
– Quer parar? Preciso de sua ajuda. Vou lhe explicar.
Do outro lado, Gumercindo ponderou com seu amigo:
– Aí tem treta, só digo isso.
– O que pode ser? Ele não tem chance.
– Tá muito fácil. Num tô gostando.
– Vai ser rápido.
– Se for uma emboscada?
– Nada. Ele só tem Eliezer pra ajudar. Mosca morta.
Na manhã seguinte, no local combinado, Ubajara não estava. Tinha ido na frente. Gumercindo protestou, mas não deu em nada. Caminharam até os limites da cidade e entraram na mata, por uma trilha bem escondida. Eliezer conhecia bem o lugar e caminhava como se fosse um campo aberto e não aquele emaranhado de folhas, gravetos, árvores e pedras. Cada avanço na densa vegetação foi mudando o astral de Luvanor. Era indiscutível seu desconforto, que não conseguia controlar. Veio um arrependimento mesmo. Seria uma armadilha? E se apenas se desculpasse? Quem sabe se essa história absurda de duelo parasse ali. O suor frio lhe escorria da testa. Mãos molhadas, pernas trêmulas. Seus passos incertos e curtos de medo. Corria um vento frio na trilha e a luz diminuía, apesar do sol da manhã. Ele andava como derrotado. Sentia a certeza do fim. Parecia estar sob feitiço.
Sem conhecer o ritual, Luvanor imaginava as piores coisas. Desde menino ouviu as histórias das matas em volta de Pedra Velha. Criaturas medonhas e assassinas, desaparecimentos extraordinários, buracos devoradores, gente que entrou e voltou maluca, magia negra. Se desesperava porque agora era com ele. Seu nome estaria nas rodas de cachaça, nas praças, nos livros de cordel. Aquele que entrou na floresta e não voltou. E Gumercindo? O que seria dele? Sobreviveria para contar os detalhes sórdidos ou sucumbiriam juntos? A cabeça fervia. A cada instante ele pensava que o desfecho estava próximo.
Seria engolido por uma besta selvagem? Cravejado de espinhos venenosos e entregue aos urubus? Olhou para o céu procurando as aves agourentas, mas só via o topo das árvores. A luz nem chegava direito ali. Cairia num poço fundo, cheio de escorpiões? Ou de um penhasco – havia vários ali. Ou seria comido vivo por uma tribo perdida? E se fossem inseridos insetos letais em seus ouvidos e nariz? Sua imaginação fértil o aterrorizava de forma real. A encrenca parecia grande e a aflição era enorme. Retardou ainda mais o andar e conversou com o amigo.
– Velho, tô dando conta não.
– É o quê, Luvanor?
– Saporra não tem lógica.
– Ah, agora acordou?
– O que pode ser?
– Mermão, sei lá.
– Cê trouxe o trabuco?
– Claro, ué.
– Fui idiota em aceitar essa merda. Tem alguma bagaça aí.
– No fim das contas é com revólver, papá. Bom pra você.
– É vero. Escolhi a arma e ele aceitou!
– Ô, vocês vão desistir? Bora! – Eliezer gritou de longe.
Seguiram. Após a conversa, Luvanor relaxou mais. Passaram entre duas fileiras de pés de Cambuci e chegaram a um paredão de pedra, que contornaram pela esquerda. Poucos metros depois, havia uma fenda na rocha, espaço para uma pessoa muito magra passar, mas o guia afastou parte da pedra sem muito esforço. Era uma fachada falsa. Se apresentou uma rampa curta e na sequência um corredor sem iluminação. As paredes eram forradas com folhas, o que dava ao espaço um aspecto de organismo vivo, frio e úmido. O chão era de barro. Usaram lâmpada de um celular. Logo chegaram ao fim da passagem, onde havia rampa similar à da entrada. Ela levava a um local com luz natural, de visual improvável, ali, no meio da mata. Um descampado bem peculiar.
Era um retângulo de 15 metros de largura por 30 de comprimento. O chão de terra batida. Mata fechada no entorno. Do lado oposto à rampa, uma estrutura feito uma arquibancada, madeira amarrada com cipós, bem desgastada, sem uso há tempos. Em cada extremidade da largura, uma mesa de madeira, com altura média normal, largura de 20 cm e um metro de comprimento, com três furos equidistantes, que pareciam corriqueiros, mas não eram. Uma grossa toalha branca cobria cada mesa. Não se via nada embaixo das mesas, que tinham uma cadeira ordinária de madeira para cada uma. A da esquerda estava vazia. Na da direita estava sentado Ubajara. A seu lado, de pé, um homem baixo como um anão.
Ubajara usava a mesma indumentária orientada ao outro duelista. Camisa de botão com mangas curtas, calça e sapatos. Tudo branco. Seus olhos e cabelos negros faziam uma figura destacada. O homenzinho usava óculos escuros, calça e camisa de manga comprida pretas, sapatos de cadarço. Não tinha cabelos. A pele morena escura. Luvanor ficou inquieto ao ver o oponente e foi a ele.
– O que é esse circo?
– Será aqui o duelo.
– E essa pataquada de mesa e cadeira? Onde estão as armas?
– Tudo a seu tempo. Primeiro, as formalidades.
Pegou um livro desgastado que estava sobre a cadeira. Ali estavam registros de muitos duelos antigos. Abriu cuidadoso e leu, em resumo, isso:
Não haverá testemunhas.
Não haverá misericórdia.
Os duelistas concordam com o ritual das três sentenças.
O ritual se encerra com a morte de um duelista.
Nenhum cadáver sai da arena.
Determinou-se que cada um manchasse o papel com um filete de sangue.
– Agora não tem mais volta, Luvanor.
– Azar o seu.
– Vou explicar o ritual.
– Vamos com isso.
– Em cada furo da mesa, há um saco de pano com conteúdo diferente.
– O que tem?
– Não é revelado. Eu mesmo não sei.
– Quer que eu acredite?
– Só quem sabe é Opira, guardião do livro e da tradição – apontou para o homenzinho.
– Então que fale agora.
– Ele é cego e mudo – levantou os óculos e se viu duas grandes cicatrizes. Mostrou a língua cortada.
– Num tô gostando disso.
– Agora vamos até o fim. Cada um mete a mão no saco em uma jogada de cada vez.
– E faz o quê?
– O conteúdo tem o bastante para matar um duelista.
– E vai ser você!
– Vamos sortear quem começa.
Opira se encarregou de organizar os conteúdos. Ao final, Ubajara apontou para uma placa, carcomida pelo tempo, colocada acima da rampa. Lá estavam três sentenças, em caracteres desconhecidos.
– O que está escrito ali?
– “Uma pode ser suficiente. Três não são necessárias. Duas são definitivas.”
– Que coisa mais estúpida.
Os duelistas escolheram suas mesas. Ubajara ficou com a da esquerda. Seu oponente foi sorteado para começar o jogo. Enfiou a mão no saco do meio. Retirou uma bala de revólver 38. Ubajara escolheu o da esquerda e tirou de lá um 38. Luvanor tremeu, só que a arma estava descarregada. Ele entendeu – precisava da arma e o outro da bala. Sua segunda escolha foi o saco da direita. Colocou a mão, soltou um grito horroroso e caiu morto. Gumercindo foi conferir o que havia lá: uma serpente muito venenosa. Questionou a lisura do jogo e quis saber o que havia no terceiro saco. Ubajara interrompeu: “duas são definitivas”. Pegou o livro e escreveu lá: “Ubajara venceu o duelo”. Na confusão, Gumercindo sacou seu revólver, mas foi contido pelos dois. Desesperado, pediu que não o machucassem. Eliezer lembrou que não poderia haver testemunhas, mas a decisão do amigo o surpreendeu.
– Vou lhe dar uma chance.
– Por favor, por favor! – disse Gumercindo.
– Diga onde devo colocar a mão na minha segunda escolha. Se for a bala, será a que vai lhe matar.
– Não é justo!
– Claro que é. Pode ser a cobra e eu morrerei. Seu amigo será vingado.
– Ubajara, isso é loucura. Não vou deixar!
– Eliezer, deixe que ele decida.
– Retire o da direita!
Ubajara pareceu que ia acatar a sugestão, mas de súbito mudou, escolheu o do meio e uma bala deu fim ao parceiro de Luvanor. Eliezer, estressado, falou ao amigo:
– Você sabia?
– Tanto quanto você.
– Posso ver o que está no terceiro saco?
– Para quê? Duas são definitivas.
