Indigente

O último gole de café quase faz Benício se engasgar. Traz, no fundo do copo, um pouco do pó, que deve ter transbordado do filtro de pano e escorrido pelo lado de fora da cafeteira. Não é assim que se coa um bem escuro. Agora, os resquícios grudam na garganta desse homem comprido arcado sobre o balcão da padaria. Com as mãos ossudas, ele tenta abafar um pigarro cavernoso. Na mesa atrás dele, uma enfermeira devolve ao canudinho uma parte do suco de laranja que sorvia. O espetáculo gutural revirou seu estômago. Os dois velhos atarracados nos bancos perto da porta também interrompem o chuchar em suas xícaras e comentam algo, olhando de lado para o ex-policial. Um dos atendentes, um moço de pele parda e cabelos bem escuros e lisos, corre para levar um pouco de água da torneira.

Porra, Índio, será que nem pra passar um café você presta?

Fui eu não, doutor.

Que não foi o quê. E quem fez esse chorume?

Foi Cesário, doutor. Só botei na xícara. Quem fez foi ele, foi sim.

Sentado atrás do caixa, um sessentão bochechudo e com óculos de lentes pequenas, nem troca um olhar com o cliente. Segue mastigando a própria barba crespa e amarelada, impassível como um jogador de buraco esperando sua vez de jogar. Velho comuna. Benício abre o colarinho da camisa listrada, massageia o peito peludo, pega uma porção exagerada de guardanapos de papel e enxuga o suor da testa e da nuca, tossindo a galope.

Puta merda, Índio, se ainda fosse delegado, te prendia por tentativa de homicídio.

Que isso, doutor?

Digo mais. Ia te passar um corretivo e sumir com esse seu corpo fedorento.

Dessa vez, Cesário olha para o cliente, apenas um rabicho de pupila. E para de comer os fios de bigode que entram na boca. Capaz de estar mordendo as bochechas, passando pela cabeça mil ofensas para vomitar sobre o cliente. Mas logo passa. Ele pega uma caixinha amarela de Mentex do mostruário e a gira de forma terapêutica sobre o balcão, devagar, um lado por vez, para ouvir o chocalhar das balinhas.

Falei pro Cesário, doutor. Ele mete muita água no café.

Quem ia sentir falta de um inútil como você? As caiçaras lá da tua tribo? Duvido.

Mas sou daqui mesmo, sou sim. Só minha vó que era índia.

E daí? Faz alguma coisa e corta duzentas gramas de presunto e trezentas de prato. Fatia fina, hein?

O funcionário corre para atender o pedido. Ao se levantar, Benício pega o paletó cinza sobre o banquinho do lado e começa apalpá-lo. Caminha lento até o caixa. Pressa alguma de interagir com esse vermelho. Onde já se viu colocar uma foto do Marighela ao lado da prateleira de bebidas? Tem uma do Sócrates com faixa na cabeça. Bom jogador, mas outro subversivo. E esse barbudão da ponta? Fidel Castro, quem sabe, mais gordo, cabeludo e sem uniforme. Se fosse uns dez anos atrás, nunca teria imagem de bandido na parede em um estabelecimento de família.

O ex-policial raspa a goela várias vezes enquanto Cesário pega um caderninho e anota alguma coisa a lápis. Quando o outro funcionário chega com o pacote de frios, o cliente continua buscando alguma coisa nos bolsos das calças. Umas moedas caem e forçam o homem a se agachar, com dificuldade, para pegá-las. Na palma da mão, conta três moedas de cinquenta centavos, duas de dez centavos e uma de cinco centavos.

Que bosta, esqueci a carteira em casa. Quanto é?

Dois cruzados e cinquenta.

Por um pão na chapa com café ruim?

É a hiperinflação.

Filha da puta do Bresser… Bom era com o Delfim Neto.

E não foi ele que nos trouxe até aqui?

Ah, sei lá. Velho, coloca na minha conta, por favor.

Fazemos fiado não, senhor.

Fiado? Tá de brincadeira.

Cesário apenas aponta para um pequeno cartaz na parede às suas costas. “FIADO SÓ AMANHÔ, diz, em letras vermelhas maiúsculas.

Quê? Depois passo aqui e pago, pô.

Se eu der confiança pra qualquer um que aparece, fecho meu negócio.

Cacete, homem, venho nessa bodega todo santo dia.

Ah, vem muita gente aqui. Dá pra lembrar de todo mundo, não.

De forma automática, Benício leva a mão direita à cintura. O antigo .38 não está lá. Ao deixar a corporação, após o fim do governo militar, prometeu a Zica não andar armado nunca mais. Não pode sair assim, Beni, as coisas mudaram. Ia esconder o revólver longe do alcance das crianças. Visualizou o coldre enrolado em um lenço, dentro de uma maleta de madeira, no depósito nos fundos da casa. Seu braço começa a formigar, talvez querendo ver alguma ação. Então, olha em volta para sacar quem testemunharia se decidisse esfregar a cara do esquerdista no chão oleoso. Além da mulher do suco e dos nanicos do pão molhado no leite, há um moleque na calçada, um pretinho segurando uma caixa de balas, blusa rasgada na barriga, olho atento a ele.

Índio, segura aí os frios que já volto.

O nome dele é Wolney, senhor.

E o meu é delegado Benê, conhece?

Ouvi dizer que foi exonerado faz um tempão. Manda mais nada no bairro.

Olha aqui, nunca devi um tostão pra vagabundo.

Wolney, deixa os frios do freguês no refrigerador.

Tá, tá. Demoro nem quinze minutos, viu? Um pé em casa e outro aqui.

Assim que pisa fora do estabelecimento, o ex-delegado é abordado pelo menino das balas com um toque no braço. Nem ouve nada, apenas se afasta e continua trotando. Ainda não se decidiu se vai voltar com a carteira ou o revólver. Talvez ambos. Com o documento de carreira, para aquele padeiro comunista aprender a respeitar uma autoridade. Mesmo que não trabalhe mais na função.

Nos velhos tempos, não ia tolerar desaforo. Não mesmo.

Bala, tio?

Os marginais se mijavam todo quando ouviam meu nome.

Tio, só uma caixinha.

Esse país amoleceu. Foi o Figueredo abrir as pernas, pra todo mundo achar que pode…

Compra uma bala, tio.

Só então Benício percebe o menino que o acompanha, puxando a manga de sua camisa. Cada passo do homem rende dois ou três da criança, de uns dez anos. Nas mãos, uma embalagem grande de Mentex.

Ô, moleque dos infernos.

Pra me ajudar, tio, vai.

Tá me seguindo, é?

Benício levanta o braço para se soltar da mãozinha que o segura. Vem uma pontada, bem abaixo do sovaco, uma dor que ecoa pelas costelas, como uma onda. Ele para e se inclina, olhando o chão. O chinelo é pequeno para os pés de boleiro do pivete. Sola chata, calcanhar encardido, as pontas dos dedinhos parecendo piche, pela cor e a textura de calos. Um Garrincha, de pernas tortas e tudo.

Tá tudo bem, tio?

Sai daqui. Tenho tempo não.

Quer açúcar? Bala é bom.

Pfff, falou o médico.

Um dia, o Chico Preto passou mal e meu pai deu chocolate pra ele forrar o estômago.

Tá bom, você tem pai. Olha, não tô doente. Só vou pra minha…

Essas casinhas todas iguais, o cenário de fundo com uns edifícios, mais para os lados da avenida. Benício olha ao redor. Saiu tão desembestado da padaria, passadas largas, falando com os próprios pensamentos. Não é que pegou a direção errada? Conhece bem aquelas ruas, há décadas. Muito antes de comprar a casa com Zica, fazia ronda ali. Quase tudo mato, sobrado após sobrado, uns predinhos de três, quatro andares, algumas fábricas, tinha até chácara na região. Boa área para morarem, parecendo cidade do interior, mas, ao mesmo tempo, a uma única condução do centro. As construções mais altas são recentes, vinte anos no máximo. De quando se mudou. Depois de ajudar a desocupar os cortiços. Na época em que a favela do Feijão sumiu da noite para o dia.

O último botão da camisa escapa e voa com o peso de seu braço. Sem se dar conta, empurrava o muque contra o próprio tórax por dentro da roupa. De peito aberto, já voltou a andar também, mais uma quadra longe de casa. Nem fodendo vai passar em frente à padaria de novo, pagar carão para aquele folgado. Também prefere não subir até o largo. Aos poucos, a pobraiada tem tomado conta do lugar. Esse trombadinha deve zanzar por lá. Os comércios também mudaram, vivem cheios de trabalhadores de fora, que emporcalham as calçadas. E diziam que o metrô traria desenvolvimento. Melhor contornar por baixo e pegar as ruelas em torno do terrenão baldio. Mais tranquilo a essa hora da manhã. Por que foi esquecer a droga da carteira?

Tenho pai sim, tio. Pessoa muito querida.

Ainda tá falando disso, é?

Minha mãe que diz. Todos gostam dele.

Todos quem?

Todo mundo que conheço.

Aham. E seus pais te largam enchendo o saco das pessoas, é?

Eu vendo bala. Pra ajudar eles.

Ou é pra cheirar cola?

Eu não. Compra, tio.

Benício apoia a mão no muro do terreno baldio, diante de uma pichação grande que diz “DIRETAS JÁ”. Precisa retomar o ar. Andar e falar ao mesmo tempo não dá. Engole saliva e dá duas aspiradas. Sua demais. E o cinto da calça dificulta a respiração. Muda a presilha de buraco, mas logo deixa tudo solto, até desce o zíper pela metade. Lembra que tem uma criança por perto e cobre o barrigão com a camisa aberta. Moleque insistente, uma praga. Da idade do seu filho mais velho? Um pouco menor. Ou é a desnutrição que preserva esse ar infantil. Se bem que não tem nada de faminto nele. Sujinho. De resto, até bastante saudável, gordo, o umbigo aparecendo por baixo da camiseta de número menor. Aponta para a caixa de balas.

Quanto?

A caixinha é mil.

Mil o quê?

Mil cruzados, ué?

Agora é cruzado novo, infeliz.

Ah, é. Minha mãe fala que agora só vale com carimbinho.

Faz meio ano que cortaram os zeros.

Quantos zeros?

Três. Sempre três.

Deixa eu ver…

O menino faz a matemática nos dedos. Só então Benício repara na cabeça raspada do lado direito, acima da orelha, um quadrado onde não nasce cabelo, com uma ferida seca, em breve, cicatriz. Tem uma jeitão familiar. Sim, já viu esse diabinho. Provavelmente, por aqui mesmo. Se bem que, prestando atenção, de perfil, ele lembra outra pessoa, alguém adulto. Que também tinha uma cicatriz no couro cabeludo. Uma cicatriz que o próprio delegado fez, ainda na ativa, quando errou a mão com uma coronhada em um malandro levado para interrogar. Esse fedelho é a cara do Feijão.

É um, um novo cruzado.

Cruzado novo.

Isso, tio.

Qual teu nome, hein?

Toninho, Antônio.

E teu pai, chama como?

Éverton. E minha mãe, Jussara.

Não é Feijão?

Não, é bala. Mentex.

Tô falando do seu pai. Ninguém chama ele de Feijão?

Por que iam chamar?

Sei lá. Por causa da cor da pele dele.

Ele é assim que nem o senhor, meio a meio.

Eu não sou preto, seu peste.

Meu pai se diz preto. Os amigos que chamam de Café com Leite.

Mas não chamam de Feijão.

Não, tio. E a bala?

Ok. Faz duas por… um e setenta e cinco?

Não posso. É tabelado.

Tabe… Você quer me foder a paciência, né?

Aqui, ó.

Do bolso da bermuda, o pequeno tira um botton redondo. Amarelo e verde, uma metade de círculo para cada cor. Por baixo da sujeira de graxa, lê-se em caixa alta “EU SOU FISCAL DO SARNEY”.

Ai, ai. Isso é felho.

Velho?

Xá cortaram mais ceros depoiz dixo.

Não entendi, tio.

Não xou xeu zio.

Seu olho tá meio que caindo engraçado.

Benício segura o olho esquerdo. Por um instante, é como se ele fosse saltar do globo ocular. Mexe a boca também, abre e fecha e tenta forçar o canto a ficar no lugar. O mesmo lado do olho. Esfrega o rosto, tirando um espírito zombeteiro. Larga o menino sozinho e começa a andar rápido, despencando rua abaixo e amparando-se no muro. A culpa é do café daquele índio, só pode. Colocou junto uma maldição, um veneno de sapo, qualquer coisa que fez seu corpo perder o controle.

Gira a esquina e segue descendo por uma viela de paralelepípedos. Vai ter que dar a volta toda no terreno baldio. Passava por ali quase todos os dias no tempo de patrulha. Desde a mudança para o bairro, evita. Como se sua presença ali fosse incriminatória. O criminoso sempre volta ao local do crime, ouvia do tio, também policial. Verdade ou não, seu corpo sente o incômodo e os membros se contraem. A calçada é curta, as calças estão caindo, a visão fica turva. Benício pisa em falso, vira o pé no meio-fio e mergulha em uma poça na rua. Um dos sapatos voa longe.

Quer gritar por ajuda, mas não sai mais que um resmungo modorrento. O tornozelo queima. De repente, incha como uma bola de tênis. O menino ainda o segue? As moedas estão espalhadas no chão, talvez ele venha pegar o que é seu. Mas o barulho não é de uma pessoa, mas de uma máquina, o freio e os pneus de um veículo. Devagar, Benício olha para a parte mais alta da rua. É uma viatura policial. Seus colegas da PM. Dois homens abrem as portas e saem de cada lado do carro.

Dá pra acreditar nesse indivíduo?

Ô, amigo. Perigoso aí na passagem. Quase passei por cima.

Ih, nem puxa papo. Tá sem condições.

Benício conta que está sofrendo um AVC ou um ataque cardíaco, que isso pode ter sido um veneno de índio, que tem um fantasma do passado o perseguindo em forma de criança. Mas o rosto de Benício produz diversos movimentos involuntários quando ele tenta balbuciar qualquer palavra. Nem deixando preposições de lado sai alguma frase reconhecível.

Vamos escolher um lugar melhor. Hein, senhor? Que tal?

Os guardas seguram Benício pelos braços e pernas. Ainda de calças arreadas, ele é arrastado até a calçada, encostando a um poste de luz.

Pronto, aí não atrapalha ninguém.

Melhor passar um rádio.

Nem pensar. Não quero o carro cheirando bosta de bêbado.

Bêbado o caralho, seus moleques, vão ver quando avisar o comando, ainda tenho amigos lá, e vão enfiar vocês com a cara na latrina, aí sim vão saber como é o fedor de bosta alheia, que nunca mais vai sair de suas narinas. Benício diz isso com clareza em sua mente, mas a língua e a boca moles transmitem uma mensagem bem codificada, sem distinção entre sílabas, quase um uivo. O uivo do Feijão submerso. Lembra o berro que o negão deu, de cabeça para baixo, com a fuça na privada e o delegado metendo o dedo na descarga até entupir, enquanto um soldado o empurrava com o coturno na nuca. Era só para assustar, fazer o sujeito parar de interferir na desocupação da favelinha, de agitar aquela horda de bárbaros. Mas calcularam mal. Morreu afogado em área rasa.

Os policiais continuam conversando mais perto da viatura. Os ouvidos de Benício também sentem a pressão interna e se tampam. Não ouve o que dizem e apenas os vê voltar aos seus assentos, ligar o motor e seguir em frente. Nem sequer subiram suas calças. Por que o fariam? Ele vestiu o cadáver do Feijão quando o largou por horas no chão do banheiro da delegacia, enquanto decidiam o que fazer? Quase duas décadas se passaram. Depois de despejar um monte de famílias dos barracos em uma única noite, mandar todo mundo lá para as bandas da represa, mudar-se com Zica para uma casona na mesma região e assistir ao lugar se transformar quase que por inteiro, de favela a bairro nobre, depois de tanta história, veio dar no único pedaço de terra que ainda não mexeram, que ainda permanece o mesmo, um pântano onde deu um sumiço em Feijão, o líder comunitário.

Sem carteira ou documento, quase sem roupas, sozinho, na rua, vai morrer como indigente. Já nem sente as pontadas no peito e isso o preocupa ainda mais. Qual era o nome do Feijão? Ele tinha família. Lembra-se da menina chorando nos braços da mãe, quando colocou o pai na viatura. Só uma conversa. E ninguém nunca mais soube dele. Seria Jussara a menina que chorava. Não, nova para ter um filho de dez anos.

Uma sombra paira sobre ele. Chegou a hora? Não, é alguém. Um homem enorme, sem rosto, em silhueta. Na verdade, não tão alto. Mas usa um chapéu grande, um cocar de penas verdes e azuis, peito nu, com colar e adornos de madeira. Seus olhos estão saltados, enxergam tudo, para todos os lados. Ele estende um dos braços, oferece a mão. O esforço para mexer uns poucos músculos, faz todo o corpo de Benício tremelicar. Então se sente leve e fecha os olhos, esperando abri-los apenas diante dos portões do paraíso.

Quando vê a luz de novo, porém, está do outro lado do muro, no meio do pântano. Seu delírio o levou até o buraco que os drogados usam à noite para fumar e se ejetar no terreno baldio, protegidos pelo mato. Há poucos prédios altos o suficiente para um insone espiar suas mortes lentas. O ex-delegado entrou pela mesma passagem que ele e outro soldado usaram, muitos anos antes, para desovar o corpo de Feijão na lagoa. A melhor forma que encontraram para afundá-lo foi metê-lo em um dos tonéis enferrujados nos quais os viciados improvisam uma fogueira no inverno. Com pedras grandes, encheram um já revirado e rolaram com o defunto até a água. Quase uma urna funerária indígena. Ainda deve estar por aí.

Benício não se lembra de ter entrado, mas precisa sair, chegar em casa vivo. Precisa contar para Zica onde escondeu a arma. Também precisa avisá-la sobre o dinheiro. Ele ia garantir os estudos dos filhos. E todos que sabiam dessa grana já foram devorados por vermes. Ele, o único que sobrou, está condenado. De cueca, cruza o quarteirão de quase dez mil metros quadrados esquecido por Deus no coração do bairro. Segue em direção a sua casa, arrastando a perna direita de tornozelo inchado, respirando com o chiado de um apito no peito e começando a mordiscar a língua em um tique nervoso extremo, próximo ao sangramento, no ritmo de seu caminhar.

A vista embaça e não permite que ele evite uma área úmida por baixo do matagal. Lembra um mangue, onde afunda até as canelas. Mover-se fica cada vez mais difícil. Até que para de vez. Seus pés estão presos em algo, que ele procura tatear por baixo da lama. É um metal, de boca arredondada, talvez um cano gigante. Quando se dá conta, as pernas já foram tragadas. Quanto mais se aflige, agitando os braços, mais afunda. Uma areia movediça em redemoinho. Apenas com a cabeça na superfície, percebe que está dentro de um dos tonéis. Jogada na água, a peça se tornou uma armadilha por acaso. A caça aqui é o homem da lei.

Ninguém por perto. Mesmo assim, Benício sente olhares sobre si, muitos, à margem do charco, ocultos pela folhagem. São rãs, que se apresentam com um coaxar uníssono. O coral anfíbio atrai primeiro um trovão e depois uma tempestade repentina, dessas que deixam o dia com cara de noite. A agonia do invasor está prestes a acabar, coado pela terra. Os primeiros goles provocam engasgos com sabor de barro. E um certo pânico. Mas, por um instante, ele se recorda do ventre de sua mãe e se entrega abraçando os joelhos.

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