Claudia chegou à mesa junto com o garçom, esperou que ele servisse a cerveja para cumprimentar Rubens com um aperto de mão e sem beijos. Pendurou a bolsa grande no encosto da cadeira, ajeitou as pulseiras de metal e usou os indicadores para tirar os cabelos compridos do rosto. Então sentou-se de frente pra ele.
– Gostou da mesa na janela?
– Sempre gosto, mesmo com a vista para o estacionamento – ela acompanhava , com o olhar, três meninas que desciam de uma perua cor de prata carregando balões em formato de peixes.
– Quando fiz o convite, não pensei que fosse escolher aqui. Quantas vezes você disse que não suportava mais este lugar?
– Quantas? Não sei dizer. Você sempre foi o homem das contas.
– A ironia, claro. Escolheu pra provocar. Tinha certeza.
– Que nada! Adoro a farofa do buffet.
– Tá vendo como tenho razão?
Um garçom oferece picanha e eles baixam o tom na conversa. Claudia sinaliza que não, mas Rubens mostra que aceita. O homem de bombachas gaúchas desliza a faca afiada no pedaço de carne e deixa cair a fatia sangrando no prato.
– Não vai comer ainda?
– Vou me servir das saladas – ela se levanta e volta trazendo um prato colorido de folhas.
– Os mesmos hábitos.
– Saudáveis.
– É desse jeito que vamos falar?
– O convite foi seu – Claudia sabia das intenções e só aceitou porque precisava definir a venda da casa. Ela rega azeite nas folhas, dobra uma em quatro, leva à boca e mastiga devagar à espera de uma reação do ex-marido. Um outro garçom deixa um pedaço de maminha no prato de Rubens e muda para a mesa ao lado.
– Lembra quando as crianças só queriam ir ao parquinho? – Rubens busca memórias para amaciar a conversa. As meninas dos balões se sentaram com os pais e os avós numa mesa próxima. Dessa vez , é ele quem acompanha a os movimentos da família.
– A gente mal conseguia comer. A gente não. Eu, não é? – Cláudia alisa o guardanapo sobre o colo.
– Olha lá!
– O quê?
– Este teu jeito de falar.
– Sempre fui assim. E não é mentira que você primeiro queria engolir uns três tipos de carnes para então dar uma voltinha com os dois. Lembra aquela vez que a Bia caiu do balanço e ralou os cotovelos no pedrisco?
– O Dudu chorou junto. Fiquei cuidando dele. Não dava pra eu ir com a Bia ao banheiro.
– Sim. Eu que fui. Quando voltei, seu prato estava cheio e o Dudu bem quietinho beliscando as polentas fritas.
– Tudo sob controle. Não achou bom poder voltar à mesa com calma.
– Você nem foi perguntar se eu precisava de alguma coisa. Podia até mandar mensagem.
– Já entendi que não devia ter feito o convite.
– Lembra quando a Bia aprendeu a falar palavrões? Foi com você.
– Puta merda! Vai falar disso?
– Tá vendo? – Claudia vira o lado verde do cartão sobre a toalha e passa a aceitar carnes.
– Agora sim!
– Já sei! Vai dizer que vou começar a comer de verdade?
– E não vai?
– Rubens! Você ainda acha que sabe tudo de mim?
– Não é isso.
– Que é então? Já disse que não tem volta. Facilite as coisas.
– Só mais uma chance. Isto parece um debate e não uma conversa.
– Sempre foi debate e você sempre quis ganhar.
– Mentira.
– Ainda está na casa da sua irmã?
– Só saio de lá com a certeza de que não tem volta.
– Não tem volta, Rubens! Lembra aquela vez quando você disse isso para mim? Disse, fugiu por uns dois meses e voltou. Sou diferente. O meu “não tem volta” não tem volta.
– Sua carne vai esfriar.
– Já está fria faz tempo.
– Deixa eu esquentar.
– Que previsível. Tinha certeza que ia fazer a piadinha – ela corta o pedaço frio de alcatra em três, engole devagar e então se levanta desviando de um garçom:
– Vou buscar a farofa.
– Quando você voltar, vamos embora.
Claudia se acomoda de novo na cadeira apoia os dois punhos de leve ao lado do prato.
– Você quer dizer depois que eu comer?
– Tudo bem! Espero você. Mas eu perdi o apetite.
– Duvido! Olha o cupim chegando aí atrás.
– Opa, meu amigo! – ele libera o prato dos talhares atravessados e pede um pedaço gordo.
– Não disse? – Lembra aquela vez que você perdeu 15 quilos só mudando a dieta? – ela se levanta da cadeira e vai até a mesa do buffet.
– Farofa engorda – ele fala mais alto e não se importa com o constrangimento dos outros clientes. Claudia segue fingindo não ter ouvido.
– Você pode pedir para o garçom trazer alcatra de novo? Gelada ficou muito ruim.
Rubens ergue o braço direito para ser visto pelo garçom ao mesmo tempo que diz um “please” alto e debochado.
– Você ainda continua falando “surf” em vez de surfe como devem falar todos os brasileiros?
– Sabia que este teu “please” idiota era provocação. Por que quer saber?
– Porque surfe é surfe e acho arrogante este teu jeito de falar.
– De novo esta história?
– Sim. De novo.
O garçom chega com o espeto de alcatra, deixa um pedaço para cada um nos pratos. Rubens agradece, corta tiras que vai mastigando com vontade enquanto espera que Claudia faça o mesmo. Ela divide sua carne em pequenos pedaços que passa na farofa antes de levar à boca. Mastiga um por um sem tirar os olhos do marido.
– Tá aí uma coisa de que você me convenceu – ela disse depois de engolir o último pedaço e dar um gole na cerveja de Rubens.
– Sobre a pronúncia?
– Sim. Em inglês soa arrogante – com a ajuda da faca ela empurrou o restante da farofa do prato para o garfo , levou duas porções à boca, dobrou o corpo sobre a mesa, aproximou a sua boca ao ouvido de Rubens e soprou a palavra surfe em português.
