Como de costume, Cabrão foi o primeiro a voltar do almoço. De minha mesa, a primeira a partir do elevador, nem precisei levantar a cabeça do livro para saber que era ele que passava, fazendo um ruído de sucção ao resgatar um pedaço de carne entalado entre dois molares.
Seguiu em direção à penúltima mesa do fundo, bem na frente da do chefe, vazia àquela hora, como de resto todo o andar. Ao contrário de Cabrão, eu preferia ser dos últimos a descer para o restaurante. Parei de ler. Alguma coisa estava fora da rotina. Percebi ruídos abafados vindos da mesa do Raspinha, localizada no canto oposto ao dele.
Olhei para trás e descortinei a desgraça.
Raspa e outros dois simulavam jogar baralho enquanto vigiavam o recém-chegado. Cabrão estava de pé entre sua mesa e a janela lateral, as mãos atrás das costas, balançando-se para a frente e para atrás. Era o momento de “fazer a digestão”, como dizia, observando do alto o panorama do bairro da Bela Vista. Atrás de si, tufos de fumaça começaram a emergir das gavetas da grande mesa de mogno. Enfim ele virou e se deu conta do cenário preparado pelos três. Passou a abrir e jogar as gavetas no chão. Bufava. Esgotadas as gavetas enfumaçadas, escancarou as janelas ao seu alcance.
“Raspinha! Eu te mato, cabra sem vergonha!” As veias do pescoço saltaram vermelhas. Saiu disparado no rumo dos sopradores de fumaça, que a essa altura já escapavam pela escada de serviço. Cabrão andava de um lado para o outro abrindo janelas e abanando o ar com as mãos. De minha parte, afivelei minha melhor expressão de inocente (na verdade eu era inocente mesmo), contando que o homem não tivesse um surto psicótico e atacasse a única testemunha daquela arapuca fumacenta.
“Esse Raspa me paga! Pode escrever que ele vai se dar mal!”
Eu assenti com a cabeça por falta do que dizer. Cabrão fechava o punho e martelava a mesa mais próxima. Só se sentou, ainda arfando, quando os demais funcionários começaram a chegar para o expediente da tarde e o ajudaram a recolocar as gavetas. De longe vi quando contou o ocorrido para o chefe, com gestos largos.
Cabrão ganhou o apelido por causa do sotaque nordestino que não fazia questão de disfarçar, mesmo depois de trinta anos longe das barrancas do rio São Francisco, onde nasceu. Veio morar em Osasco depois de ser expulso do Exército em seguida ao golpe de 1964. Ele não gostava de ser perguntado sobre o período, mas certa vez contou ter ficado preso no velho navio Raul Soares, em Santos, junto com centenas de opositores do regime militar.
Mais do que ser ex-sargento do Exército, Cabrão parecia ser ex-sargento do Exército, com seu corpo socado, rosto de traços duros e cabelo tosado a máquina nas laterais. A cabeça tinha o formato de cubo, ideal para assentar um quepe. Era dono de uma voz grave de comando, que só mantinha em tom baixo por falta de quem comandar. Com a baixa, teve de inventar uma profissão e, como vários comunistas, se tornou tipógrafo. Fez carreira na gráfica da Editora Abril, onde alcançou o posto de chefe da área de logística.
Ninguém sabe quando desenvolveu a aversão ao cigarro. Uns garantiam que seu trauma era resultado de queimaduras que teria sofrido na masmorra flutuante. O certo é que muitos candidatos a carregador de caminhão na Abril perderam a vaga sem saber a razão. Aqueles que chegavam para a entrevista exibindo um maço de Continental no bolso da camisa nem tinham tempo de se sentar. Cabrão (que ainda não tinha esse apelido) metia um xis na ficha do fumante e o dispensava sem maiores explicações.
O Raspinha fumava, mas nunca comprava cigarros. Gostava mesmo é provocar. Quando filava um cigarro, dava baforadas para os lados do Cabrão, sempre na presença do chefe para evitar o revide. Ganhou o nome por causa de uma namoradinha, faxineira no Extra, que segundo ele roubava giletes da prateleira para desmatar a “área de lazer”. Seu outro apelido, “De Ladinho”, também tinha origem nas aventuras sexuais que contava para quem quisesse ouvir.
Boa parte do tempo de trabalho Raspa passava arquitetando golpes nos distraídos e nos recém-contratados. Não era raro que um novato voltasse pedindo desculpas por não ter encontrado em outro andar o tal “teodolito de borracha”, o “mapa da rede de pesca” ou a “chave da cadeia de suprimentos” que lhe mandaram buscar. Nessa hora, o grupo de piadistas morria de rir.
Os companheiros de Raspinha eram verdadeiras lendas no departamento. Playboy atingiu o ápice ao instalar um espelho retrovisor de Fusca para monitorar a aproximação do chefe ranzinza. Quando o Velho descobriu o artifício, quase infartou: deu um tapa no espelho e precisou ser atendido na enfermaria. Perninha, por sua vez, preferia a ação física: gostava de esconder sapatos e jogar bolas de papel molhado em quem estivesse na latrina. Também era mestre em abrir mesas trancadas, como fez na peça que pregaram no Cabrão. Uma vez recebeu uma advertência do RH por carregar para o almoxarifado a mesa de uma secretária ranzinza. Ela demorou uma semana para descobrir o paradeiro do móvel.
Naquela tarde, o Raspa não deu mais as caras no escritório. Chegou no dia seguinte com os olhinhos apertados, esgueirando o corpo magro por trás dos armários. Viu de longe que Cabrão não dava mostras de ainda estar com raiva. A vingança do ex-militar seria servida fria como a ração em um acampamento na selva.
Dias depois, a repartição havia esquecido o assunto. Assim como na política, sempre aparecia um novo escândalo para desviar a atenção do anterior. Raspadinha estava no canto do café, de onde podia vigiar, dezesseis andares abaixo, a ruazinha estreita onde costumava estacionar seu bem-amado Chevette verde. Um grito agudo fez todos se voltarem para ele. Raspinha deixou cair o copinho de plástico no carpete e correu para o elevador. Eu e os outros fomos espiar o que acontecia. Pela janela, dava para ver lá embaixo um par de pernas se agitando para fora da porta aberta do Chevette, do lado da calçada.
“Tão roubando o Roadstar”, gritava Raspa, indeciso entre xingar o ladrão lá de cima e apertar o botão do elevador. Quando chegou ao carro, armado com uma pedra, não havia ninguém em quem atirar. Afobado, abriu a porta que estava trancada e viu que o toca-fitas permanecia escondido no porta-luvas, no mesmo lugar em que o deixara naquela manhã. Ouviu a algazarra e olhou para cima. Todas as janelas dos vinte andares do prédio estavam tomadas de gente. Liderados por Cabrão, começamos a bater palmas de forma ritmada, como quem pede bis no teatro – ou no circo.
