Não confie em mim

Com “Diário de um louco”, Nikolai Gógol complica um fundamento básico da narrativa: o narrador não-confiável. Nenhum narrador é digno de confiança, de saída, por apresentar uma versão subjetiva da realidade objetiva. Quando simplesmente nomeia seu conto como o diário de um louco, Gógol eleva essa desconfiança a um outro patamar. Como no paradoxo de Creta (“Se todo cretense é mentiroso, como você pode saber se ele está mentindo ou dizendo a verdade quando diz ‘eu sou um mentiroso’?”), se partimos desta definição do texto, como levá-lo a sério? O que é exatamente ser louco, ou estar louco? E se o que o louco está contando de fato aconteceu? Pois ao mesmo tempo em que notamos que o narrador, um sujeito tão ressentido quanto dotado de uma sensibilidade aguda não só em relação ao que ele sente como também em relação à realidade ao seu redor, é capaz de narrar os eventos de sua vida com objetividade impressionante, é possível perceber o quanto sua mente vai aos poucos turvando-se, dilacerando-se, implodindo. Gógol ainda traz mais uma complicação para o seu texto, quando o narrador passa a não só ler como também analisar outros textos, de acordo com sua subjetividade febril. Embora seja um texto de ficção, e não de autoficção, é um livro fundador de um verdadeiro subgênero (e não à toa Dostoiévski irá dizer que “todos descendemos de Gógol”). Livros como Memórias de Um Doente de Nervos, de Daniel Schreber, A Pequena Outubrista, de Linda Böstrom Knausgard, ou Hospício é Deus, de Maura Lopes Cançado, beberam desta fonte maluca.

PROPOSTA

Bem, eis o que você vai contar: a jornada de um personagem que está ficando fora da casinha.

Primeiro: você escreverá na primeira pessoa.

Segundo: que tipo de texto você vai usar?

Diário? Cartas? E-mails? Mensagens? De texto? De voz? Bilhetes? Inscrições? Pixações? Anotações? Mensagens em garrafas? Mensagens cifradas? Textos publicados? Obras de arte?

Terceiro: a) seu personagem sabe que está saindo da casinha? Ou b) o texto que ele escreve deixa entrever esta possibilidade?

Quarto: a) seu personagem vai terminar totalmente doidão? Ou b) ele volta a uma certa normalidade, sabendo que estava em surto?

Quinto: qual é o problema mental de seu personagem? Depressão, bipolaridade, esquizofrenia, paranoia, psicopatia ou alguma outra coisa?

Sexto: apesar de estar passando por um período difícil, seu personagem leva uma vida “regular”, ou seja: tem trabalho (qual?), família (filhos? esposa/marido? netos? pai/mãe?), amigos (ou colegas de trabalho), gostos (ou hobbies). Tais elementos devem fazer parte da narrativa como pontos de a) tensão/gatilho ou b) alívio/prazer.

Sétimo: narre em fragmentos datados, que vão dando conta da evolução da doidice. Tais fragmentos podem ser a) dispersos pelo próprio narrador doido ou b) arrumados por um outro narrador (quem?), que busca costurar a narrativa para dar um sentido.

Em uns 10 mil toques.

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