O Elo Perdido

Na esquina do canteiro de obras, Érico aproveita o semáforo vermelho para apoiar a garrafinha de água no painel do carro e jogar um sal-de-fruta dentro. Com o fone no ouvido, ele está há quinze minutos alternando sim-sim, não-não e ahã-ahã, enquanto um dos donos da construtora esbraveja ao telefone. Nem oito horas da manhã e o engenheiro já sofre enjoos. A testa lateja. Há meses, dorme mal sem se desligar das encrencas do empreendimento. Foram anos de batalhas judiciais, dezenas de estudos, muita burocracia para conseguir os alvarás, chiadeira dos moradores do bairro, tudo para tirar do papel um condomínio de alto padrão em um matagal largado por décadas. E agora que o trabalho de fundação começou, os operários cruzaram os braços porque esbarram em um fóssil.

Tô quase lá, Sr. Youssef. Aviso quando souber.

Sorte o juiz ter proibido o vizinho de protestar no entorno do terreno. O ativista acampou na calçada e instalou uma escada para quem quisesse espiar do outro lado do muro. Cartazes por todo lado. Também recolheu assinaturas para fazer daquilo um parque público. Se ainda estivesse ali, alguém poderia testemunhar a descoberta, chamar a imprensa, ih, seria outro barraco. Já basta os moradores em volta reclamarem do barulho de madrugada, quando foi preciso drenar o subsolo pantanoso. O povo encheu o saco com a história de rio passando por baixo, um atraso de vida. Mas Érico obteve as autorizações de todos os órgãos competentes. Ia dar tudo certinho, projeto lindo, três torres com espaço fitness, playground, salões gourmet, uma área verde privativa de quase cinco mil metros quadrados. Tomara que os funcionários não tenham começado a espalhar a história.

Bom dia, patrão. Veio ver o dinossauro?

João, pelo amor de Deus, não sai por aí contando o que não sabe.

Vi nada não, doutor. Só cuido do decorado.

E os homens comentaram o quê?

Tão falando de osso de bicho pré-histórico.

A dez metros de profundidade? Tá bom…

Ó, estaciona ali atrás pro pessoal que protesta não jogar cocô no carro.

Ok. Daqui pra frente, bico fechado, hein?

Se a narrativa chegou aos ouvidos do segurança, fodeu. Esse João Gabriel é um falastrão. Fica de conversinha com os moradores, conhece tudo que é comerciante do bairro, deixa velhinho sapear pelo portão à noite. Picharam uns palavrões bem nos tapumes da entrada e o sonso não viu. Há pouco, sumiram com um display em exposição e ele também não fez nada. Mas se mandar embora é pior, sabe lá o que vai dizer. Érico desce do carro e enfia o sapatênis no barro. Nem lembrou de pegar as botas no porta-malas. Menor dos problemas. Com os dedos, penteia as entradas para trás e coloca o capacete. Os poros dilatados da limpeza de pele coçam. Nem pôde se barbear, queixo áspero. Ajeita a camisa lilás para dentro da calça jeans, estufa o peito e arregaça as mangas até ressaltar o tríceps definido na academia. Por último, pega o tubo com todas as plantas da pesquisa geotécnica realizada muito antes do primeiro trator entrar ali.

Há menos operários do que imaginava, uma dezena, todos em silêncio, sentados no chão em meio ao maquinário pesado, alguns bebendo café em copinhos de plástico ou equilibrando uma fatia de bolo de buraco no guardanapo. No canto, uma mulher vende ambos, com um galão térmico e um tapperware sobre a mesinha de botequim. Conforme passa pelos homens, Érico sorri e estica o narigão para o alto repetidas vezes, algo que só ele entende como um cumprimento cordial. A resposta é tímida, apenas murmúrios.

Apoiados na caçamba aberta de uma Saveiro, o engenheiro-chefe Henrique e o mestre-de-obras Antônio apagam os cigarros no chão com a aproximação do colega. O primeiro só precisa de um chapéu de caubói e uma espingarda para completar a fantasia de rancheiro texano. Óculos escuros, camisa xadrez, cinto de fivela enorme. Pelo visto, sem utilidade, pois também usa suspensórios. A nuca vermelhona, queimada de sol. O outro, um negro grandão com uma cabeçona lustrosa e braços de peso-pesado, deixa luvas de vaqueta enfiadas na calça, apesar de não mexer com solda ou algo tipo.

Trouxe a escovinha, Érico? Tem uma ossada ali te esperando.

Qual é, Henrique? Só pode ser brincadeira.

Essa brincadeira tá no lugar da futura piscina de borda infinita. Conta pra ele, Tonhão.

Então, seu Érik. Os homens moveram a terra e tomaram um susto. Apareceu um esqueleto numa das paredes do buraco.

Esqueleto humano?

Sei lá. Tem que descer. Só dois deles viram de perto.

Bem, ao menos não é dinossauro.

Não me interessa se é brontossauro, homem das cavernas ou alienígena. Quero saber quando vamos tocar o trabalho.

Pô, Henrique, só vendo, né?

Quem é o Indiana Jones aqui? Quando fez o tal estudo arqueológico, você garantiu que não ia dar merda. Agora, se vira.

Vindo pra cá, tranquilizei o velho, se é o que te preocupa. Não há de ser nada.

Melhor mesmo. Tudo que a construtora não precisa, depois da briga por esse chão maldito, é ver o pátio da obra virar museu a céu aberto.

Especialista em arqueologia urbana, Érico faz parte do quadro técnico da construtora desde o início do projeto, antes mesmo da aquisição do terreno. No momento, assina as pesquisas de outras cinco construções para a mesma empresa, nenhuma tão complexa quanto essa. No passado distante, parte da área abrigou uma fábrica de cera. Mas tudo ficou abandonado por muito tempo, deixando crescer mato. Foi um sufoco descobrir os donos. Por ali talvez surgisse sinal de trilhos de bonde, que passava ali perto. Do tempo dos bois levados ao matadouro não sobrou nada. Mais antigo, impossível. Já ouviu falar de acharem artefatos, cemitérios clandestinos, até inscrições rupestres em construções de prédios. Sua investigação, porém, ajudou até no laudo da Sabesp, que negou a existência de um córrego, como afirmavam os moradores.

Henrique pega o celular e se afasta falando alto, como se ninguém estivesse por perto. Érico é citado algumas vezes. Este segue Antônio até a cratera. Por lei federal, devem comunicar a descoberta ao Iphan, que vai exigir um trabalho de resgate arqueológico. Serão meses para identificar a área escavada, mapear as vias de acesso e elaborar a matriz de impacto. Melhor evitar dor de cabeça. As multas diárias pesam. A não ser que seja apenas carcaça de um bicho qualquer. Como se olhassem para dentro da boca de um vulcão, eles admiram a enorme perfuratriz hidráulica usada na instalação dos alicerces.

Pode ser o índio.

Que índio, Tonhão?

As pessoas aqui têm medo do espírito de um índio.

Ah, vá.

Metade homem, metade sapo.

Crendice dessa gente.

Cresci nessas ruas. Ouço isso desde criança.

Cresceu… nesse bairro de rico?

Onde tem rico tem pobre. Morei na favelinha lá pra baixo.

Tá, não sabia. Mas não é fantasma nenhum, viu?

Os dois utilizam rampas e escadas para descer os platôs. Na lateral do mais profundo, a cerca de vinte metros da superfície, está o buraco onde dois funcionários dizem ter encontrado o tal fóssil. Antônio vai na frente, mas prefere parar a uma distância segura, o suficiente apenas para iluminar dentro com a lanterna, dando passagem ao engenheiro. Érico procura não demonstrar desconforto, encurtando os passos e prolongando o intervalo entre eles. Olha pela fissura meio de lado. Encrostado na terra argilosa, está uma caveira humana cabisbaixa. Boa parte da ossada segue encoberta, mas percebe-se que o corpo, de um indivíduo adulto, adotou a posição fetal.

O mais curioso é o esqueleto estar inserido em um receptáculo. Como um enorme vaso, cuja lateral exposta foi, provavelmente, danificada durante a perfuração. Aliás, só por isso o conteúdo se revelou. Uma urna funerária? Não faz sentido. Nunca viu algo assim. Só leu a respeito de escavações em outros cantos do país, coisa de quinhentos anos, até muito antes de Cabral. Quais as chances? No meio de uma megalópole. Algo assim demandaria um estudo mais minucioso. Érico buscou a Arqueologia como uma forma de se destacar no mercado de Engenharia Civil. Nem em seus sonhos da juventude teve qualquer pretensão de fazer nome na comunidade científica. O que diria seu pai, também engenheiro, se ainda estivesse vivo?

E aí, seu Érik? É ou não índio com cara de sapo?

Érico busca as chaves do carro no bolso da calça. Com a ponta, cutuca de leve a terra em torno do buraco. O excedente cai sobre os sapatênis já enlameados. Com o atrito, a lama seca dentro do vasilhame racha e a ossada chega a vibrar. Ele insiste mais um pouco na operação, sob o olhar ressabiado de Antônio. Se seguir o protocolo a obra será interditada. O Henrique vai pirar, o velho Youssef, então, vira bicho, engole a equipe inteira. Com certeza, adeus emprego estável. Esses operários também. É rua para todo mundo e que se foda o sindicato. Quem se interessa por uma descoberta pré-colombiana? O importante é erguer mais um condomínio e dar às pessoas um lar. Com duzentos e quarenta e seis metros quadrados, três suítes e quatro vagas na garagem por família.

Cuidado. Essa parede é instável. O córrego tá bem embaixo dos nossos pés.

Está proibido tocar no assunto de córrego no canteiro de obras. Passaram dessa fase e há uma pasta cheia de documentos para provar que não passa rio nenhum ali. Érico não para nem quando a poeira entra em suas narinas e olhos. Não até uma camada maior se soltar e a chave provocar uma pequena faísca ao raspar na borda do vasilhame que envolve o cadáver. Só uma pontinha afiada à mostra. O arqueólogo analisa de perto por quase um minuto, mas o veredito vem do engenheiro. Que cerâmica milenar, que nada. Isso é parte de um tonel velho, bastante enferrujado. O homem das cavernas do bairro deve ser um viciado que invadiu o local para se picar, um coitado qualquer, um indigente.

Tonhão, repete comigo: não é nada, não é ninguém.

Como assim, seu Érik?

Tem nada de homem-sapo. São os restos de um vira-lata doente.

Daqui, parece cachorro não.

Mas é. Vamos deixar de cumprir nossa missão por causa de um animal que os vermes já comeram?

Hmmm, não sei.

Pensa comigo. País afundado na crise, desemprego no pico. Sorte nossa trabalhar num setor que nunca para. Olha pra frente, homem. Temos essas três torres pra subir até o fim do ano.

Com uma das luvas de soldador, o mestre-de-obras ergue o capacete para enxugar a cabeça pelada e releva uma grande cicatriz horizontal, bem acima da orelha direita. Seu silêncio é cortado pelo som de um avião passando acima das nuvens. No alto da cratera, ele avista a cabeça de Henrique, andando de um lado para o outro, ainda ao celular.

Não é nada? Não é ninguém?

É isso aí, Tonhão.

Tudo bem, seu Érik, vou avisar o povo sobre o cachorro.

E coloca logo as máquinas pra funcionar, por favor.

Érico olhou uma última vez para o esqueleto. Até que seria interessante encontrar vestígios históricos por ali, umas trilhas, uns desenhos, umas ferramentas antigas. Desviaria a atenção do balde de polêmicas envolvendo a obra. E, se fizessem um bom trabalho de preservação, quem sabe reverteria em positividade nas redes sociais, impulsionaria as vendas paradas, compraria a simpatia dos vizinhos. Uma ossada nem pensar, de jeito nenhum. Ninguém quer morar em cima de um cemitério, indígena ou não.

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