Promoção

por Américo Paim

Achei melhor colocar no papel. Não é a minha versão. É a história sem filtros, de verdade.

Nos conhecemos na escola. Ele já veterano e eu recém-chegado à cidade. Na mesma série, em turmas diferentes. O cara era muito popular, esperto e bem-humorado. O nome era Ricardo e o chamavam Cardo, por decisão dele. Achei aquilo curioso, o próprio cara se apelidar. Ele só me notou pelo bullying mesmo. Meu físico rolha de poço e a cara de superfície lunar, toda esburacada, foi prato cheio para muitos por um bom tempo. Tentaram “rolha”, “lua”, “gordo”, mas vingou “Zezo”, que vem do meu nome José. Podia ter sido pior, aceito. Como eu era muito cabeça quente, a porrada comeu no centro muitas vezes, o que me trouxe suspensões, desafetos, problemas e, com o tempo, respeito. A gente se aproximou perto do fim do segundo grau, nos dois últimos anos, quando caímos na mesma sala. Ficamos amigos.

Em mais de vinte anos desde que saímos da escola, sempre houve algum limite, natural ou reclamado, para as esculhambações e como se diz hoje, trolagens, que ele fazia todo o tempo. Com o tempo o sujeito ficou ácido, sarcástico, beirando o escroto. Comigo foram poucos desgastes, mas não posso dizer o mesmo de outros. Sei de uns três ou quatro que beberiam o sangue dele de canudinho com prazer. Há um ano, ele, separado há dois, procurou pelo solteirão convicto aqui para contar do seu interesse por uma mulher, Laura, colega empresária do mesmo ramo, o comércio de carnes. Se conheceram em algum desses eventos, uma convenção, algo assim. Não nego que eu e Laura nos entrosamos desde o início. Como também garanto que mantive a distância regulamentar.

Um dia, estávamos os três e mais outros amigos na casa dele para um almoço. Rolavam uns carpaccios e ela não comia nada da conversa do anfitrião. Cardo já achava que aquilo não ia dar em nada. Ela alegou uma dor de cabeça e me pediu, na frente de todos, que a levasse para casa. Estranhei, mas fui. Ela me cantou no carro mesmo. Resisti e naquele momento funcionou, porém, cairia por terra não muito tempo depois. No dia seguinte todos zoaram, que eu tinha pegado a “Carda” e tal e coisa. Ficou claro que o trolado não gostou nada. Me sentindo na obrigação, esclareci tudo com ele, que falou que não estava mais nem aí para ela, mas os olhos desmentiam a boca. Ele esfriou comigo. Não toquei mais no assunto e esperei mais um pouco antes de sair com Laura. Rolou isso e aquilo, nada demais. Uns poucos dias de ficadinhas. Não demorou e ela deixou a cidade. Me procurou antes. Parecia bem perturbada. Não deu ouvidos às minhas perguntas. Alegou que a relação de trabalho com Cardo estava impossível, sem dar muitos detalhes. Saiu seca e fria. Saiu estranha. Isso foi na segunda-feira da outra semana.

   

Na quarta, a placa estava lá: “Sanduba de queijo grátis! Só até meio-dia! Não percam! Só hoje!”. Era o mesmo padrão que a gente usava para anunciar produtos novos e promoções. Eu não havia feito ou autorizado aquilo. A fila já dobrava a esquina, mesmo tão cedo. As pessoas fizeram festa com palmas e gritos quando cheguei para abrir a padaria, perto de cinco e meia da manhã, como sempre. Liguei para o meu sócio Felisberto – já estava a caminho e não sabia de nada também. Ele chegou e, após darmos uns sorrisos amarelos para o povo que se amontoava em expectativa, entramos. Em busca de algo convincente que explicasse como aquele aviso foi parar ali, veio uma ideia. O pessoal da cozinha chegou e pedimos a Sebinho que se infiltrasse para descobrir o que se passava. Voltou em poucos minutos com uma coletânea de mensagens de WhatsApp de um grupo “Promoção na Padaria Divina”. Inacreditável. Fuça daqui e dali e chegamos à origem: Cardo! O desgraçado criou um grupo, montou a farsa com cuidado, selecionou as pessoas e postou a mensagem fake. Depois foi só colocar o aviso mentiroso, na noite anterior, assim que saímos de lá após o expediente. Antes de tentar entender, eu já queria matar o miserável. Aquela coisa do momento de raiva.

A poucos minutos de abrir para o público, que sempre foi fiel, precisávamos resolver o que fazer. Desistimos da ideia de ir à fila esclarecer que foi uma brincadeira sem graça de um amigo e tal e coisa. Evoluímos para algo diferente e anunciamos que a promoção duraria enquanto houvesse estoque de queijo. Pensamos que aquele povo ali reunido, bem maior que a média do horário, poderia consumir sucos, cafés e outros itens. Não era bom dispensar a oportunidade. Deu tudo certo e por volta de nove e meia, anunciamos que não havia mais material para atender à demanda. Protestaram, mas contornamos. Ao final do dia, o saldo foi até positivo. Acontece que meu sangue ainda fervia e o pensamento era sair dali, fatiar Cardo e servir em inúmeros pedaços, só que resolvi me fazer de morto e deixar ele se achando o último naco do bolo de carne. Planejaria o troco com mais tempo.

Na sexta nos encontramos no clube, para a natação. Eu estava na piscina e ele chegou. Veio sem pressa, fazendo o social, claro. Alto, com seu andar de desfile e a conhecida simpatia com todo mundo. Parou para seduzir uma ou outra desavisada. Fazia isso com naturalidade, reconheço. Deixava um rastro de marido ciumento por aí. Eu nunca entendi por que as pessoas não percebiam algo de transgressor nas suas sobrancelhas grossas ou naquele cacoete de colocar a mão esquerda sobre o antebraço direito, sempre que fechava uma frase com um tom de fim de papo. Talvez por que meu rosto redondo, com as cicatrizes da varíola de menino que eu escondia com a barba bem fechada, fosse mais assustador. Seu corpo atlético, que ele não vacilava em mostrar sempre que podia, me lembravam meus quilos a mais distribuídos na pouca estatura. Os cabelos dele, que já deveriam estar no mesmo nível de brancos aleatórios que os meus, estavam com alguma tintura nova. Eu já o chamava de “acaju” há algum tempo. Aliviava minha inveja.

Colocou a touca e mergulhou. Fizemos os primeiros cem metros. Silêncio. Começou a arrodear uns assuntos. Não dei margem e puxei outro tiro de cem. Quando paramos para descansar, se coçava todo de curiosidade. Me perguntou se estava bem, como iam os negócios. Eu disse que nada poderia melhorar e que dias antes havia feito muito dinheiro com uma promoção de sanduíche de queijo. Ficou sem ação. Me perguntou detalhes e até deu bandeira para eu ter certeza de que foi ele quem armou, mas como a brincadeira deu com os burros n’água, preferiu não assumir na cara que foi o pai da ideia. Eu aproveitei a chance, com amigos, colegas do treino e outras pessoas por ali e mandei em alto e bom som que se eu descobrisse o responsável pelo aviso da padaria, ia devolver com sobras. O espertinho ia lamentar.

Retomei minha vida normal. Cardo nem dava notícias mais e até me evitava. Porém, a ideia da revanche não me saía da cabeça. Ele também esperava, com certeza. Tinha que ser algo de impacto. O mercado de carnes era um sucesso e eu precisava de alguma maneira me aproveitar daquilo. Deveria ser à noite, de jeito discreto e eficiente, da forma como fizeram conosco.

No meio da tarde da terça-feira estávamos na cozinha e Sebinho comentou com Jandiro que a avó dele fazia o melhor sanduba do mundo porque tinha um tempero maravilhoso. E o melhor era o de carne frita, cortada fininha. Eu achei minha ideia. Só precisava conectar padaria e mercado. Pensei em uma frase. Fui até a rua onde eles funcionavam, vi como faziam a propaganda, preparei eu mesmo a placa e decidi colocar na quinta-feira.

No dia certo, comentei com a turma da padaria que seria naquela noite. Deixei o esquema da rede social com Felisberto e saí do trabalho. Dei um tempo em casa e no horário que achei que não haveria ninguém por lá, fui até o local. Levei uma escada de armar, daquelas pequenas. Quando me aproximava, tive a impressão de ver um carro saindo de lá, mas talvez estivesse só passando. Era longe para ter certeza. Parei do outro lado da rua. Me abaixei no banco e esperei. Ao ver tudo deserto, fui lá e fiz o serviço. Foi rápido. Voltei ao carro e contemplei por uns instantes: “Filé mignon grátis até meio-dia! Só hoje! Leve e faça sanduba com pão da Padaria Divina!”. Saí dali discreto, rindo e curioso sobre a reação de Cardo no dia seguinte.

Na sexta-feira pela manhã, já passava das nove horas quando Felisberto me chamou no escritório. Pensei que era para falar sobre a repercussão do trote. Me disse que estavam comentando sobre um suposto ataque ao mercado. Não se sabia o que era e parecia coisa grave. Ficamos curiosos. Tentamos o celular de Cardo: caixa. Continuamos o trabalho e às dez horas a notícia chegou: ele foi encontrado morto dentro do estabelecimento. O corpo estava inteiro, mas sua língua fatiada e colocada como recheio em dois pães, no chão, junto ao morto. Às dez e meia, dois carros cheios de policiais pararam em frente à padaria. Ainda em silêncio, ouvimos Sebinho:

– Oxe, esses meganha num sabe que num tem promoção dia de sexta?

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