Brazilian Day

Durante o inverno, consegui me camuflar em Nova York sem que minha nacionalidade fosse sequer citada. Ser brasileiro faz pouquíssima diferença em meu cotidiano de estudante de cinema. Evito a amizade com conterrâneos, mantenho distância da Rua 46, nunca contrabandeei pão de queijo em pó e de forma alguma visto camiseta da CBF. Converso apenas em inglês de sotaque indefinido. E meus traços físicos neutros me ajudam a frequentar panelinhas de diferentes etnias. Em uma cidade tão cosmopolita, mesmo cidadãos dos Estados Unidos podem ser “de fora” se migraram de outras partes do país. Então, nem precisei me americanizar para passar por newyorker. Até surgir o flyer de uma baladinha de temática tupiniquim no East Village.

Todo mundo vai lá hoje – anunciou a romana Laura – Bom pro Alex matar a saudade de casa.

Estamos todos deitados sobre um lençol velho estendido na grama do Central Park, curtindo o primeiro sol primaveril. Há italianos, franceses, três argentinos, dois alemães, gêmeos indianos, um turco e uma japonesa, moças e rapazes que vivem em uma residência estudantil de Upper East Side. Já caminhamos bastante e bicamos vinho tinto de uma garrafa oculta por um saco de papel. Agora degustamos salgadinhos farelentos e usamos os corpos uns dos outros como travesseiros. Por enquanto, saudade nenhuma do Brasil.

Isso me lembra… – o francês Jérôme remexe em um sacolão de academia e revela uma bola de futebol – Podemos reviver a final da Copa, se você ainda tiver estômago pra isso.

Em três meses, esse gaulês narigudo ainda não havia trazido para a roda os três a zero da final do ano passado. Mudar-me para uma terra que ignora por completo o controle da bola com os pés parecia ideal para alguém incapaz de defender a honra do uniforme dourado Nike. Não acerto nem três embaixadinhas seguidas. Do nada, a menção a minha identidade nacional abre uma janela para o escárnio. Quero dizer que não ligo tanto assim para a seleção brasileira, que nem vou com a cara do Ronaldo, que Zidane é o único nome memorável no time da França, que Copa não passa de desculpa para beber no horário comercial. Engulo cada caroço.

Já encontramos uma clareira entre as árvores, fizemos uma rodinha e começamos a chutar a bola entre nós, igual a uma batata quente, de vez em quando arriscando uma trivela, uma matada no peito, um calcanhar. Sem competitividade, sem times, sem regras, apenas moleques crescidos se exibindo para as meninas. Ali estão profissionais diplomados em diversas áreas, nenhum atleta, nem um de fim de semana. Mas é ao jornalista com sonho de se tornar cineasta que todos chutam, na esperança de presenciar um toque de genialidade, uma ginga, qualquer sinal de que respiro o mesmo ar e bebo a mesma água de um Pelé ou um Romário.

Meu irmão joga futebol por causa do Zico – a japonesa Yuko me conta, diante do meu sorriso bobo.

Uma tentativa minha de lançamento manda a bola distante demais, no meio de outra rodinha, com seis jovens grandalhões trocando de mãos uma bola oval de futebol americano. Um deles pisa no nosso brinquedo e troca uma ideia com os amigos. Em seguida, eles se aproximam, trocando passes com os pés, e perguntam se não encaramos uma partida de verdade. Jérôme é o primeiro a aceitar e propõe um USA versus Resto do Mundo.

O embate dispensa goleiros. Com pedras, delimitamos as metas, mais estreitas do que em quadra de salão. Termina quando um selecionado marcar cinco vezes. Pesa contra nós atacarmos na subida, pois esse campo sofre de um leve desnível. As linhas laterais não seguem padrão. De um lado, na altura daquele tronco. Do outro, onde as garotas da nossa trupe se acomodam para torcer. A escalação da equipe internacional inclui o médico alemão Marc, o produtor de eventos argentino José, o engenheiro civil italiano Giorgio, o fotógrafo turco Temmuz, além do francês, um reles estudante de Direito. E eu.

Nosso craque é o brasileiro – Jérôme aponta para mim, marcando um alvo em minha testa.

Na primeira vez que toco na bola, levo uma paulistinha, mesmo que ninguém ali conheça a terminologia das peladas brasucas. Na ausência de um juiz, ninguém marca infração alguma e, do chão, vejo os adversários abrirem o placar. Aparentemente, os jogadores canarinho são conhecidos por fazer cena em jogadas mais ríspidas, além de reclamar muito por tudo. Sempre que sou empurrado, levantado ou atropelado, nem meus companheiros pedem falta. E não adianta mostrar o joelho esfolado. Em quinze minutos, já perdemos por três a um – Jérôme marcou o nosso, após uma roubada de Giorgio.

Esbaforido, aviso o italiano e o argentino de que ficarei atrás. Vou isolar tudo que chegar aqui. Eles que corram. O francês, pelo visto, vai seguir no meio-campo, com seu jeitão de rapper branco, cabeça raspada, regata larga e bermuda caída na cintura. Ele sempre aponta onde eu deveria ter enfiado o passe ou pede bola mesmo sem fugir da marcação. E, claro, jamais retorna para ajudar a defesa. Como no quarto tento dos americanos, quando três deles avançam juntos e não consigo pará-los sozinho – pálido e sem fôlego, Marc enraizou na lateral, um legítimo gandula, porém dele só se espera a frieza germânica.

Opto por uma mudança de estratégia: adiantar a linha de defesa e investir todo meu traquejo de zagueiro em carrinhos maldosos. Não é algo do qual me orgulho. Dane-se, também digo que não foi nada, o jogo segue e, de algum modo, descolo dois contra-ataques efetivos para Temmuz. Ninguém esperava nada do turco, mas é ele, de longe, o nosso maior trunfo para equilibrar o jogo. Essa reação funciona tanto para abalar o time da casa, como nos dá um gás extra.

Até Marc atira seu pulôver no chão e volta a correr. Quando ele reaparece do nada, como se saísse de trás de um arbusto, pega um americano desprevenido e a bola é rifada para o nosso campo de ataque, bem no peito de Temmuz, que a protege de costas para o gol e inverte a jogada. E, após um corta-luz de José, ganho uma sobra rasteirinha de frente para o gol e a redonda berra: me chuta gostoso, brasileiro. Posso culpar o pique de trinta metros após quase uma hora de correria, o solado plano do meu All Star ou uma raiz exposta que, no momento crucial, muda a trajetória do passe. O fato é que o chute só encontra terra e caio de costas. Furada inacreditável. De ponta-cabeça, avisto dois gringos descendo a ladeira para estufar nossa rede – se existisse uma. Fim de jogo.

Então, é verdade que brasileiro sente a pressão no fim – analisa Jérôme, com a bola debaixo do braço, enquanto nos arrastamos de volta à residência estudantil.

O metido não sabe, mas, no Brasil, sentimos orgulho em amarelar. Meu corpo inteiro lateja, em especial a amígdala, nas cavidades mais profundas e obscuras do sistema límbico, onde escondo o que sobrou do meu moral. Quero chegar ao quarto, arrancar a roupa suada, passar meia hora debaixo do chuveiro quente, só deixando a água massagear meus músculos e meu cérebro. Depois, me sepultar no colchão até a gravidade escoar das minhas costas o peso que meu país depositou sobre mim em uma única tarde.

Saí do Brasil decidido a não voltar nem para o meu próprio enterro. O plano era me virar em subempregos enquanto estudava e depois costurar a entrada no audiovisual, fosse nos Estados Unidos ou na Europa, tanto faz se cinema ou televisão. Após juntar dólares com bicos durante a faculdade de Jornalismo, aproveitando a boa fase do Real, paguei meus gastos de passagem aérea, hospedagem e matrícula no curso pouco antes de uma nova crise elevar o valor da moeda americana em quatro vezes. Ao entrar no avião, dei as costas as minhas origens.

Vamos sambar? – perguntou Laura quando respondo à batida na porta.

Duvido que toque samba de verdade nessa festa.

Não importa. Todos estão no clima. Vamos lá.

Na verdade, sambo tão bem quanto jogo futebol.

Quem vai saber? Você é o único brasileiro do grupo.

Saio do metrô na Astor Place conduzindo uma horda de vinte bárbaros que se comunicam em, pelo menos, dez versões exportadas do idioma local. Sou o próprio guia de turismo brasileiro em parques da Disney, faltando apenas o boné de tom fosforescente e uma bandeirola para não largar alguém pelo caminho. O bar é apenas um espaço retangular com um balcão de drinques e uma mesa de som. No centro, abaixo das luzes estroboscópicas, a pista de dança abriga três dezenas de pessoas que bebem, papeiam e se balançam como joão-bobos. O ambiente foi decorado com bandeirinhas piratas do Brasil – o slogan “Ordem e Progresso” está posicionado em uma faixa branca reta na diagonal, dentro de um círculo azul adornado por uma estrela solitária. Há tiras de serpentina penduradas no teto.

Atravesso aquela bizarrice e miro o balcão, onde uma bartender loira usando cocar de índio apache e com maçãs do rosto pintadas de verde-e-amarelo me informa sobre a ausência de cerveja no cardápio da noite. Só caipirinha. Peço uma e recebo no lugar um copo de vodca com gelo de raspadinha, um limão cortado ao meio e muito açúcar, tudo batido na coqueteleira e acompanhado de um guarda-chuvinha violeta que empala um pedaço de abacaxi. Consigo dar dois goles econômicos e decido segurar tal embuste o resto da noite só para não colocarem outro copo na minha mão.

Um amigo inglês de Laura, adornado por um colar de flores, explica, aos gritos e perdigotos, que a ideia do evento foi do namorado dele, o DJ, um canadense que acaba de voltar de uma temporada de duas semanas em Djerikuakawra. Jericoacoara? Yes, Djerikuakawra. Ok. Olho para a pick-up e um bigodudo de óculos escuros e camiseta tricolor do Fortaleza emenda “Só Love” e “Xibom Bombom” sem a menor preocupação de causar a inversão dos polos da Terra.

Como se dança isso? – pergunta Jérôme, empolgado na escala segundo gol do Zidane sobre o Brasil.

Não sou a melhor pessoa pra te responder isso.

Ué, só tem você de brasileiro aqui. Você é o único que pode responder isso.

Olho ao redor. O Resto do Mundo está mais perdido do que eu. Laura tem razão. Quem ali vai saber que meu molejo é nível boneco de vento de posto de gasolina. Largo a pretensa caipirinha no balcão no momento em que as caixas de som soltam os acordes iniciais de “Na Boquinha da Garrafa”. Peço um espaço para a uns desconhecidos e inicio uma coreografia tirada cem por cento do improviso. Abaixo, pulo, alterno as mãos na cabeça e para trás, giro, rebolo, empino a bunda segurando os joelhos, aponto a esmo para pessoas que não conheço e sei lá mais quais sinais os deuses e demônios da brasilidade enviam às minhas articulações ainda doloridas pelo épico bate-bola de hoje.

Jérôme e Laura copiam meus movimentos. Giorgio, José, Marc e Temmuz copiam os movimentos de Jérôme e Laura. O vírus do mexe-e-remexe se espalha como uma onda, tomando conta de toda a pista. Dezenas de pessoas submetidas ao meu comando começam tudo de novo infinitas vezes, escapando às ruas de Nova York, o país inteiro e o mundo todo, primeiro passo para o apocalipse do quebra-e-requebra e do rala-rala.

Ninguém lá no Brasil vai acreditar quando eu contar.

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