(Bruno Vicentini)
quinta-feira, 18 de março
Hoje de manhã encontrei esta agenda, em cujas páginas escrevo agora estas linhas, esquecida no fundo de uma caixa de papelão, onde foi deixada algum tempo atrás ou pouco depois. Com exceção da frase “Hoje de manhã encontrei esta agenda, em cujas páginas escrevo agora estas linhas, esquecida no fundo de uma caixa de papelão, onde foi deixada algum tempo atrás ou pouco depois.” e da frase que se iniciou em seguida e que estou escrevendo agora, esta mesma, que não posso citar em aspas porque ainda não chegou ao fim, o resto da agenda está todo em branco. Agora que a frase anterior chegou ao fim, eu poderia, se quisesse, citá-la em aspas, mas não me sinto disposto a fazer isso.
sexta-feira, 19 de março
xampu na janela
o vento te joga
pra dentro ou pra ela
sábado, 20 de março
Meu novo vizinho é o Geraldo Vandré. Hoje cedo, quando saí pra tirar o lixo, ele tava lá na calçada, acompanhando o pessoal do caminhão de mudanças, que descarregava as suas coisas guardadas em caixas de papelão e ia levando pra dentro da casa, a casa dele, que fica bem em frente à minha. Não se apresentou, é claro, e nem precisava. Eu também não me apresentei, embora precisasse, mas não convinha. Imagina que eu fosse dizer “tenha um bom dia, Seu Vandré”, ou então “precisando de algo pode chamar, viu, Seu Geraldo”, ou qualquer coisa do tipo, a título de política da boa vizinhança. Ficamos ali um minuto ou quase, olhando um pro outro, em silêncio. Depois eu entrei e fui cuidar da vida.
domingo, 21 de março
Confesso que não sei muito bem o que vou fazer com esta agenda, que é do ano passado. Descobri-la no fundo de uma caixa de papelão foi como reencontrar um velho colega de escola, um que te diz, sem rodeios, que na época da escola você era o mais completo imbecil. Me senti o mais completo imbecil. A agenda consiste num caderninho de capa preta, que eu comprei no fim do ano retrasado, pra usar no ano que já passou, porque achei que podia ser importante, sei lá, pra anotar os compromissos, rabiscar ideias, esse tipo de coisa. Como vocês podem imaginar (enquanto eu, de minha parte, vou imaginar que vocês estão mesmo por aí, ou vice-versa, e interessados), o plano foi um fracasso. Reencontro-a agora, imaculada, plena, inútil, um símbolo concreto e infalível da minha derrota, da minha absoluta inaptidão.
segunda-feira, 22 de março
Fui convidado pra dar uma entrevista pro site comoeuescrevo.com. A ideia é que eu conte como eu escrevo, como os escritores contam como escrevem. Sempre como se alguém se importasse e se interessasse. Encaminharam-me um roteiro de perguntas, “Você tem uma rotina matinal?”, “De onde vêm suas ideias?”, “Como você lida com o medo, com a procrastinação?”, “O que você diria a si mesmo se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?”. Como se isso fosse possível, como se eu tivesse ideias, como se eu lidasse com a procrastinação, como se eu pudesse dar conselhos a mim mesmo e/ou aos outros. Mais ainda, conselhos que já não tenham sido dados pela Noemi Jaffe, pela Giovana Madalosso, pelo Xico Sá, pelo Chico Felitti.
terça-feira, 23 de março
É oficial: parei de escrever (mas, caso contrário, podia quem sabe escrever um haikai, bastava querer).
quarta-feira, 24 de março
esquina do mundo
um cão vagabundo
não vai aonde quer
quinta-feira, 25 de março
Geraldo Vandré usa um boné do sindicato dos servidores, tem um periquito-australiano no jardim, faz churrascos aos sábados, instalou uma antena externa modelo boca de jacaré, quase não sai de casa, tem um xampu (Seda Ceramidas) na janela do banheiro, cumprimenta-me diariamente com um aceno de cabeça, prefere sacos de lixo azuis aos verdes, usa meias sociais e tênis de corrida, tem no jardim uma mangueira amarela antitorção das boas, na garagem um corsa, seus cabelos são compridos e muito brancos e ele parece alguém que eu conheço. O periquito-australiano canta apenas as próprias composições.
sexta-feira, 26 de março
Como eu já devo ter dito, o pior é que paguei caro nesta porcaria, uma agendinha petulante de capa dura, feita a mão, com marca-páginas de fita, fecho em elástico, de uma marca importada, metida a besta. Tudo isso pra ver se usava e não usei. Na época achava que seria uma boa ideia. Mesmo que eu não tivesse compromisso algum pra registrar, nem antes e tampouco agora. Antes era ainda o ano retrasado, a agenda do ano passado, o ano precisava, portanto, acabar, pra começo de conversa. Mas quando enfim acabou, eu já tinha perdido a agenda. Cheguei a procurá-la, no dia primeiro de janeiro do ano passado, mas era dia de ano-novo, quando a gente não quer saber de compromissos, ainda que não tenham sido ainda anotados onde quer que seja.
sábado, 27 de março
Conselhos que não foram dados pela Noemi Jaffe, pela Giovana Madalosso, pelo Xico Sá, pelo Chico Felitti: Escreva de manhã, quando não há mais ninguém em casa. Escrever é sempre uma atividade clandestina, como conspiração ou onanismo. Não importa o tamanho da empreitada, você vai procrastinar e resolver apenas na véspera. Invente, portanto, uma infinidade de pequenos prazos. Viva como se cada dia fosse uma véspera. Não escreva haikais. Escreva com o trejeito furtivo e casual com que um ladrão, numa festa, se aproxima do quarto do cofre. Escreva vestindo um chapéu-coco. Vestindo óculos escuros. Luvas de boxe. Escreva a primeira frase como se fosse um microconto da Lydia Davis. A segunda, como um do Monterroso. Faça do texto uma rinha de influências. Escreva como se o português brasileiro não fosse sua língua materna. Escreva como quem cozinha pra um banquete gigantesco, que não vai acontecer nunca. Como quem lava a louça e dá brilho às porcelanas usadas num gigantesco banquete, que já aconteceu há muito tempo.
domingo, 28 de março
meu novo vizinho
ou é ou não é
o Geraldo Vandré
segunda-feira, 29 de março
Pode haver algo mais deprimente do que isto, uma agenda do ano passado totalmente em branco? Algo mais deprimente que uma agenda sendo usada como diário? Escrevi uma série de frases nos espaços reservados aos dias 22, 23, 24, 25 e 26 de março, segunda, terça, quarta, quinta e sexta-feira, respectivamente. Mas os dias da semana não correspondem aos dias do mês, isso porque a agenda é do ano passado. Os dias são outros dias. Ontem não foi domingo, 28 de março, tampouco hoje é segunda-feira. Se nem mesmo estamos em março, que dia pode ser hoje?
terça-feira, 30 de março
Que um dia, um dia qualquer, esta frase, ou qualquer outra, escrita nesta agenda, ou em qualquer outro lugar, possa quem sabe ser usada como prova, ou pelo menos como indício, de que eu estive por aqui, enquanto vocês, ou quem quer que seja, estiverem mesmo por aí, ou vice-versa, e interessados.
quarta-feira, 31 de março
Geraldo Vandré me chamou pra um churrasco em sua casa. A comida era muito boa e todos os seus convidados foram muito gentis, muito embora ninguém tenha me feito pergunta nenhuma. Geraldo e eu também não conversamos sobre o que quer que seja. Eu apenas bebi, como se fosse ano-novo. Lá pelas tantas, ele se trancou no quarto, deixando os convidados livres pra tirarem suas próprias conclusões. Fiquei pensando no que a imprensa local faria se ainda existisse e, existindo, soubesse que Geraldo Vandré hoje mora na Rua Pioneiro José Alves Filho, 570, no Jardim Pinheiros II, em Maringá/PR. Fui embora antes que algum dos convidados, eu inclusive, puxasse o violão.
quinta-feira, 1 de abril
Sem querer fui me lembrar do meu amigo Ben-Hur da Lima Pinto, que me ensinou tudo sobre música, influenciou toda uma geração de roqueirinhos maringaenses, e que uma vez chamou a polícia pra si mesmo. Outra vez, e isso já faz muito tempo, desenhou um periquito-australiano com giz de cera numa cartolina, depois recortou o desenho numa série de pedaços, tal qual um quebra-cabeça, escreveu uma mensagem no verso de cada pedaço do desenho, enumerou e mandou plastificar. Cada peça do quebra-cabeça ele deu pra uma pessoa diferente. Eu ganhei uma. Ainda me lembro exatamente do que tava escrito no seu verso: “Bruninho! Feliz Natal! Feliz aniversário! Feliz Páscoa! Feliz Carnaval! Feliz Dia das Bruxas! Feliz sejam todos os dias! Faça os outros também saberem o que eu já sei! – Its Educational! Its Educational! – Pixies – Parte 42/62 Lado Norte”. Acho que a ideia dele era reunir as pessoas e os pedaços todos muito tempo depois, pra que se pudesse então remontar o desenho. Acontece que eu não tenho mais o meu pedaço. Não sei onde ele pode ter ido parar, se perdeu no fundo de alguma caixa de papelão, algum tempo atrás ou pouco depois. Fico imaginando esse dia, as pessoas reunidas, o desenho inteiro formado e a minha peça faltando. Mas hoje em dia o Ben-Hur se converteu, se mudou pra outra cidade, toca baixo na igreja, tem mulher e filhos e preocupações mais urgentes.
