Zé Todinho

por Américo Paim

28 de março

Dona Fervorosa, a senhora me perguntou sobre aquele negócio ontem de novo. Repare, eu tentei lembrar pra lhe responder. Como vive muito ocupada, resolvi deixar esse bilhete. Aí leia quando puder. Veja bem, eu não sei. Não já falei que eu esqueci foi tudo? Às vezes vem umas coisas na cabeça, mas não fica nada ou nem volta mais. É verdade. Quero cair duro estorricado aqui, se for mentira. Não sei dizer como vem o dinheiro do aluguel, nem quem é o santo pagador. Eu gosto é muito, não vou mentir. Eu preciso encontrar essa pessoa e agradecer essa benfeitoria toda. Olhe, se a senhora não me contasse como tudo isso acontece, eu nunca que ia saber e muito menos ia ter como pagar. Se não fosse essa providência, o que seria de mim? A essa altura já taria era preso. Então, se avexe não. Se alguma coisa vier, eu juro que conto. Por enquanto pense que eu sou feito um livro com as páginas todas arrancadas.

13 de julho

A senhora me diga se isso é certo. Eu sou o “bebo”, é justo, mesmo assim é demais, viu? Onde já se viu não limpar meu quarto? Isso não tá no preço do aluguel? Então? Acordo de manhã com aquele fedô de mijo da miséria. É no chão, na parede, na cama. Num pode, Dona Fervorosa. Eu sei que num sou eu que pago nem nada, mas o dinheiro chega, certo? Mereço esse desgosto não. A senhora resolva aí, por gentileza. Como a pessoa pode dormir no meio dessa fedentina?

14 de julho      

Oxe, com todo respeito, mas a senhora tá variando? Sou eu mermo que mijo tudo? Precisa ofender? Se aproveitando que num lembro das coisa? Veja só, eu esqueci do que teve lá longe nas lembrança, antes de chegar aqui em Pedra Velha. O que acontece agora eu sei bem, esqueço não. Se eu tivesse “bebo” eu ia saber. Num quer é gastar com limpeza, isso sim. É um abuso. Eu já tô é pensando se vem alguém aqui na hora que eu tô fora na rua. Óia só, a senhora alugou duas vezes? É pra um sujinho desavergonhado? Deve de ser… Assunta…  

2 de setembro

Eu queria entender uma coisa, se for possível pra senhora, que é criatura temente a Deus, me explicar. Passei o dia com os amigos lá no bar e contei a situação. Olhe que ninguém queria acreditar. Disseram até que eu tô é contando vantagem. No fim foi Firmino mermo que me disse pra falar aqui, pra ver se tem como resolver e tudo mais. Eu sei que chego da rua e às vezes a senhora já tá até recolhida, mas eu digo que o homem precisa dormir. Apois, num tô conseguindo e já faz uns dias. É que fica essa mulher sentada na cadeira cantarolando o tempo todo. E nem conheço a cantiga, dá nem pra cantar junto. Eu peço pra ela parar e ela fica ali só no riso. A diacha é bem bonita, ainda tira é o sono. A senhora colocou ela lá porque tá com raiva de mim, é? Me diga. Se contratou essa criatura, então descontrate aí, por gentileza. Nem sei o que foi que eu fiz, mas num faço mais não. Guento mais a criatura ali toda noite, não. Parece assombração, cruz credo. E ela é bonita mermo, viu? E num vai acontecer nada assim, um negocinho, né? A mulher só quer saber de cantar. Nem conversa nada. Até perguntei pro povo dos outros quartos se ninguém tava ouvindo o lálálá. Ninguém sabe é de nada. Bando de surdo.

4 de setembro

Dona Fervorosa, eu pedindo uma ajuda e a senhora vem me dizer que nem tem cadeira no meu quarto quanto mais mulher? Tá me chamando de mentiroso? Pois eu digo que ela continua aparecendo e é sempre a merma ladainha, num tô dando conta. Resolva isso, por favor.

7 de janeiro

Agradeço porque a senhora tá tomando esses recado todo pra mim. É que meus clientes precisam falar comigo e eu num tenho celular, nada disso, já sabe. Esse trabalho de fazer frete né fácil não. Se não fosse a ajuda do Seo Fenelon, nem sei. Home rico daquele e olhou por mim. Quem que ia acreditar? Foi gente boa me arrumando a carroça de segunda mão, mas o serviço só dá uma merrequinha que mal paga a tampa da garrafa. Muito obrigado pela ajuda. Jesus lhe recompense.

22 de fevereiro

A senhora disse que num tem cachorro aqui no prédio. Então como é que apareceu aqui no quarto? Já faz mais de semana que não sai. Como é que a senhora diz que entra no quarto todo dia e não vê o bicho? Oxe, num tá enxergando bem, não? Ele é até bonitinho o desgraçado, vira-lata sem pai nem mãe, pior que eu. Fiquei com dó de largar na rua. O problema é que come minha comida toda. Ninguém nem faz ideia. Só come se eu ficar de quatro na frente dele e do prato. Aí come tudo. Dá até gosto. Eu até dei um nome pra ele: Cheiroso. É que ele tem uma inhaca retada, pior que carniça. Dou banho toda noite, mas de manhã já tá fedido que tem que ver. Sabe lá o que ele faz pra ficar assim. Ele late de noite mermo, é verdade. Se os vizinho reclamar, é só falar. Tião Rolinha não se queixou de nada – também ele tinha aquele papagaio, lembra? Ficava o dia todo falando alto. Foi coisa de Deus não… matarem o bicho com aquele balaço. Nunca acharam quem foi, né? Girino também tá de boa. Ele até disse que gosta de cachorro e que um dia quer conhecer Cheiroso. Só Carteado que num fala nada, nem vejo o cabra direito. Eu queria mermo era resolver o bodum do bichinho. A senhora conhece alguém? Ah, se sobrar um restinho de comida aí da cozinha, eu quero. Cheiroso come de um tudo.

23 de fevereiro

Oxe, a senhora num pode falar comigo assim não. Precisando de médico? Ninguém vê o cachorro e eu sou maluco? Eu, hein… Sou pobre, “bebo”, mas doido sou não. Me respeite!  

  

7 de março

Óia que coisa. Os menino veio tudo falar comigo hoje cedo. Notre Dame, Todo Feio… Aqui na porta do prédio. Falaram assim ó: “Zé Todinho, esquece essa história do enterro de Cheiroso”. Isso foi coisa da senhora? Comecei a cavar ali no meio da praça, onte à noite, mas eles chegaram e pediram pra parar. Me disseram um monte de coisa, na calma, e aí eu fui ficando meio leso, me botaram no banco e me deram uns goró, eu acho. Acordei depois aqui no quarto. Agora eu pergunto: o que fizeram com o pobre do cão? Jogaram no rio? Queimaram? Ninguém me diz nada e eu num sei o destino do bicho. Isso tá certo não.

25 de abril

No começo era um buraco pequeno, assim feito um ponto de prego. Nem liguei. No outro dia, ele cresceu e foi ficando estranho, parecia que tava se mexendo e coisa e tal. No terceiro dia, ele tava grande, de caber a mão inteira. Eu tava cismado, ia até pedir pra chamar um pedreiro. Aí eu vi coisa se sacudindo. De primeira, achei que era um passarinho, assim todo amarelo com a cabeça branca, sei o nome não. Ele começou a mudar de cor, ficou vermelho, marrom e preto. Foi aí que resolvi chegar perto. No que faltava um passo, o bicho saiu voando. Era morcego, óia. E saiu outro e mais outro e mais outro. Aí eu só lembro que acordei cheio de remédio nas veia. A senhora num devia ter me mandado pra hospital de maluco. Falta de respeito, viu?

10 de maio

A senhora veja só isso. Eu agora fico pensando numa filha. Como é isso, se nem tenho passado? É uma coisa misturada, sabe? É meio assim: eu tô deitado na cama, daqui a pouco tô no escuro, tudo breu. Aí aparece uma luz forte feito sol e eu acho que no meio da claridão tem uma criança, uma menina. Num dá pra ver. Aí eu fico de conversa com ela, perguntando o nome, mas ela fala nada. Não tem voz, não tem cara. A senhora viu essa luz também?

20 de maio

A senhora num falou mais nada da história que eu contei da escuridão e tal e coisa. Acontece que ontem foi diferente. Foi de verdade ou eu tava era sonhando? Sei não. A senhora sabe que eu gosto de pescar, né? Nunca mais fui, meio desprovido das coisa de dinheiro, sabe? Então, eu tava na beira do rio, ali na cocó, vendo se um grande mordia. Aí eu olhei pro outro lado e tem aquele morro alto, certo? Tudo cheio de neblina, mas eu vi bem um homem certinho, óia. Ele olhava pra baixo e gritava alguma coisa que eu não entendia. Um desespero só. Eu aqui berrava pra ele e ele num respondia não. Só gritava, com as duas mãos na cabeça. Aí ia tudo se apagando e eu tava no quarto de novo. Contei pros menino lá no bar e todo mundo achou que eu tô é ficando doido. Só que eu vi, eu vi!

3 de junho

Olhe, Dona Fervorosa, a senhora falou tanto que eu nunca mais sonhei com a criança, tá vendo? Mas ontem eu juro que foi real. Apareceu uma mulher tão parecida com a tal da menina que eu falei, precisa ver. Ela ficou me olhando e chegou perto, naquele escuro todo. Dava pra ver a cara direito não, mas é bonita que só. Ela pegou minha mão e a gente saiu por aí pelo mato. Agora, tô pra lhe dizer que eu num senti a mão dela me apertando não. Até arrupio aqui. Ela me segurava, só que eu não sei explicar como era não. E eu tava era feliz. Só via tudo escuro e um clarão vermelho assim na cabeça da moça. Eu nem tinha bebido o tanto de sempre, eu digo isso. Agora, a senhora me fale aí o que foi que me passou.

17 de junho

Dona Fervorosa, onte eu tava voltando do rio. Num peguei foi nada e aí no que passei pela praça, o home me chamou. Seo Fenelon, aquele do carreto, a senhora lembra? Apois, me viu assim meio largado e chamou pra sentar junto com ele no banco, óia só. Me deu comida, pediu na lanchonete. Viu que tem pessoa boa no mundo? Ficamo de prosa lá um tempão. Eu contei um monte de história pra ele, as coisa que aconteceram aqui e tudo. Contei até os sonhos. Olhe que ele num me chamou de maluco hora nenhuma. Disse que gosta de mim e quer me ajudar. Tá vendo? Pois sabe o que ele fez? Me convidou pra ir no bar do Cabeça Quente amanhã. Quer continuar a conversa. Com certeza vou tomar um goró do bom.

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