Eu ainda choro

Eduardo me aponta pelo vidro do carro o casarão na Paulista que acaba de virar um Mc Donald´s. Ele me conta que existe um termo para essas áreas de alta densidade de comida vagabunda e ultracalórica: pântano alimentar. Se você não é um jacaré ou um crocodilo, é difícil comer bem na avenida mais famosa da capital. Ele quer saber porque flexionei oito vezes o verbo cair no meu último livro. Ele diz que tem essa mania de anotar palavras que se repetem para tentar captar o espírito do autor, uma espécie de técnica que ele mesmo criou há mais duas décadas ao perceber que a palavra cu estava presente 38 vezes na História do Olho. Minto que me julgo uma suicida em queda livre rumo ao chão duro de grama árida. Sei que é o tipo de coisa ele gostaria de ouvir. É algo que os homens em geral esperam escutar. Nada como a ideia de uma mulher frágil para eles sussurrem “vai ficar tudo bem” enquanto elas choram seminuas na cama por causa da lembrança de um cachorro atropelado na caminhada matutina ou porque Mercúrio ficou retrógrado.

Talvez eu não devesse aceitar as suas caronas, os limites da nossa relação – a princípio profissional – não estavam bem definidos. Ele me pede confissões inéditas, coisas que eu só lhe diria naqueles momentos de muito calor e de trânsito lento. Emulo uma Virginia Woolf latinizada meio tola e claro, bastante triste. Conto que perdi dez anos dentro da bolsa de vovó. Assim, todas as minhas bolinhas de gude escorreram pelas escadas. Não me foi possível recolher sequer uma memória na bola de cristal. Meus olhinhos de peixe morto tumultuavam muito o caminho das idas ao ensino infantil e à escola primária, os hormônios me apagaram o fundamental. Eduardo aperta as minhas bochechas bem de leve, demonstrando carinho e comiseração. Geralmente não me agrada que relem na minha face, desde o meu nascimento minhas bochechas atraem apertões e comentários. Ninguém resiste a um bebê bochechudo, a uma criança bochechuda, mas depois dos oito anos torna- se constrangedor e abusivo. Noto franqueza no seu ato e no seu olhar empático. A cidade às seis horas da tarde com seus tons de Munch no céu me deixa melancólica.

Então eu penso em engolir as bolinhas de gude, incinerar a mobília da minha quitinete, comer um Big Mc mesmo consciente da produção e do seu processo digestório complexo no meu corpo. Escuto o ronronar grave dos motores próximos. Minhas coxas grudentas pelo mormaço. Eu não quero me mexer, mas a paralisia também me incomoda. Tangencio, falo da temperatura, Eu pergunto se sua irmã é feliz depois do acidente que a deixou paralítica. O carro acelera e nós começamos a comer o asfalto. Ele diz que não porque ela nunca mais chorou

O GPS mostra que ainda temos meia hora até o destino final. Ele insiste em me deixar na porta de casa, embora eu implore pela estação de metrô mais próxima. Digo que o aparelho digestório humano é formado por um sistema de órgãos interligados formando um extenso duto que podem chegar a nove metros de comprimento, ele me olha como tentando imaginar todo esse longo emaranhado de órgãos em um corpo tão franzino como o meu. Nove metros é a largura de uma quadra de voleibol. Sinto as bolas quicando no meu abdômen.

Suas mãos de dedos inseguros no meu joelho. Eu quero e não quero, a imobilidade em si é ação e reação. A buzina do carro vizinho nos interrompe. As pessoas estão sempre com pressa. Me alivia pensar que ninguém mais usa relógio nos pulsos hoje em dia. Por outro lado, nunca desgrudam de seus smartphones. Eduardo é do tipo anacrônico, bem diferente do conceito de vintage, que são aqueles que se forçam a gostar de coisas antigas para ficarem descolados. Ele ainda escuta CDs no seu veículo, música velha, claro, que ele gentilmente desliga quando eu estou no banco de passageiro.

A cidade inteira diluída e esquecida no conforto do ar condicionado. Giro a maçaneta dura e atiro todas as bolas de gude no asfalto. Ele acha difícil de encaixar, mas o instinto sempre se adianta e conduz os gestos dentro da lataria automotiva. Abro minha gaveta de negativas e cruzo as pernas como quem recusa a terceira guerra mundial. A calcinha molhada denuncia a incompatibilidade entre meu gesto e minha vontade. Talvez na verdade eu esteja levitando e por isso usei tantas vezes o verbo cair. Vou acabar cedendo, eu sei. Me consola saber que eu ainda choro.

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