por Américo Paim
A vista da cidade quase compensava a dura subida até o cemitério. O de Pedra Velha não fugia à tradição de outros da região, construídos no alto para ficar mais perto do céu. Assim diziam os antigos. Ou mais longe do diabo, piadinha recorrente. O grande portão principal, cinza claro com grades de ferro bem robustas, ficava ao nível da rua. Ao ultrapassá-lo, o visitante chegava ao local dos velórios. Até as sepulturas, porém, quase cem metros em subida por um caminho de concreto magro, largo, cercado de mato e uns barracos aqui e ali. No topo, outro portão, menor, mais trinta degraus de escada rústica e se chegava ao destino.
O cemitério tinha duas partes. A antiga, com mausoléus, cercadinhos de grades e sepulturas ornadas com estátuas, crucifixos e afins. Passada essa área, havia uma escada moderna por onde se ia à parte nova, com o modelo de gramado com placas de pedra no chão. Tudo muito amplo. No final da propriedade, ficava o crematório. Dividindo as partes velha e nova, uma longa parede de sepulturas verticais, com entradas para caixões dos dois lados. A parte antiga, com o concreto e os obstáculos à ventilação, era bem quente. Já a nova, arejada pelo constante vento que vinha da serra.
Naquela segunda-feira o calor estava implacável, então Romisael só foi visitar a sepultura dos pais lá pelas três e meia da tarde. Prometeu a eles que cuidaria daquela última morada. Acompanhou a limpeza do local, colocou flores do campo, as preferidas da mãe, e deu um agrado a Cafuringa, o coveiro. Tinha tempo livre e resolveu dar uma volta por ali. Era seu único dia de folga do trabalho no Bar do Cabeça Quente.
Caminhou devagar entre as sepulturas de nomes estranhos e fotos ainda mais. Passou por algumas de pessoas conhecidas e parentes de sua própria família. Ficou surpreso como já havia tanto tempo da morte de alguns e porque outros se foram tão jovens. Parou diante do extravagante mausoléu da família Lima da Silva e falou, no reflexo: “vaso ruim não quebra…”, pensando alto sobre Serafim. Se benzeu três vezes e disse “sai, miseravão”. Passou pela parede divisória das partes do cemitério e se encantou com a vista da área nova. Tudo verde, ventilado, leve. Imaginou que deveria ser enterrado ali, mas pelo custo, tirou a ideia da cabeça. Melhor ficar junto com os pais mesmo, no jazigo perpétuo que o avô Onório adquiriu, muitos anos antes.
Após instantes de contemplação, ele conta que viu, à distância, perto do muro do lado direito, três pessoas – um homem e duas mulheres. Apurou bem a vista para aquela camisa estampada de gosto duvidoso. Não havia dúvida: Firmino Notre Dame. Os dois colegas de bar tiveram a mesma ideia de ir ao cemitério em seu dia de folga. Coincidência? Não reconheceu as mulheres. Como contou depois, a mais jovem usava blusa marrom e calça jeans comprida. Tinha óculos escuros grandes. Ela e Firmino conversavam e ele gesticulava muito. A outra mulher, de cabelos grisalhos, estava com uma bata branca ou coisa parecida e permanecia em silêncio. Curioso que só, decidiu se aproximar. Desceu as escadas com cuidado e contornou o perímetro protegido pela fileira de grandes árvores que delimitavam o início do campo de sepulturas. Certo que não foi visto, pôs-se a observar de novo. Pensou conhecer a mulher mais jovem, mas não estava seguro. Pouco depois, viu as duas saindo e esperou que desaparecessem na ala antiga. Logo foi ter com o amigo que, distraído, olhava em outra direção.
– Firmino, disgraça!
– Puta que pariu, Todo Feio! Vai matar o diabo!
– Oxe, homem, qual foi?
– Tô aqui pensando na vida e você me aparece assim?
– Queria dar susto não. Até fiz barulho.
– Que cê tá fazendo aqui, miséra?
– Eu que lhe pergunto.
– Veio assombrar defunto, foi?
– Muito engraçado. Vim ver a sepultura de painho e mainha.
– Ah, tá bom.
– Num venho aqui ficar de aliutria com mulé, não…
– Oxe, bateu a cabeça?
– Nada. Eu vi. Só não conheci quem é.
– Só tava conversando com ela.
– Ah, então num tô cego não.
– Num é o que tá na sua cabeça podre. Foi um acaso.
– Me engana que eu gosto…
– Tô lhe dizendo.
– Vá, mexa seu vatapá pra não embolar…
– Porra, véi, é verdade.
– Tu ia dar ponto sem nó?
– E tu? Num tem vergonha de ficar de butuca?
– Quem, eu?
– É isso mermo, bizoiando a vida dos ôto.
– Tava não. Só vim apreciar a vista. Aí vi esse abadá que tu chama de camisa…
– Não vá se fudê não, fique aí…
– Vá, largue logo o doce.
– Que oce?
– Amanhã eu falo pro povo no bar e aí…
– Porra, tu é cupim no cu mermo, viu?
Vendo que o amigo não ia arredar dali, Firmino o levou para um local mais distante. Sentaram-se em um banco de ferro com tinta desgastada. Após checar mais uma vez que estavam sozinhos, falou. A mulher era Joana, que queria ajuda com um assunto.
– Boca de siri, viu, Todo? Tu é bocudo…
– Porra, corcunda…
– O papo é sério.
– Apois, desembucha.
Olhou Romisael com hesitação e resolveu que não ia dizer tudo. A desconfiança que ele tinha sobre o assunto ia guardar para si, afinal nem estava certo do que lhe veio à cabeça, uma história tão antiga. Contou que já conhecia Joana há mais tempo. A mãe dele, Dona Mina – mãe dela e Dona Vivinha, que morava defronte, eram muito amigas. Mesmo depois da morte da mãe, Joana manteve a amizade. Ela estava preocupada, desde que Dona Vivinha, há poucos dias, recebeu uma carta anônima com palavras curtas, formadas com letras recortadas de revistas, em tom de ameaça.
– Oxe, veio no cemitério só pra isso?
– Cê quer ouvir o resto, cabrunco?
Nos dias seguintes à carta, ela achou que tava sendo seguida toda vez que ia para a rua. Foi batendo um medo. Não demorou e ouviu uns ruídos estranhos do lado de fora da casa, à noite. Depois quebraram um vidro da sala com uma pedra enorme durante a madrugada. Até que ontem amanheceu uma ratazana morta na varanda, com um canivete meio diferente enfiado no pescoço. Além disso, ela contou a Joana que teve um sonho com morango, que dizem que é sinal de que o inimigo está próximo. Romisael interrompeu aí.
– Sim, véi, parô… E quico?
– Ela me pediu pra ficar esperto no bar. O povo fala de tudo por lá…
– Ué, cheio de serviço e ainda tem que prestar atenção no leriado?
– Você nunca faz isso, né, Todo?
– É diferente… Deixa quieto. E aí, teve mais o quê?
– Como assim?
– Não rolou nada com a bem apessoada?
– Tá falando merda.
– Só perguntei, calma… E a outra?
– Quem?
– A mais velha.
– É o que, home?
– A que tava aqui com vocês. Tá abestado?
– Tinha ninguém não. Só eu e Joana, ué. Tu tá é doido, viu, papá…
– A mulher de branco, fio…
– Nem sei do que cê tá falando.
– Óia, home, tá me metendo medo.
– Mas se num sei que prosa é essa.
– Eu vi, eu vi! Cabelo meio cinza, magrinha.
– Ah… Com um bracelete dourado e um rabo de cavalo?
– Sim, sim! Tá vendo?
– Todo, eu acho que tu viu foi o fantasma de Dona Mina.
– Oxe, que porra é essa, vade retro…
– Tô lhe dizendo…
– Deus é pai, fui!
Dito isso, saiu em disparada do cemitério. Firmino gritou para o amigo voltar e ficou ali, encostado no muro, rindo. Inventou tudo a partir da lembrança de um retrato de Dona Mina que viu na casa de Joana, dias antes. Ainda com o riso na cara, se dirigiu à escada para ir embora. Ao chegar ao topo, passou a parede divisória e ouviu uma voz de mulher:
– Muito feio o que fez com seu amigo.
Ele se virou e lá estava ela, toda de branco, com um bracelete e o rabo de cavalo.
Ele foi encontrado por Cafuringa e Perfilino, seu ajudante, quase meia hora depois, desacordado sobre uma sepultura na parte velha. De lá até sua casa, com medo nos olhos e suor nas mãos, ele só falou “Mina, Mina, Mina”.
No dia seguinte, já mais calmo, trabalhando, ele era só desconfiança e pouco falava. A turma habitual só na pirraça: “Ô, garimpeiro, desce mais uma!”; “Essa corcunda é do garimpo?”. Todo Feio só fazia rir. Firmino até poderia rir também, não fosse o medo do olhar incisivo que vinha de um cliente da mesa 8. Era Serafim, cortando um morango bem devagar, com um canivete grande, de cabo de madrepérola.
