Elza sem adornos

04/07/2022 – Segunda-feira

  Ela nem me notou, mas eu notei a mulher assim que desceu do ônibus. Os cabelos azuis, mesmo sem brilho e grudentos pelo óleo dos dias sem lavar, eram bonitos. Usava uma mochila em forma de macaco presa à frente do busto com os braços e pernas do bicho envolvendo o seu tronco. Parecia agitada, seguiu na minha frente, virou a esquina e desapareceu. Sobrou em mim uma vontade de ter os cabelos na mesma cor que os dela. Na hora, pensei que o azul me ficaria bem numa peruca de corte Chanel com fios sintéticos. Nada de tinta.

Por conta desta vontade, aproveitei a manhã de hoje pra procurar uma peruca na 25 de Março. É bom ter ainda algum dinheiro e tempo livre. Antes de sair, mandei mais currículos para as escolas privadas . Vamos ver se dessa vez eu passo nas entrevistas e consigo ficar no emprego. Para a escola pública, não tem entrevista, mas tenho que ser aprovada no concurso e no insuportável exame médico. Enquanto isso, tento me virar como manicure aqui em casa.

As perucas estão na sacolinha embaixo da cama. Acabei comprando três: a azul, uma loira e uma de fios pretos naturais e curtos.  Junto, trouxe também uns óculos de sol, um boné, um chapéu, uns lenços que funcionam como xale e uma mochila em forma de macaco, igualzinha a da mulher, mas sem a pelúcia ensebada. A peruca de cabelos pretos é masculina. Gastei mais do que o previsto. É que, a cada item que provava, crescia em mim uma vontade de me transformar. Nas perucas, quase trouxe também uma lilás que ia dar vida ao embaçado  dos meus olhos. Só não comprei porque todas eram muito grandes para a minha cabeça miúda.

05/07/2022 Terça-feira

Acordei, tomei meu café sem leite, esquentei uma fatia de pão na frigideira e consultei os e-mails. Não tinha resposta alguma das escolas e das clínicas de qualquer coisa. Nada para professora, nada para recepcionista. Então me vesti de Amanda. A partir de hoje, decidi seguir a ordem alfabética. Amanhã saio de Berta ou Berto. Ainda não escolhi. O que sei é que circular pelo centro da cidade de peruca azul é diferente de fazer o mesmo no Itaim. O centro é mais acolhedor e o Itaim tem uma gente que anda em levas pelas ruas e de repente desaparece. Fiquei bem com os cabelos brilhantes na altura do maxilar, mas Amanda não passou nem na porta para a entrevista no Salão de Beleza do Shopping JK, também não passou como vendedora na Santa Efigênia.  Acabei de decidir que amanhã vou de Berto e vou conseguir a vaga na loja de games. Só tem homem por ali. Com a peruca de cabelos pretos fico a cara do meu tio Vicente. Ele entendia de eletroeletrônicos, me trazia mini games do Paraguai e só me deixava jogar depois de sair da minha cama.

06/07/2022 – Quarta-feira

Acordei e deixei para comer uma fatia de bolo e tomar um café de garrafa na banquinha da estação Brás. Não tinha mais pão, nem pó de café, nem nada na geladeira. Joguei a peruca azul pela janela. Não deu sorte.  Nenhuma resposta das escolas e de todas as clínicas. Deixei o número do meu Zap em três pet shops e disse que sou boa pra passear cachorro. Não saí com a peruca preta porque não posso lembrar do tio Vicente . Saí de boné, apertei meus peitos com um dos lenços que comprei, vesti uma jaqueta e fui de novo para a Santa Efigênia. O dono da loja de games disse que ia mandar mensagem. Quer saber? Duvido. Também já nem quero mais o emprego. Vou vender coisas por minha conta em cima de tapetinhos. Nas ruas tem gente fazendo isso, mas dizem que tem gente que contrata. Vou tentar sozinha como aquele homem que toca uns tambores quase em frente ao prédio da prefeitura. Se eu soubesse tocar algum instrumento…. Posso enganar como o velhinho da gaita em frente ao Shopping na Paulista.  As pessoas colocam dinheiro no chapéu por pena do sopro fraco e da baba do homem. Não quero pena de mim. Amanhã vou de Cristina.

07/07/2022 – Quinta-feira

Perdi toda a vontade de ser Cristina ou qualquer nome com C. Nem de homem, nem de mulher. Acabei saindo de Elza, como me chamaram meus pais. Não é que pulei também a letra D é que esse negócio de ordem alfabética é coisa pra gente organizada. Quase fiquei em casa remoendo a Elza dos meus documentos, mas lembrei que ela é a melhor pessoa pra sair invisível.  No dia em que vi a mulher dos cabelos azuis, estava de Elza e acho que por isso ela não me viu ou não me viu por que só queria sumir na esquina escura onde virou. Ela e o seu macaco-mochila. Um dia vou virar aquela esquina pra ver se encontro a mulher. Tive a impressão de que ela estava voltando para casa como eu naquela noite. Um dia não, acho que vou amanhã e vou estrear minha mochila.

Nenhuma resposta de nenhum dos empregos. Tinha certeza de que o moço da loja de games não ia ligar. Não pegam gente de trinta e cinco. Acho que a loja de fios e lâmpadas combinava mais comigo, mas ali também só tinha homens e me deu preguiça.

 Fui de novo ao centro.  Fui de Elza sem adornos e senti saudades da peruca azul.  Sorte de quem achou na rua. Não tenho esta felicidade, o máximo que encontro são sapatos sem par. Naquelas lojas da Barão de Duprat, comprei lupas douradas, grampeadores, cortadores de unhas e cadeados para vender na calçada. Eles estão todos aí embaixo da cama. Minha ideia é ficar ao lado do moço que toca tambor. Acho que a mão dele deve sangrar. Sou tímida pra fazer barulho na rua. Amanhã decido. Se eu desistir das vendas, jogo tudo pela janela ou levo pra doar na igreja. Acho melhor doar na igreja. Está decidido. Não vou vender nada nos tapetinhos. Amanhã vou procurar a mulher com quem cruzei na rua. Ainda não usei a minha mochila nova.

08/07/2022 – Sexta-feira

Fui três vezes à rua onde vi a mulher desaparecer no escuro. Tão perto de minha casa e mal conhecia o lugar.  A rua é acanhada e estreita, tem postes de iluminação, mas as lâmpadas naquele domingo em que passei deviam estar queimadas. Nem chega a ser uma rua, é uma travessa que dá numa praça rodeada por casas de muros altos. Lugar tão deserto de dia que me deu medo de voltar de novo. A praça tem árvores grandes e desfolhadas por causa do inverno. Num canto, atrás de um arbusto de manacá, tinha marcas pretas de carvão. Alguém fez uma fogueira e largou um cobertor sobre os galhos. Parecia uma barraca. Quando voltei à tarde, o deserto da manhã parecia ainda pior como parecem os desertos à tarde. Estava quente, a marca da fogueira no chão tinha desaparecido. Tudo estava ainda mais silencioso. Só ouvi o pio longo de um pássaro escuro e grande. Era uma gralha e eu me agarrei na minha mochila de macaco. Pensei que ali poderiam viver macacos, mas acho que não iam conviver bem com os donos das casas que parecem sem vida.

 Voltei à noite porque a vontade de ver a mulher foi maior que o medo, mas só segui adiante porque a prefeitura consertou a luz dos postes. Na praça, as luzes eram fracas, como devem ser as lâmpadas para não prejudicar as árvores. Senti um cheiro de queimado, vi a fumaça e me aproximei. A mulher estava agachada cutucando a fogueira com um galho. Assim que me notou, ergueu o corpo sem susto como se me conhecesse. O rosto, mesmo avermelhado pela luz do fogo, era tão branco como o meu, o azul dos cabelos brilhava como os fios sintéticos. Precisei chegar mais perto para ter certeza de que ela usava a peruca que joguei pela janela. Ela ajeitou as pontas antes de voltar a se agachar, erguer a mochila do chão e me oferecer a mão do macaco em cumprimento. Quase fiz o mesmo, mas estendi minha própria mão ao bicho de pelúcia e prendi os olhos aos olhos da mulher, opacos como os meus. “Me chamo Elza. E você?” “Me chamo Elza”, ela respondeu.

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