DIA UM
Do nada, os olhos se fecham e um arrepio percorre meu corpo num espasmo. Há algum tempo venho tendo essa sensação cada vez que rememoro alguma cena de natureza sexual. Como minha cabeça é ocupada por sexo o tempo todo, isso significa que a toda hora, em qualquer lugar, experimento um arrepio nervoso que me distrai do que estou fazendo.
Deixe explicar melhor para não confundir quem vier a ler estas linhas no futuro: não é a lembrança do sexo que causa esse tipo de tempestade neurológica; é a lembrança do sexo recente. Desde quando aquilo que preenchia cada fibra do meu corpo e mente deixou de ser fonte de prazer para provocar vergonha? Não sei responder.
Atendo o interfone e autorizo o porteiro a receber o que encomendei. Minutos depois, Paulo, o faxineiro do condomínio, toca a campainha da entrada de serviço e vai embora. Espero a porta do elevador se fechar, espio o hall vazio e recolho os pacotes que o empregado depositou no chão. Como combinamos, antes de encerrar seu turno, Paulo voltará para recolher os vinte reais que deixarei num envelope sob o saco de lixo.
DIA DOIS
Aos cinco anos, brincava de esconder com meu irmão menor e duas primas, de oito e nove. Em vez de vigiar o lugar de pique, só tinha olhos para o que revelavam as saias curtas delas. Acho que nenhuma das duas se dava conta do meu interesse antecipado. Uma morreu solteira e a outra ainda mora num convento.
Hoje não é dia de entrega. Conto os cadernos e as canetas novamente. O estoque é grande, mas as canetas vão acabar antes.
DIA TRÊS
Meus pais recebiam o casal de compadres semana sim, semana não, para rodadas de buraco. Era meu dia de ver as pernas da tia Ercília. Dependendo da posição em que ela se sentasse, eu espiava por baixo da porta do banheiro ou pela fresta da cortina da sala. Ela não parava quieta, tinha um tique que fazia com que suas coxas grossas sacudissem sem parar. No ponto de sombra em que se encontravam, uma nesga de tecido reluzia com o movimento. Acho que era cetim.
Sou o único morador do prédio a ter o privilégio de receber encomendas na porta do apartamento. Os demais precisam descer para apanhar suas encomendas com o porteiro. A luz se apaga no hall, apanho a sopa e o sorvete e tranco a porta.
DIA QUATRO
Quanto tempo uma pessoa pode viver sem sexo? A vida toda, se for um padre ou eunuco. E uma pessoa normal?
Espremo os olhos com o arrepio que me vem. Minha mente tinha divagado para a noite em que saí com a Virna. Trabalhamos na mesma escola mais de vinte anos. Nunca tínhamos trocado mais que duas palavras, ela não me atraía como mulher. Não que fosse feia, pelo contrário. Loira, vestia-se de um jeito elegante, exibia dentes branquíssimos e escondia as pernas longas (descobri depois). Era casada. Uma tarde, esperávamos a chuva passar junto ao portão de saída. Ela disse que ia até o café da esquina; fui também não sei bem por quê. Ato contínuo a pousar a colherzinha, contou que adorava sexo. Viemos para minha casa. Tiramos a roupa sem nos beijarmos. Me preparei para das início a minha rotina. Deitada de costas, as pernas apoiadas no assento do sofá, ela avisou que não gostava de oral. Evitei tocar seu corpo. A quinze centímetros de sua barriga, movi minha cabeça para frente e para trás escutando uma espécie de ronco quando minhas orelhas se alinhavam às coxas longuíssimas que formavam um vale sobre o púbis cor de argila. Ela não mexeu um músculo durante o procedimento. Depois de meia hora de função, levantei e juntei minhas roupas. Ela tinha ido embora quando saí do banheiro. Na escola, continuamos a trocar bons-dias como antes.
DIA CINCO
Cada caneta dura dois cadernos e meio.
Li um romance em que um personagem registra no papel confissões para o filho de quem havia se separado por alguma razão. O único bloco que ele tinha acaba, e o sujeito começa a escrever no espaço entre as linhas, depois nos espaços entre as entrelinhas, até que as palavras se espremem tanto que cada página vira um grande borrão ilegível. Não terei esse problema; guardei muitos cadernos em branco. Só não sei o que vou fazer com eles no final. Não escrevo para ninguém em particular, nem teria para quem. Escrevo para mim mesmo. Quem sabe eu não ponha fogo em tudo quando terminar.
DIA SEIS
Bebo água. Dizem que beber água faz bem. Tomo meio copo por dia.
Não gosto de álcool. Até bebia uma cerveja ou outra, mais para acompanhar os outros. Como na passagem do ano de 1959. O ônibus para Ubatuba parou por causa de uma barreira provocada pela chuva. Faltava pouco para a meia-noite e o tráfego seguia devagar na estradinha recém-pavimentada com pedriscos e um pouco de betume. Fazia muito calor lá dentro, as janelas estavam fechadas e embaçadas. Vi as luzes de um posto de gasolina, pedi para o motorista abrir a porta e voltei com duas garrafas de vinho da única marca que havia. Andei até o fim do corredor, passando por meu assento, e me acomodei entre três moreninhas que faziam a maior algazarra no banco que tomava todo o fundo. Bebemos, nos beijamos, babamos o vinho uns nos outros. Foi o melhor réveillon da minha vida. Saltei prometendo encontrá-las na tarde seguinte em certo quiosque de determinada praia. Nunca apareci por lá.
DIA SETE
Penso no tempo em que acampava. Do que mais me lembro é limpar os pentelhos que ficavam no chão de plástico.
Emi me convidou para acampar na praia. Fui porque não tinha nenhum programa melhor. A nissei era uma amiga de faculdade nada atraente: pequena, magra, sem curvas. Usava óculos e cultivava, sem se dar conta, um discreto buço sobre o lábio superior. Montei a barraca minúscula dela em Toque-Toque Pequeno. Na primeira noite, Emi roçou o pé no meu, como quem se vira durante o sono. Também fingindo que dormia, manobrei até tomar posição atrás dela. Se era para transar, eu precisava de um prêmio, e ainda evitava encarar aquele esboço de bigode. Ela soltou um longo suspiro, afastou a bunda seca da minha mão e se enfiou no saco de dormir. Passamos o resto do fim de semana sem encostar um no outro.
Despejo a sopa e o sorvete na pia. Levo para fora o saco de lixo com as embalagens vazias.
DIA OITO
Fui professor por quase trinta anos. A escola é um lugar muito bom para encontrar mulheres. Conheci várias alunas precoces para a idade, professoras no fogo da juventude, uma auxiliar de ensino que ria para dentro, duas auxiliares de limpeza, uma diretora sisuda, outra brincalhona. Apresentei umas coisinhas para umas, apontei caminhos para outras. Nenhuma delas me ensinou nada.
Sei que uma pessoa que passou dos setenta deve beber cerca de três litros de água por dia. E quem tem mais de oitenta?
Escrevo recostado na cama. Os cadernos empilhados à minha esquerda são aqueles que já preenchi; os novos ficam do lado direito. Preciso pedir mais canetas.
Para pensar em sexo sem sentir o engulho preciso revirar a memória antiga. Lembro a vez em que tive um orgasmo sozinho sem me tocar. Foi numa tarde durante a semana. Eu estava de folga, ou coisa assim, à beira da piscina do clube. Comecei a pensar em mulheres, na visão, no gosto e no cheiro delas. Me concentrei a ponto de sentir que flutuava. Como se tivesse bêbado ou drogado. Foi uma libertação.
DIA NOVE
Namorei Madá, fui noivo de Dália. Tudo foi bom durante um tempo, depois azedou. Fim das duas histórias.
Tomo um susto quando passo em frente ao espelho do banheiro. Aquele rosto encovado, o olhar sem brilho, as mãos de veias azuis sou eu?
DIA DEZ
Quanto tempo alguém aguenta ficar sem sexo? E sem comer?
DIA ONZE
Chegou a caixa de esferográficas que encomendei. Paulo deixou no chão ao lado dos sacos de papel habituais. Acho que agora meus dois estoques estão equilibrados. Também percebo que estou escrevendo mais devagar. É certo que vai sobrar material.
Num caderno novo, registro meu encontro com Robby. Robéria era de João Pessoa, onde dava aulas de lambada, e estava no Recife para o carnaval. Pediu para cheirar meu lenço embebido em lança-perfume. Eu não podia levá-la para onde eu tinha deixado a mochila. Havia tanta gente no apartamento alugado que fazíamos rodízio nos colchonetes e redes; uns dormiam de tarde, outros de manhã. Ela estava com duas amigas numa pensão. Meu dinheiro contado deu para pagar um quarto por uma noite. Ela disse que queria tomar banho primeiro. Pelo vidro fosco, observei a mancha de seu corpo sob o chuveiro. A cor de caramelo queimado era interrompida pelas marcas claras desenhadas pelo biquíni. Estranhei a parte de baixo: a sombra não era escura como devia ser. Ela saiu enrolada na toalha e não resisti de curioso. Dei um puxão que revelou um bosque de pelos loiros e falsos. “Mas por que tatuados?”, questionei. “Cansei de ficar tingindo”, me devolveu com um sorriso de quarenta dentes. Eu disse que ia buscar cerveja na vendinha do lado. Vesti a roupa, bati a porta e fui embora.
DIA DOZE
Quanto tempo alguém ainda pode viver depois que o sexo acaba?
Parei de tomar água.
DIA TREZE
Madá já morreu. Não tenho notícia de Dália; também deve ter morrido.
O cheiro da sopa me enjoa enquanto derramo o conteúdo do pote na pia da cozinha. O sorvete escorre pelo ralo sem problema.
DIA QUATORZE
Outro arrepio vem com a memória dos fracassos em sequência. O gozo potente que me elevava às nuvens, ainda que por um momento, cessou de uma hora para outra. Em vez do cume, a planície. Do vigor ao torpor, sem escalas. Fui a médicos, fiz tratamentos, experimentei estimulantes de todos os tipos e preços. Até que desisti. Me sinto vazio.
O interfone toca. Não me mexo. Dez minutos depois, toca de novo. Na terceira vez, levo o fone ao ouvido sem falar. O síndico, cujo nome esqueci, solta um pigarro e pergunta se está tudo bem. “Não poderia estar melhor”, respondo, e acrescento: “No limiar de novas descobertas”. Ele não sabe do que estou falando, mas responde “Ainda bem” e desiste de bisbilhotar mais.
DIA DOZE
No fim do dia, penso que escrevi pouco hoje. Esqueci de apanhar os sacos de papel no hall externo. Levanto de madrugada para fazer isso.
DIA TREZE
Minhas primas vieram de visita. Assim que saíram, recebi tia Ercília, que me trouxe um baralho de presente.
Volto a escrever de forma acelerada. Só hoje esgoto dois cadernos.
DIA DEZENOVE
Tenho a impressão de ter cruzado com a loira Virna no corredor em algum momento durante a tarde. Com as roupas manchadas de vinho, as três meninas do ônibus de Ubatuba me acenaram do sofá da sala. Esperei acordado até ver Emi, a japonesa de bigodes, e a forrozeira Robby passarem de mãos dadas a caminho do banheiro.
DIA VINTE
Madá e Dália me aparecem em sonho. Estão muito magras. Madá tem o rosto coberto por um véu. Dália me faz abrir a mão e deposita nela um passarinho. Pelo contato, percebo que o corpo frágil ainda está quente.
