Nem sete horas de um sábado. Para a Turma do Riacho descer a rua às pressas, boa coisa não é. Esses garotos endiabrados ganharam fama após arrebentar o cadeado da carrocinha e causar a fuga de vira-latas pelo bairro. Mexem com alunas do externato, soltam rãs dentro de estabelecimentos comerciais, atiram balões com urina nos bondes, entre outras estripulias. Levam esse nome porque jogam futebol atrás da fábrica de garrafas térmicas, às margens do córrego. Há quem diga que chutam de propósito nas vidraças das casas. Nessa manhã, porém, nenhum deles carrega uma bola ao passar pelo afiador de facas e tesouras, que aciona sua roda com um pedal ao mesmo tempo em que toca uma gaitinha.
Ô, devagar, molecada do capeta.
São quatro sardentos entre treze e quinze anos, usando calças jeans e camisas de manga curta, com estampas coloridas, para parecerem mais velhos. Quem não exibe um cabelo escovinha exagera no gel para moldar o topetão. Jorge “Vareta”, o mais cumprido, abre caminho entre os homens de chapéu e terno que aguardam o elétrico no ponto. Logo atrás, Francesco, o “Mazzola”, até puxa na roupa do amigo magrelo, na tentativa de acompanhar suas passadas largas. Mais confortáveis à rabeira, estão o gordinho Tibério, vulgo “Zóio”, e Adriano, o menor de todos, chamado de “Dentinho”. O primeiro procura não derrubar os óculos trotando com uma das mãos no rosto. O segundo arreganha a boca, cansado, evidenciando o par de incisivos equinos.
No dia anterior, Túlio, o “Rato”, líder não-declarado do bando, fez uma aposta com Adalberto “Carimbo” na esquina do tótem. Bem ali, dois operários haviam descido de um caminhão da Prefeitura. Traziam ferramentas de soldagem e mexeram no bueiro que fica no centro do cruzamento. Iam ver “um negócio da água”, explicaram aos curiosos. Os garotos sempre sonharam conhecer as galerias subterrâneas e até já se juntaram, mais de uma vez, para levantar o disco de aço. Mas aquilo pesa uns setenta quilos. Ainda levou décadas sendo amassetado ao chão pelo peso dos veículos. Nem se moveu. Ao estudar o trabalho dos homens, Rato teve sua epifania diária. Entraria lá ou correria nu, da barbearia do Seu Evaristo até o campinho, no horário da saída das meninas da escola.
‘Ma será o benedito? Attenzione!
O quarteto cruza voando a entrada do armazém do Seu Lucchesi, pai do Rato, e quase derruba um caminhoneiro que retira da caçamba a remessa de leite fresquinho. Em seguida, eles atravessam a rua sem olhar o movimento e forçam o japonês da tinturaria a frear sua perua, derrubando roupas dos cabideiros. Do outro lado, o vendedor ambulante de vassouras gira um rodo no alto para espantar os arruaceiros e impedir que destruam as peças que carrega. Nenhum dos adultos consegue emitir um impropério a tempo de alcançar os ouvidos dos meninos, velozes demais. A catraca do bijouzeiro por pouco não os distrai o suficiente para por fim à correria. De modo algum. Todos querem ver o Rato conquistar o subsolo para o grupo. Ou zombar do seu trazeiro branco na fuça das mocinhas católicas.
Perderam, cambada! O Rato entrou.
Na esquina do tótem, Carimbo mastiga um palito de dente de um lado para o outro da boca e gira uma lanterna no ar. Suas mãos estão pretas de fuligem. Um lado do pescoço e da testa também se sujaram, com certeza quando limpou o suor, aparente também no sovaco e nas costas. O bueiro respira, destampado. Ao redor, há duas barras de ferro, dessas de alçar toldo de loja. Um único cavalete de madeira faz a proteção, sem sinalização alguma. Mas nem aparece carro a essa hora da manhã, não no fim de semana. Mazzola caminha devagar para bisbilhotar o buraco, seguido pelos demais.
Mas já? Podia esperar a gente.
Faz uns dez minutos. Acho eu.
Como assim? Pensei que estavam juntos?
Abrimos o bueiro juntos, sim. Com uns ferros lá do armazém do pai dele.
Muito difícil?
Moleza. Sorte não ser só osso que nem o Dentinho.
Carimbo ri da própria piada e balança o amigo mirrado pelos ombros. Forte como um boi, o rapazola com pelagem fina no buço e pecha de briguento aparenta já ter idade para entrar em casa de tolerância. O apelido vem da infância. Na época, Carimbinho. Porque o pai tem cartório. Mas ele diz que é por deixar a marca do punho fechado no rosto de quem se meter a besta. Dentinho some ao seu lado. Sempre calado, apenas fita o chão e estala os dedos fininhos, um por um. Seu codinome se deve pela dentição proeminente, igual ao personagem homônimo do gibi, o amigo do Recruta Zero.
Que cheiro de ovo podre.
É gás, Vareta.
Ah, essa não. Vamos dar o fora.
Ih, vai se borrar, é?
Vareta se mantém fora da rodinha de garotos em torno do bueiro. O que acumulou de altura deixou para trás em coragem. Por isso o batismo informal. Começou com alguém dizendo que ele tremia “feito vara verde”. Chamaram de Vara, mas Mazzola popularizou o diminutivo, soou melhor. Já este herdou o apelido do célebre atacante, campeão do mundo em 58 pelo Brasil, que vai defender a Itália, na Copa do Chile. A turma toda tem um pezinho na Bota, por antepassados próximos ou nem tanto. Mas Francesco é o único com nomenclatura italiana genuína. Ainda por cima, é palestrino. Talvez tenha inventado a própria alcunha sem que os amigos percebessem.
Ninguém sai. Vamos largar o Rato aí?
Tá bom, tá bom. Mas e essa história de gás, Carimbo?
Então, ontem, os negros mexerem no tótem. Disseram que era por segurança. Depois de abrir o bueiro, fui dar uma olhada. Mas não entendi o funcionamento.
É gás sulfídrico. Aquilo é um tótem de respiro.
Zóio sempre foi estudante nota dez. Nos exames, Vareta e Mazzola, colegas da sala, ficam ao seu lado, insistindo para que sopre as respostas. Como quer garantir o posto no time do córrego, ele cede. Em segredo, porém, anota errado no pedaço de papel duas ou três contas de matemática ou inventa na hora o nome de uma figura histórica. Só para manter seu boletim em um patamar inigualável. O nome não tem mistério. As lentes grossas o perseguem. Do meio da rua, ele segura a armação na ponta do nariz e calibra a visão na tampa do bueiro redondo. De um círculo interno, onde se lê “ESGOTO”, saem linhas, como raios de sol. E nos vãos entre elas estão as siglas “D.A.E.” e “SP”. Já o tótem poderia ser confundido com um farolete ou um hidrante maior, uma torre pintada de verde, com detalhes em branco e a sigla “R.A.E”.
É a degradação das bactérias na matéria orgânica.
Cacete, Zóio. Finge que você é desse planeta.
São nossas… fezes.
Cocô explode?
Se ficar assim, fechado, por muito tempo…
Tá, mas e o Rato, Carimbo?
Ele entrou, ué?
E você não foi atrás?
A gente abriu, sentiu esse fedor, eu fui até o tótem e, quando olhei, ele tinha descido. Nem levou a lanterna.
Os cinco amigos trocam olhares, buscando soluções e só encontrando mais dúvidas. Em um impulso coletivo, todos começam a gritar por Rato na entrada do bueiro, que Carimbo tenta iluminar. Mazzola pede silêncio. Por um instante, escutam algo. Não, somente o eco de suas vozes.
Tem perigo de sair morcego daí, não?
Que morcego o quê, Zóio. E esse gás fedido?
Olha, se os trabalhadores liberaram o respiro ontem, acho que tudo bem.
Então, entra lá.
Eu não. Entra você.
Nem pensar. Carimbo, vai você.
Ah, sou grande, vou entalar nessa porcaria.
Vareta?
Quê? De jeito nenhum. E o Dentinho?
Eu?
É, não tem desculpa. Você é uma finura.
Eu…
Alguém tem que ir. Antes de aparecer bisbilhoteiro.
Gente…
Carimbo aponta o nariz na direção do tótem. Da esquina, assiste a tudo um menino de calças curtas bege e camiseta azul claro com gola polo abotoada. Bola de capotão lisinha debaixo do braço. Botinas ortopédicas gigantescas. Penteado de tal forma ordenada que só seria viável se uma vaca leiteira tivesse gastado horas lambendo sua cabeça. Tem uns dez anos. Talvez seja mais velho, mas a expressão pasma, de alguém que vê pela primeira vez o mar ou um eclipse, acaba por infantilizá-lo. Mazzola segura uma das barras de ferro com as mãos. Vareta o imita com a outra barra.
E esse, quem é?
Já vi no campinho uma vez. Mas nem conheço
Não é amigo seu, Dentinho?
Meu?
É, da sua escola. Não andam juntos?
Os meninos olham para Zóio e, depois, focam em Dentinho. Sim, eles se conhecem. Suas famílias se conhecem, há anos. Chama-se Miguel, filho de um dos sócios da fábrica de garrafas térmicas. Um dia, ele vai herdar todo aquele chão em volta do córrego e do campinho, cuidar da fortuna inteira da família, ser um homem poderoso. Mas, ainda é apenas uma criança. Dentinho e ele estudam no mesmo lugar, uma escola diferente da dos outros, maior, um pouco mais afastada, o bastante para não irem a pé. Todo dia, seu pai o leva de carro e dá carona ao filho do amigo. Ao menos uma vez por semana, suas mães tomam chá juntas e papeiam na varanda de casa. Na última vez, os pais o questionaram, na frente da visita, por nunca chamar o amiguinho para jogar futebol.
Ele é meio estranho.
Estranho como, Dentinho?
Ah, às vezes, conversa com os pensamentos.
Os cinco se calam, observando o intruso. Aguardam que ele comece a falar sozinho, ansiosos por ver um doido em ação, testemunhar a luta com os demônios internos. Até se esquecem do companheiro no bueiro e sua jornada ao centro da Terra. Um primeiro automóvel, com um barbudo de cabelo crespo ao volante, corta a cena sem reparar nos meninos que desejam se tornar homens antes da hora. Mazzola solta a barra de ferro no chão.
Chama ele pra cá.
Eu?
É, Dentinho, não é seu amigo?
Meu?
Ei, menino, vem cá, rápido.
Miguel abre o sorriso e, correndo desengonçado, vai ao encontro deles. Para diante de Dentinho, abraçado à bola, movendo os pés em uma dança sem música.
Oi, Adriano. Vocês vão jogar hoje?
Não.
Ganhei uma bola da mamãe. Se quiser, empresto.
Não é cedo pra ficar na rua, Miguel?
Falei pra Maria que ia com você e ela me deixou sair.
E aí, A-dri-a-no? Apresenta a gente pro seu amiguinho.
Após um olhar frio para o italiano, Dentinho apresenta o grupo se abstendo de apelidos. Francesco, Adalberto, Jorge e Tibério. Miguel acha o último nome engraçado e todos gargalham, com exceção de Zóio. Mazzola se aproxima do novato.
Quer brincar com a gente, Miguel?
Brincar de quê?
Esconde-esconde.
Bacana. Eu gosto.
Esse é diferente. Tem um labirinto.
Dentinho se antecipa, corta o amigo, tira a bola da mão de Miguel e se afasta do bueiro fazendo embaixadinhas.
Bola de respeito, Miguel. Vamos testar no campinho?
Esquece isso, Dentinho. Ele é nosso amigo agora, não é, Miguel? Topa um desafio?
Claro.
Vou te explicar. Nosso amigo Rato se escondeu nesse buraco. Você só precisa descer e descobrir onde ele se meteu, entendeu?
Acho que sim. Não é perigoso?
Zóio, você que é gênio, fala pra ele. Tem perigo?
Não, não. Mas pega esse lenço. Assim, você cobre a boca e o nariz, por causa do odor.
Igual caubói?
Isso. E leva a lanterna. Carimbo, dá pra ele. Você sabe usar, Miguel?
Sei. Meu pai tem uma. A gente já acampou no quintal da fábrica.
Tá, amiguinho. Vou gritar seu nome aqui de cima. Fica atento. Assim você também não se perde. Não é, Dentinho? O Adriano é seu amigo. Se ele diz pra você confiar, você confia?
Confio, óbvio.
Mazzola dá a deixa a Dentinho. Este tranca a mandíbula com força, serrando os lábios no fio dos dentões. Ele busca saliva, mas a garganta está seca. Abraça os ombros e finca as unhas na carne. Olha para Mazzola, Carimbo, Vareta e Zóio. Enfim, relaxa a cervical e coloca uma das mãos no ombro de Miguel.
Presta atenção na minha voz, tá?
Tá bom. Cuida da bola?
Zóio dá um nó no lenço e cobre metade do rosto de Miguel. Os demais apertam a mão do menino antes que ele olhe dentro do bueiro. Escolhe se sentar na rua e largar as pernas no interior, apoiando-se no primeiro gancho da escada. Não tarda a iniciar a descida, acendendo a lanterna. Mal a cabeça some na passagem, um segundo automóvel aparece, diminuindo a velocidade. O casal não se detém, mas fica de olho no movimento inusitado.
Cheguei numa salinha. Caminhos pra todo lado.
Escolhe um e vai chamando por ele.
Muito calor aqui. Mas escuto barulho de água.
Na superfície, nenhum dos meninos sorri. Também evitam se olhar. Os primeiros gritos de Miguel ainda são bem audíveis. Rato. Raaato. Raaatooo. Aos poucos, o som começa a se dissipar. Dentinho se ajoelha na borda e começa a soltar a voz como nunca em sua vida. Miguel. Aqui, Miguel. Miiiguel. Aqui, miiigueeel. Os outros se aproximam e fazem um coro. De vez em quando, se aquietam para captar um sinal do desbravador. Uma linha-guia, igual no labirinto do Minotauro. Podia ter emprestado um novelo de lã da mãe. Muito mais eficaz do que essa gritaria. Aqui, Miguel. Migueeel. Migueeeaaaeee. Aquiii. Pausa. Silêncio. E eles repetem o refrão.
Moradores tartarugam das janelas de suas casas. Um senhor com uma baguete segura o passo na esquina do tótem. Um grupo de meninas com bambolês seguram o riso e o ritmo para entender o contexto. O barbeiro Evaristo sai à rua ainda com a tesoura na mão, acompanhado de um cliente coberto por um pano. E mais gente, outros veículos, tudo parado. Conforme a notícia se espalha, o burburinho cresce. Seu Lucchesi do armazém também chega, perguntando do filho a qualquer um. Começa um corre-corre sem direção. Há crianças perdidas sob o pé de todos.
Esses moleques já me tacaram xixi. Ih, conheço de longe os degenerados, assustam minhas clientes com sapos. Devia é prender todos por vadiagem. Aliás, cadê a polícia? Por que ninguém chama os bombeiros? Como os pais foram capazes de tamanho descuido? A culpa é do Departamento de Águas e Esgotos. Não, senhora, isso vem dos tempos da antiga Repartição de Águas e Esgotos. Ah, se o Ademar de Barros for eleito… Esse ano é Jânio Quadros na cabeça. Pro diabo com esse Carvalho Pinto.
Uma viatura da Civil, enfim, estaciona e dois guardinhas descem questionando quem olha torto. Não demora e mais uma viatura aparece, agora da Força Pública. Com cacetetes nas mãos, outros dois homens abrem caminho no meio do povo. E quando as duplas de uniformes rivais se esbarram, a discussão passa a ser a qual insígnia pertence esse canto da cidade. Porque o patrulhamento obedece a uma determinada estrutura hierárquica. Há uma jurisdição e ela deve ser respeitada. É um tal de investigador Fontes citando inspetor chefe superintendente de um lado, um cabo Benício mencionando tenente coronel do outro. E, de novo, as eleições estaduais entram na discussão. Ninguém se lembra dos meninos, ninguém grita por Rato ou por Miguel há quinze minutos.
Até o afiador de facas, que largou o instrumento de trabalho em outra esquina, oferecer sua potente gaita. Uma versão local do Flautista de Hamelin na busca por um menino conhecido por Rato. A multidão se cala enquanto o homem arranca da bichinha um toque agudo sofrido, longo, infinito, penetrando pela tubulação e percorrendo o bairro em suas entranhas. A apresentação solo se torna um dueto quando o bijouzeiro se aproxima com a catraca de madeira e ferro. Lançam um jazz bizarro para dentro do esgoto e atingem, pelas bocas-de-lobo, pedestres desavisados a quilômetros de distância. A plateia acompanha a sinfonia operária sem entender direito o propósito daquilo. Deixam a emergência e o desespero para trás e desfrutam do espetáculo, quase aplaudem no fim do ato. Alguém comenta que faltou cuíca, o transe desaba e o reboliço retorna.
Francesco! O meu filho, dov’è?
Sei não, Seu Lucchesi. O Rato… quer dizer, o Túlio sumiu no buraco.
O velho italiano odeia o apelido do filho. No tempo da guerra, quando também era comparado a um roedor pelos vizinhos, mesmo desprezando Mussolini e tendo nascido no sul do Brasil, de onde se mudou ainda jovem. Na verdade, ninguém da Turma do Riacho sabe de onde surgiu a história de Rato. O rapaz já levava essa etiqueta quando começaram a andar juntos. Túlio era o mais velho, o de porte atlético, o que tocava violão, que tinha as melhores ideias para quebrar a rotina, aquele a quem as meninas do externato devolviam o olhar galante, melhor ainda, o único que podia se gabar de já ter beijado na boca, com língua e tudo. Ninguém contestava sua liderança, nem Mazzola.
Ma come? E esse Miguel que tão chamando?
Um outro menino, tio. Amigo do Adriano. Fala pra ele, Dentinho.
Sim, o Miguel… Ele desceu também… Foi atrás do Rato e…
Os dentões do moleque quase saltam de sua boca quando ele desanda a chorar, soluçando palavras incompreensíveis e só parando quando a mão de Rato pesa em seu ombro.
Que bagunça é essa?
Túlio, meu filho. Che catzo você aprontou dessa vez?
Rato, você saiu?
Saí de onde, Mazzola?
Do bueiro, cacete.
Endoidou?
Mas o Carimbo te viu entrar.
Claro que não. A gente abriu, veio um baita cheiro de gás e cada um deu pinote pra um lado.
Eu só fui mexer do tótem de espirro.
Respiro. Tótem de respiro.
E… E… E o Miguel?
Dentinho é só lágrimas. Tanto os guardinhas da Civil como os soldados da FP cercam o grupo, sem conseguir afastar os moradores do olho do furacão. Cabo Benício está decidido a levar Rato ao batalhão. Mas o investigador Fontes puxa o menino para si. Seu Lucchesi brande algo em italiano. Confusão instalada, uma caminhonetinha pede passagem com a buzina e interrompe o cabo-de-guerra. Dela descem o padeiro Cesário e um negro grandalhão de regata branca suada.
Calma. Meu amigo Feijão aqui vai dar um jeito.
E quem é o indivíduo?
Então, cabo, ele é empregado da D.A.E.. Fui buscá-lo na casa dele.
Cesário me arrancou de um churrasco dos bons lá na favela, seu polícia. Mas o que precisa ser feito a gente faz.
Com os calos da palma da mão barrando a concentração de pessoas, o trabalhador consegue abrir espaço. Gente demais amontoada, deve estar tão quente aqui em cima quanto lá embaixo. Ele veste uma jaqueta pesada com a sigla da companhia de esgotos, usa uma máscara sobre o nariz e a boca e coloca uns óculos enormes. Pisa sobre a tampa de aço ali de lado, se agacha para conferir as barras de ferro dos meninos e balança a cabeça, inconformado. Antes de descer, pergunta o nome da criança. Zóio responde, pois Dentinho segue engolindo o chororô. Lá vai o Feijão salvar o dia.
Sem serventia, os representantes da lei e da ordem voltam a discutir policiamento. Cada um quer levar o grupo de garotos para uma viatura. Do formigueiro humano, uma voz chega a sugerir a divisão dos réus, uns para lá, outros para cá. Mas chega um homem de óculos escuros e terno cinza claro, grisalho só acima das orelhas pontudas, um bigode pintado de preto. Sua presença basta para acalmar os ânimos. Ele puxa guardas e soldados para perto de um poste de luz. Parece ouvir o que cada um tem a dizer. Depois é sua vez de falar, enquanto os demais apenas confirmam com a cabeça, mãos na cintura. Em seguida, os dois times uniformizados seguem em direções opostas, dando ordens para o público recuar. O homem de terno permanece distante, observando Dentinho, seu filho, enxugar os olhos.
A chegada de um casal bem arrumado como se viesse direto da missa provoca outro pequeno alvoroço. Eles passam pelos policiais e o marido precisa abraçar a esposa por trás para que ela não mergulhe, aos prantos, dentro do bueiro. São os pais de Miguel. Quem vai ao encontro deles é o pai de Dentinho, calmo, falando baixo, envolvendo as mãos da mulher com as suas. Seja lá o que ele diz, consegue deixá-los um pouco menos agitados. Seu Lucchesi também vai ter com eles, depois Seu Evaristo, que furou o cerco. Por último, Cesário, explicando qualquer coisa a ver com a participação de Feijão.
Mas então foi esse negro que largou o bueiro destampado ontem?
Não, senhor. Feijão é dos bons. Meninos fazendo molecagem, sabe como é.
Sob o olhar inquisitório dos adultos, a Turma do Riacho olha para baixo, vai se apequenando, carcomida pelos próprios umbigos até se ocultarem no lado avesso. Apenas Rato não abandona seu papel de irmão mais velho, procurando passar serenidade e envolvendo Dentinho em um meio-abraço, de ladinho. Do bafafá das arquibancadas, são jogados palpites de como deveria ser o procedimento de socorro. Uma senhora fala em chamar um pelotão do Exército para varrer as galerias. Outra sugere abrir buracos por todo o bairro com tratores. Um facho de luz surge de dentro do bueiro. É Feijão.
Acode aqui. Rápido.
O padeiro e um dos guardas se antecipam até o buraco. O segundo enfia os braços e começa a puxar algo. Atrás da barreira de pernas, é impossível saber se Miguel está consciente ou desacordado, vivo ou morto. Está molenga, isso é certo. A mãe dele não sabe se ri ou se chora. Os garotos se achegam lentamente. O corpinho foi deitado no chão. Há um doutor, avisa o cabo Benício, mostrando um homem com a mão levantada, camiseta azul da CBD, calção esporte e goma no cabelo. Ele se junta ao socorro assim que a vítima vomita, intercalando com um berreiro engasgado. Ele esfrega os olhos vermelhos, mas é contido pelo médico, que pega o coitado no colo. Pais, guardas e até Seu Evaristo o seguem.
Cesário cumprimenta Feijão e promete levá-lo de volta para o churrasco. Antes, o bueiro precisa ser fechado. O pai de Dentinho vai até os meninos e somente revela os olhos por baixo das lentes para o filho acompanhá-lo. Sem tempo para despedidas. Rato já recolhe as barras de ferro do chão, sob vigilância de Seu Lucchesi. Os outros tomam rumos diferentes, misturando-se às pessoas, que se afastam do epicentro da confusão. No caminho para casa, Adriano ouve o sermão.
Depois dessa, rapaz, sua mãe não te livra do colégio militar. Ela diz que você é sensível demais pra farda. Quero ver pensar assim agora que você quase matou o filho esquisito dos Junqueira.
O Miguel vai ficar bem?
Não importa. Quem desceu no esgoto foi ele, mas é você que vai entrar pelo cano.
