Boa noite, moça. Boa noite, moço.

Boa noite, moça. Boa noite, moço. (de Carol Schettini)

O cronômetro gira. Um segundo, dois segundos, segundos rápidos. Começa a contagem do tempo. A última escola começa a desfilar na avenida. É dia. O céu espuma com nuvens ondulando como ondas no mar. Patrick se olha o relógio, estica o corpo. Desce do segundo andar do camarote para a frisa. Pela sua experiência, sabe: assim que a última ala passar, abrirão a portinhola e todo mundo, todo mundo pode sambar atrás da escola. Fechar um desfile é o sonho de todo folião. Enquanto espera, Patrick enxerga Jandira do outro lado. Entre os dois, há, pelo menos, vinte pessoas bêbadas, algumas sambam, algumas fingem estar em pé, quando, na verdade, estão em outro compasso.

Ele faz gestos para ela, com os braços aponta: “você não vai, vai? Vai?”. Ele sorri, um sorriso solto misturado a cerveja, cachaça, pagode. Jandira não responde. Nem por gestos nem por palavras. 

Naquele dia, ele me mostrou. Lembro bem. Ele estava trabalhando na alegoria de São Sebastião. “A flecha vai solta”. “Solta?””É. Pra gente aproveitar depois, pode botar bagulho dentro. Se colar agora, estraga”. “Todas três?” “Ó, vem ver”. “E se cair no desfile?””Se cair, alguém mata.” 

Jandira vence a distância e fica em pé na frente de Patrick. Uma mesa alta, um aparador de copos, separa os dois.

— O que foi? — ele diz.

— Foi nada.

— Passou a noite no stalk. Me erra.

— Te erra? Te erra? Te erra! — ela grita.

— Pode comigo não, bagaça. Você é puta. Puta do morro.

Jandira apoia a mão com tanta força no compensado da mesinha a ponto de balançar. 

— Olha aí, piranha, todo mundo tá vendo seu tipo. A arquibancada, os passistas, o carnaval inteiro. Olha pra mim! Sou dono do morro. Quer encarar? Me garanto! Olha pra mim!

Patrick está sem blusa, roda a camisa ao alto. Bate as mãos na sua barriga chapada, um som forte e oco ecoa apesar do som alto da bateria. Faz dos seus músculos um instrumento de percussão particular. 

As baianas desfilam. Usam roupas coloridas, na cabeça alegorias em formatos de pombas. Paz para elas. Ali, na frisa, uma guerra. Patrick bebe um copo de cerveja em uma golada só, joga o resto para frente, acertando um pouco do líquido no corpo de Jandira.

— Cai fora, garota. Tô na pista. Amarrar minha vida em você é dia de são nunca. Não adianta vir de vermelho, pomba gira. Pra mim não passa de uma puta, tá ligado?

Ele samba de um lado para o outro, faz firulas, comemora. 

— Vou atrás da escola. Quer vir? Venha! Vem atrás de mim. Já perdeu. Te falei: você é puta. Puta da comunidade. Te como lá. Me erra do lado de fora.

No desfile, era pra eu ter ficado em cima, ao lado de São Jorge. A moça não quis ficar embaixo e pegou meu lugar. Tudo bem. O lugar não era meu mesmo. Era da outra. Da dona da fantasia que eu costurei (ontem) e roubei (hoje) pra mim. Se soubesse que iria desfilar com a fantasia dela, teria costurado paetês azuis e brancos no meio desta roupa cor de sangue. São Jorge lá em cima, me perdeu. Fui colocada aqui embaixo, ao lado de São Sebastião. Meu amigo estátua esburacado. Somos dois esburacados. Posso jurar que ele piscou e fez sinal para a flecha solta. Antes de descer puxei e ela facilmente se soltou. Do corpo do santo pra minha mão foi vaselinamente. Ninguém reparou em mim. Ninguém repara em Iansã levando uma flecha para Oxóssi. Antes de entrar de volta no camarote, guardei a flecha em pé, junto à entrada da avenida. Amarrei com um arame retirado da minha fantasia. Não foi premeditado. Foi o santo quem mandou.

Jandira não responde. Muitos desfiles, muitos ensaios a prepararam para a apoteose. Patrick pisca para ela, sacode os ombros, faz uma reverência.

— Boa noite, moça.

Ele diz, jogando um beijo para o ar. O segurança abre a portinhola da frisa que leva à avenida. 

Em poucos minutos, todos saem sambando atrás da última escola. O samba-enredo preenche os espaços vazios. Não há ar. Há notas musicais. Patrick sai de costas, dançando de frente para Jandira, ergue os braços, balança, as duas mãos na frente como se segurasse um chocalho invisível. Ela o segue em passos firmes e contidos. Pisa cada passo como se calculasse o milímetro em que seu pé poderia tocar o chão. Uma gata na cerca elétrica. Patrick bate as mãos uma na outra, mexe os lábios e, sem som, repete: puta!, puta!, puta!. Ele lhe dá as costas e brinca com um folião, com outro, pega a bandeira de um, sacode, devolve, está passando o chapéu na frente de alguém.

Jandira segura a flecha que havia pegado da estátua de São Sebastião. A flecha solta indicada por Patrick. Está com os braços para baixo, colados ao corpo, marcha, um soldado. A flecha e seu seus músculos são uma coisa só.

Com a flecha em mão, segue por fora, mais rápida que Patrick que samba em passos lentos no meio da multidão. Agora não escolhe mais onde pisa, tem asas nos pés. Uma águia em direção a sua presa. Jandira dá uma boa distância de Patrick, sem o perder de vista. Mais à frente, vai para o meio da avenida, fica parada, esperando por ele.

Patrick a vê e o sorriso estampado no rosto, o descompromisso, se transmuda ao olhar para Jandira. Antes, sua pele era lisa, como um lençol no quartel esperando pela moeda do Oficial.  Agora, sua pele traz vincos de roupa embolada para passar. Jandira não é a puta pequena que levou um desaforo dentro da frisa. Jandira não é mais a puta do morro sem ninguém. Jandira está incorporada pela sua fantasia. Jandira é. 

As arquibancadas aplaudem e gritam: é campeã. É campeã. Patrick anda com os braços para baixo, para frente, a fim de abraçar Jandira. Um corpo de molusco. Mole. Jandira aguarda por ele. Entra nos seus braços, no aperto, na ostra e lança. Lança sua flecha. Uma flecha só. Com uma precisão divina, transpassa seu corpo, atingindo-lhe o coração, livrando-a de todo o seu mal. Amém.

— Boa noite, moço.

Jandira diz no ouvido de Patrick, dá um beijo em seu rosto e vira embalada pela multidão. 

Patrick não enverga de imediato, anda empurrado por um, colado em outro. Se ele caiu, não caiu, quando caiu, Jandira não sabe.

Ela continua em frente flutuando, seus pés agora caminham precisos, um bicho geográfico fazendo do asfalto sua pele. Do final da avenida, ela segue direto para a estação de metrô. Ninguém repara no sangue de Patrick respingado em sua fantasia, em seu corpo. Jandira limpa as mãos, espalha o sangue, do escuro ao claro, uma índia pintada. Ninguém nota. Em carnaval, todo vermelho é tinta. Todo grito é campeão. Todo choro é bebida. Todo pavor é cansaço.

Jandira desce na frente da praia. Na beira do mar, joga os braços para cima em saudação antes de entrar na água. Mergulha lavando o sangue, o orgulho, a vergonha. Jandira boia, ondulando, com os braços abertos nos braços de sua mãe.

Naquela avenida, fui filha de Oxóssi. Na vida, sou filha de Iemanjá.

Jandira fecha os olhos. Sente o sol e um pingo de chuva. Está em paz.

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