(Bruno Vicentini)
1.
Catarina e sua irmã, apesar de gêmeas monozigóticas, não se parecem. A mãe não esperava que de dentro de si, no dia do parto, sairiam duas crianças, e por isso mesmo só tinha concebido um único nome. As duas até pensaram em dividi-lo, pra solucionar o impasse, mas, por serem em tudo mais tão diferentes, não puderam executar o famoso truque em que uma se passa pela outra, como fazem os gêmeos monozigóticos, ainda que elas tenham, não raras vezes, tentado. Enganaram a própria mãe durante toda a gravidez, mas não puderam enganá-la depois, nem uma vez sequer, nem ela e nem mais ninguém.
2.
Distraída, a irmã de Catarina chega em casa sendo seguida por uma matilha de cães. É Catarina quem abre a porta e quem avisa, aos berros, que os cães seguem a irmã, sabe-se lá desde quando. As duas sentem uma profunda curiosidade de entender como aquilo tudo começou, mas não podem simplesmente perguntar aos cães. Também não poderia, a irmã de Catarina, voltar pelo mesmo caminho por onde veio, fazendo o trajeto invertido, porque agora elas estão dentro de casa, cercadas pelos cães, que, do lado de fora, abanam seus rabos.
3.
Na aula de natação, Catarina e sua irmã se apaixonam pelo professor. Três vezes por semana, as duas competem entre si pela atenção do homem, aplicando-se de maneira obsessiva aos exercícios que ele lhes propõe. As bolhas de ar que elas sopram embaixo d’água correm também pelas suas entranhas. O professor, em nome da sua ética rígida de professor, finge que nada percebe. As meninas nadam cada vez melhor. No final do ano vai ter um campeonato, Catarina e a irmã vão participar, competirão não apenas entre si, mas também com outras garotas das cidades vizinhas, no entanto, antes que o dia do campeonato chegue, o homem resolve ir pescar com os amigos, o barco vira e ele morre afogado.
4.
Catarina e sua irmã, no fundo, não gostam muito de viajar, mas gostam de dormir juntas numa mesma cama de hotel, algo que só acontece quando viajam. Deitadas lado a lado, numa mesma cama de hotel, que, por servir a ambas, não pertence, via de regra, a nenhuma das duas, fica muito mais fácil imaginar que a vida de uma e de outra é uma outra vida. Nessas situações, a irmã de Catarina gosta de pensar que é Catarina, sua irmã, deitada logo ali ao seu lado, mas do outro lado da cama. Catarina, por sua vez, gosta de pensar que é uma outra pessoa, alguém que, no fundo, gosta muito de viajar.
5.
A irmã de Catarina suspeita que Catarina carrega uma escuta telefônica, um microfoninho atado com fita preta junto ao peito, por sob o casaco de caxemira, que ela não tira nunca. No entanto, não tem a coragem necessária pra confrontar sua irmã acerca do assunto, nem tampouco pra lhe espiar as intimidades. Na dúvida, passa a manter silêncio sempre que está perto dela, com medo de dizer algo que possa ser mal compreendido por quem quer que as esteja ouvindo, ou então, o que é ainda pior, de dizer algo que, sendo compreendido perfeitamente bem, ainda assim pareça uma idiotice. Catarina interpreta o medo e o silêncio da irmã como sinais de uma verdadeira sabedoria, como se o tempo, em algum momento, tivesse começado a passar mais rápido pra uma delas.
6.
Catarina é acometida por uma gripe muito forte. Sua irmã é a única pessoa que não tem medo de se contaminar pela doença da irmã, pelos seus espalhafatosos espirros, pelo seu nariz incontinente. De resto, todo o mundo se afasta. As duas ficam sozinhas e dependem do auxílio uma da outra pra todos os afazeres. Com o tempo, Catarina acostuma-se à gripe, que não arrefece nunca, e passa a viver com ela muito bem, obrigada, enquanto sua irmã, por mais que tenha uma saúde de ferro, vive reclamando da falta de sorte de ter uma irmã sempre gripada, de espalhafatosos espirros, de nariz incontinente.
7.
Catarina e sua irmã gostam de passear pelas farmácias do bairro onde moram como se as farmácias fossem butiques da mais alta grife. Os atendentes do caixa e os farmacêuticos já as conhecem, e por isso sabem que são inofensivas e que o melhor é deixá-las fazer o seu trottoir em paz, por entre as estantes de comprimidos. As duas caminham devagar, fascinadas pelos analgésicos, pelas gôndolas de anti-inflamatórios, ataduras, curativos, laxantes, sais de fruta, admiram as embalagens, os rótulos coloridos, miram cada drágea como uma pedra preciosa. Por fim, saem de mãos vazias, tomam o rumo da próxima farmácia e, antes de entrar, reclamam do ar esnobe dos boticários, que as tratam sempre com tanta indiferença.
8.
Chega um convite pra um baile de máscaras, onde haverá, diz o convite, um impostor. Catarina e sua irmã ficam ansiosas pela noite do baile, não pela expectativa de haver dança, tampouco de haver bebida, porque o convite não menciona dança ou bebida, apenas um impostor. A impaciência das irmãs não vem da vontade de que uma das duas termine por desmascarar o impostor, como se poderia considerar, mas vem antes da chance, que só agora se apresenta, de que uma das duas afinal se passe pela outra – isso desde que nenhuma das duas seja, no final das contas, o impostor.
9.
Quando chega em casa, Catarina percebe que está sem a sua carteira. Assim que percebe que está sem a sua carteira, Catarina tem certeza de que a carteira, na verdade, lhe foi batida. Tão logo lhe sobrevém a certeza de que a carteira, na verdade, lhe foi batida, Catarina comunica o fato, como quem não quer nada, a sua irmã. Sua irmã, quando fica sabendo, como quem não quer nada, do destino perverso da carteira, começa, imediatamente, a chorar, como se a carteira, e não apenas a irmã, fosse sua.
10.
Catarina e sua irmã entram na roda de capoeira. O puxador, ao vê-las batendo palmas, acelera o toque e troca de canção, sendo acompanhado imediatamente pelos outros, os que formam a roda. Eu quero ver quem fica, eu quero ver quem sai. O capoeira puxa o canto como se o restante da roda não existisse, como se estivessem ali apenas ele, Catarina e sua irmã. Eu quero ver quem pula, eu quero ver quem cai. As duas se entreolham. Percebem que algo mudou na natureza do jogo. Eu quero ver quem vem, eu quero ver quem vai. O puxadorforça a voz, emula um timbre rouco, que não é o seu, à Paulo César Pinheiro. Eu quero ver quem honra, eu quero ver quem trai. As duas batem suas palminhas com vergonha, um tanto fora do ritmo. No centro da roda, os braços e pernas dos homens passam lotados como cometas. Eu quero ver quem nega, eu quero ver quem dá. O couro come nos atabaques. Um dos jogadores dispara o primeiro golpe que atinge o queixo do adversário, uma meia-lua inteira. Eu quero ver quem nunca, eu quero ver quem já. Catarina, enxergando ali uma oportunidade, puxa sua irmã pelo braço, as duas se abaixam e se dão as mãos, preparando-se pro aú e pra entrar, agora sim, de uma vez por todas na roda e no jogo.
