Como cair em um buraco

por Américo Paim

O bicho passou diante dele, parecendo olhá-lo como a um igual, e a sensação não foi boa. Jackson achou mesmo que o animal parou por instantes a encarar. Ele não estava preparado para aquilo. O mal-estar que veio o fez levantar-se e caminhar um pouco pela trilha do parque. Ocultou as mãos trêmulas nos bolsos da calça. Ficava assim quando inseguro. Andou e ouviu os estalos de seus sapatos pressionando as pedras pequeninas e restos de galhos. O vento já frio, mas ainda um resto de sol que não apenas iluminava. Se moveu um tempo com os olhos fechados, sentindo a brisa, se recompondo, a respiração lenta. O cachorro manco trouxe coisas antigas, nunca resolvidas. Também estava ansioso. O encontro seria a qualquer momento e não sabia o que esperar. Tinham se evitado nos últimos dias, desde o episódio. Como aquilo teria que ser esclarecido, estarem um diante do outro era irreversível. Tirou o pente do bolso traseiro da calça jeans e o passou devagar nos cabelos, sempre para trás. Algo que os diferenciava. Eram gêmeos muito parecidos, porém, o irmão sempre gostou do cabelo sobre a testa para o lado esquerdo. Dizia que ficava mais bonito. Jackson nunca acreditou. Era mesmo para esconder a cicatriz, aquela fenda fechada que os uniu para sempre. Voltou ao banco da praça. Manteve as mãos escondidas.

Protegido por árvores, Jockson observava o irmão à distância, há uns dez minutos. Sabia o que pensava seu gêmeo e como conduzir a conversa para bom termo. Enquanto fumava, olhou as rugas prematuras nas mãos. Estavam agora com trinta anos. A pele muito branca não ajudava a esconder. A saúde melhor que a aparência, o que era bom. Tudo era reflexo da tensão recente, nada que não contornasse. Amassou a bituca no chão e saiu em direção ao banco de praça.

– E aí, Rato, me esperou muito?

– Pare de me chamar desse nome, porra.

– Que humor… É assim que recebe seu irmão?

– Nem queria estar aqui.

– E perder esse fim de tarde?

– O que quer, velho?

– Ora, então vai ser sem arrodeio.

– É muita coragem sua vir até aqui.

– Por quê?

– Não me trate como idiota.

– Tá nervoso, Rato.

Sempre aquele apelido. Jackson se levantou de rompante e andou uns passos, esfregando as mãos com força. As imagens logo vieram. O parquinho da escola, a gangorra, os dois brincando, o escorrego, a queda, a tábua batendo com força e o sangue escorrendo na cabeça de Jockson e o corte na testa. Ele apenas sorriu de volta, num tom cruel. Nunca chorou. A partir daquele dia, o permanente olhar invasivo e dominante, as dores de cabeça, desculpa para que fizesse todas as tarefas em seu lugar, os carinhos diferenciados dos pais para o filho acidentado. Sozinho e cheio de culpa, Jackson se escondia nos cantos, lençóis, becos, banheiros, no escuro, como um pária, um rato. Assim Jockson passou a chamá-lo e espalhou por todo lugar. Já faz tanto tempo e Jackson ainda tenta apagar. Como também preferiu colocar seu próprio acidente em um lugar escondido na memória. Ninguém deu importância porque foi algo tão estúpido. Pisou em um buraco. Será que não viram que era um bem estranho, cheio de espinhos e cacos de vidro? Camuflado sob folhas? Armado? Bem no caminho que ele sempre fez para ir à escola. Bem na época em que era o destaque do time de futebol. Bem quando seu irmão, até então estrela da equipe, enciumou-se. Não conseguia lembrar por que passou por ali. Alguém o aconselhou. Ele buscava, mas parece que aquele fragmento de lembrança se apagou. Só não foi possível esconder sua cicatriz. Ficou condenado a claudicar para o resto da vida. Saiu da cirurgia acabado para o futebol e com outros problemas. Virou coxo, um rato manco. Ao ouvir uma tosse de Jockson, voltou à realidade e ao banco da praça.

– Viajando de novo, né? Sabe por que estamos aqui, Rato.

– Sim, você matou um homem.

– Que é isso… Olhe você errado.

– Eu vi, velho.

– Mas não entendeu.

– Como não?

– Um acidente. Como pisar num buraco.

Falou aquilo com o mesmo olhar cruel, em um movimento estudado. Encarou o irmão até que ele desviasse o olhar, como sempre nos momentos de conflito. Não conseguia reagir ao controle de Jockson, que continuou.

– Você pode facilitar para mim.

– Por que eu faria isso?

– Você é meu irmão.

– Quando lhe convém.

– Está amargo, Rato.

– Tenho muitas razões.

– O que acha que viu naquele dia?

Veio tudo à cabeça de Jackson. Falou como quem pensa alto. Estava em seu apartamento, perto da hora do almoço. Cristina ligou. Achou estranho. Há muito não se falavam. Queria vê-lo e tinha que ser naquela hora. Marcou no Mirante do Morcego. Nada óbvio. Local isolado, sem atrativos. Não raciocinou muito. Ela era bonita e queria estar com ele. Oportunidade a não desperdiçar. Até ensaiou umas falas. Quis buscá-la em casa. Ela preferiu encontrá-lo lá. Chegou perto do meio-dia, como combinado. Não viu carro no estacionamento. Tentou o celular dela. Caixa. Estava quente, mas um vento aliviava. Ao se aproximar do mirante, viu dois homens conversando. Observou a uma distância segura. O mais alto tinha barba e bigode e era moreno. Estava de calça jeans marrom e camiseta. Usava óculos escuros. Não o achou conhecido. O outro, mais baixo, de costas, calça e camisa escuras com mangas compridas, usava um boné. Também não o reconheceu. Pareciam conversar e estava tenso. O mais alto levantou o braço direito e algo em sua mão refletiu a luz do sol. Ele projetou-se contra o mais baixo, que se moveu rápido e o empurrou contra a grade. O agressor se bateu nela e rolou ribanceira abaixo. Jackson correu ao local. O homem que estava de costas virou-se para ele. Era Jockson.

– Tá vendo? Apenas me defendi.

– A polícia não concordou.

– Não existem provas.

– O homem tinha ferimento de faca, velho.

– E eu não estava com uma.

– Eu não conseguia ver direito daquela posição.

– Você chegou logo.

– Pode ter se livrado da faca. Você é bem capaz.

– Rato, não complique.

– Foi o que vi: você empurrou o homem.

– Ele me atacou.

– Eu não posso cravar que foi isso.

– Vou lhe contar o que houve.

Jockson o olhou com segurança e começou. O homem que morreu, Benedito Moreira, o Tirolês, trabalhava para Serafim e era sujeito barra pesada, conhecido e até jurado na região. Jockson havia prestado um serviço de manutenção de computadores no escritório de Serafim. Correu tudo bem, só que no dia seguinte lhe chamaram de volta. Algo havia sumido do PC. Arquivo importante, lhe disseram. Com certeza não era menos que comprometedor. Ele se defendeu, mas saiu de lá com prazo para resolver o problema ou estaria bem encrencado. Ninguém queria ficar mal com Serafim. Jockson acionou sua rede de contatos no submundo e apurou que Tirolês foi o responsável e estava vendendo o que roubou. Foi até ele, confirmou tudo e negociou valores para reaver o pendrive com o arquivo. Marcaram no mirante para a entrega. Na hora decisiva, Tirolês quis subir o preço. Discutiram. Jockson tomou o objeto da mão de Tirolês, que o atacou. Ao se defender, empurrou o homem ribanceira abaixo.

    

– História pra boi dormir.

– Duvida de que, Rato?

– De quem. De você!

– Por quê?

– E a faca?

– Não faço ideia. Ele morreu da queda.

– Mentira!

– Calma…

– Você matou o cara!

Jockson manteve o controle e puxou Jackson para andarem um pouco. Ele foi sem resistir. Entraram alguns bons metros pela área arborizada e aos poucos estavam longe da vista de qualquer pessoa que caminhasse por ali. Tampouco seriam ouvidos. O sol nos últimos filetes. Só ouviam seus próprios passos se arrastando sobre o mar de folhas caídas. Encontraram umas pedras reunidas e por lá se sentaram. Jackson não estava se sentindo seguro ali. Propôs voltarem. O irmão o demoveu com a fala dominante. Precisavam terminar a conversa.

 

– Rato, você está tornando as coisas mais difíceis.

– Está me ameaçando?

– O que vai dizer à polícia?

– O certo.

– Veja, basta um depoimento adequado.

– Não vou mentir, se é o que quer.

– Diga o que viu: um homem se defendendo.

– Me conte a verdade, velho! Uma vez na vida.

A coisa não estava avançando bem. Ele mudou a abordagem. Falou que a história toda até a chegada ao mirante era verdadeira. E confirmou: Tirolês chegou subiu o preço e ao perceber que não conseguiria, tentou matar Jockson, que o esfaqueou, mas não de forma mortal. O gêmeo pegou o pendrive e atraiu Tirolês ferido até a grade do mirante, onde aconteceu a cena que Jackson testemunhou. Aí foi só sumir com a arma e outras evidências. Para garantir a história, conseguiu uma testemunha: seu próprio irmão.

– Você é imundo. Tudo premeditado.

– Da melhor forma.

– Como sabia que eu viria?

– Usei Cristina. Ela me deve favores.

– Ela é moça direita!

– Todo mundo tem um preço.

– Qual foi o dela?

– Não sou indiscreto.

– Você me plantou aqui pra lhe salvar.

– Não é uma boa causa?

– Você não vale nada! E quer que eu lhe proteja?

– Essa é a única alternativa.

– E se eu me recusar?

– Como disse, é a única.

Falou e colocou a mão sob o casaco. Jackson temeu. Sentindo-se acuado, mudou a postura.

– Sempre fiz o que você quis. Não chega?

– Fez o certo. Continue assim.

– Me deixa em paz! Para de me torturar, de mentir!

– Sobre o quê?

– Meu acidente, por exemplo.

– Isso de novo?

– Como eu fui parar naquele caminho?

– E eu sei?

– Só pode ter sido você!

– Uma coincidência infeliz, nada mais.

– Quase perdi perna e pé! Eu tinha um futuro.

– Sua vida não é boa?

– Era para ser bem melhor!

– E então, como ficamos? Vai testemunhar a meu favor?

– Não! Confesse sobre o buraco.

– Foi um acaso… Igual ao que viu com Tirolês.

– Você é um dissimulado, velho.

– Me acha capaz de matar alguém?

– Não me pergunte isso outra vez.

– Acidentes acontecem…

– Não é bem assim.

– Veja nossa situação agora, por exemplo.

– Não entendi.

– Já escureceu, ninguém sabe que estamos aqui.

– O que quer dizer?

– Se um de nós tropeçasse, tomasse uma queda feia?

– Você está…

– Seria uma infelicidade. Como cair num buraco.

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