Estrogonofe

Por termos nascido com apenas um dia de diferença, meus pais, para me provocar, brincavam que eu e o Théo éramos gêmeos e tínhamos vindo do mesmo repolho. Eles achavam graça que eu ficava brava, franzia as sobrancelhas e dizia que era mentira, besta daquele jeito, ele só podia ser filho do cara da televisão, o Estrogonofe. Os dois riam muito e eu, bastante irritada, começava a chorar.

Desde pequena, o Théo tinha a mania de me atormentar. Arrancava a chupeta da minha boca, lambia e depois apertava meu nariz para colocar o bico todo babado em cima da minha língua. Ou jogava no meu prato a comida que ele cuspia por achar ruim. Até aí tudo bem, eram coisas só nojentas. Mas numa das vezes que fui dormir na casa do meu tio, ele se superou.

Eu estava de pijama, sentada na cama de armar, quando o meu primo entrou no quarto segurando uma caixa de sapato. Naquela semana, a gata havia dado cria, quatro filhotes lindos. O Théo tirou um gatinho lá de dentro e acariciando o rabo perguntou se eu não queria dormir com ele. Lógico que sim, respondi. Disse para eu segurar com cuidado ou ele ia acordar. Pus sua cabecinha no travesseiro e ao entrar debaixo das cobertas, grudei o corpo dele no meu. No outro dia de manhã, o tio Arthur abriu a porta do quarto e quis saber onde tinha ido parar o gatinho que morreu, ele ia enterrar e não achou. Eu arregalei os olhos, me virei para o Théo e depois para o filhote. Sacudi o bichinho para ver se ele se mexia e nada. Comecei a gritar.

– Trouxe para cá, para a Lica não devorar ele.

Meu tio puxou o Théo pelos cabelos e falou:

– O gatinho estava a salvo na lavanderia e você sabia disso. Pede desculpas para a sua prima e vai já para o jardim cavar o buraco. E tem mais, um mês sem assistir o Zorro.

Depois disso, pedi para nunca mais dormir lá e nem que ele fosse para a minha casa. Só que nos encontros familiares, o Théo sempre armava para cima de mim, passei vários apertos com ele. Até que um dia, eu estava com uns doze anos, o telefone tocou no final de uma manhã de sábado. Minha mãe atendeu e eu fiquei por perto escutando a conversa. Era o meu tio Arthur. O Théo tinha saído para andar de bicicleta e foi atropelado. Passava bem apesar de ter uns ferimentos na cabeça. Os exames não deram nada, mas ele estava na sala de cirurgia, precisava fazer uma plástica. Não deixei minha mãe notar que meus olhos brilhavam. Como ela disse que ia para lá, perguntei se eu podia ir junto. Claro, vamos comer alguma coisa antes.

Quando chegamos, o Théo já tinha ido para o quarto. A cabeça toda enfaixada e o rosto bastante pálido. Permaneci ao seu lado com as duas mãos apoiadas na beira da cama, na verdade, duas patas. Só estava esperando a hora da fera mostrar os dentes. O tio Arthur e minha mãe não paravam de falar, repetiam indignados o quanto o motorista foi canalha por não prestar socorro e fugir. Talvez ele não fosse tão péssimo assim, pensei, não ajudou meu primo, mas sem saber ia me ajudar. Como meu tio não tinha comido nada, os dois foram para a lanchonete e eu fiquei sozinha com meu primo.

– Théo, como você está?

– Estou bem, um pouco dolorido e meio tonto.

– O que aconteceu? O carro veio para cima de você?

– Não sei direito, foi tudo tão rápido, quando vi já estava voando. Acho que não sobrou nada da minha bicicleta, né? Que droga.

– Pelo menos você está inteiro, quer dizer… quase.

– Como assim “quase”, Nina?

– Nada, não.

– Agora que começou, fala, ou quando melhorar vou bater em você.

– Um probleminha na sua cabeça, só isso.

O Théo nem piscava mais, me deu vontade de rir, mas me segurei. – Desembucha logo.

– Promete que vai fingir que não sabe de nada? Seu pai está muito nervoso.

– Prometo.

– Você já usou um ralador de queijo?

– Para de besteira.

– Não é besteira. Imagina que sua testa é um pedaço de queijo.

– Queijo? Deixa de ser louca, Nina.

– E agora pensa num asfalto cheio de pedregulhos. – Assim que acabei de dizer isso, o Théo ficou mudo, engolia seco. De tão branco, achei que se precisasse escolher um queijo para continuar a minha sessão de terror com certeza seria um queijo de Minas, já que por ser mole, esfarela mais.

– Tiveram que remendar toda a sua testa. Mas isso não é o pior.

– Não? Como assim?

Fazendo uma cara de desolação, disse que ele ia ficar com um buraco no lado direito da testa. E enorme. Achei que seria demais se eu falasse que era o potinho do queijo ralado. E também porque nessa hora minha mãe e o tio Arthur entraram no quarto. A única coisa que se mexia no Théo era a água dos seus olhos.

Eu sabia que depois do que fiz, ia ter que aguentar as consequências. Mas para minha sorte, o meu tio foi morar nos Estados Unidos e ficamos muitos anos afastados. Depois disso, aconteceu uma ou outra história boba e sem importância. Mas esta contribuiu e muito para o meu surto.

Quando os meus pais morreram, herdei o apartamento deles e também uma bomba. Para minha surpresa, meu pai não tinha fechado a empresa de cosméticos e devia uma fortuna em impostos. Por pouco não desmaiei ao ver a quantia que eu precisava pagar para fechar o inventário e poder vender o apartamento. A primeira coisa que fiz foi me desfazer dos meus móveis e eletrodomésticos, devolver o lugar em que eu morava e me mudar para lá. Assim me livrava do aluguel e pagava só um condomínio, o dos meus pais era caríssimo. Se eu parcelasse a dívida, ia demorar um tempão para conseguir quitar, por isso resolvi recorrer ao Théo. Ele pediu que eu fosse no escritório dele com toda a papelada. Depois de analisar tudo, se virou para mim e perguntou quanto eu precisava.

– Trinta mil. Depois que eu vender o apartamento, devolvo tudo. E com juros.

O Théo coçou a cabeça e ficou pensando por um tempo. – Dou o dinheiro para você.

Me animei, quem sabe ele tinha alguma consideração por mim.

– Mas…

– Mas o quê, Théo?

– Em troca de algumas coisas do apartamento dos seus pais.

Pensei na mesa Maria I do final do século XVIII, nas baixelas de prata de lei e também no conjunto de copos de cristal São Luís. Como hoje em dia não valem quase nada, não ia fazer a menor diferença para mim.

– Sério? Pode pegar.

Me despedi do Théo falando que na próxima semana eu ia para Campos de Jordão, se ele quisesse, eu deixava a cópia da chave com o zelador. Ele concordou. Recebi o comprovante do depósito no meio da viagem e me senti muito aliviada. Agradeci meu primo várias vezes.

Quando voltei puxando a mala de rodinhas, o porteiro me cumprimentou e disse ué, a senhora não se mudou? Dei uma risada e respondi ainda não. Ao abrir a porta do apartamento e olhar a sala, minhas mãos começaram a tremer. Não tinha mais nada, nem um fio de cabelo nessa careca. Corri para a cozinha e vi só o fogão. Todos os armários estavam vazios. No quarto, as minhas roupas e a cama. Até os livros do escritório do meu pai o Théo havia levado, aquela anta nunca leu um livro na vida. Me deu tanto ódio que comecei a ranger os dentes. Na hora que fui no banheiro lavar o rosto, vi um bilhete em cima do mármore da pia.

Nina,

Com um fogão e uma cama, você começa uma vida nova.

– Estrogonofe, seu filho da puta! Você vai ser sempre Estrogonofe, se eu trocava o nome, eu estava certa, nem para Chico Picadinho você serve.

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