Na TV sem som, o apresentador gesticula para a câmera. Abaixo, uma faixa vermelha berra em letras maiúsculas “CRIME DA BÍBLIA: ABEL MATOU CAIM”.
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─ Boa tarde. Falo com o delegado Espinoza?
─ Sim, é ele. Quem é?
─ Delegado, aqui quem fala é Isabela Bonelli.
─ Você é a menina do vídeo? Da morte no velório?
─ Exatamente. Estou ligando para me entregar.
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Sou um ano mais nova que meu irmão. Como primeiro neto dos dois lados, ele foi recebido com todas as esperanças que os antigos depositavam nas novas gerações. “Esse vai ser alguém na vida”, diziam. “Vai estudar para doutor, o primeiro da família!” Uma tia fraca da cabeça encasquetou que devia ir para o seminário: “Ia dar um padre tão bonito…”
As previsões duraram até que apareci no mundo. Para quem conhece de perto a dinâmica da família, a frase “Não faço diferença entre meus dois filhos”, que nossa mãe adorava repetir, se tornou vazia. A pele cor de azeitona e o “cabelo ruim” de Micael o faziam parecido demais com nosso pai para que ela apostasse num futuro brilhante para o primogênito. Na cabeça da dona Nenê, se deus fez pai e filho semelhantes no físico, o mesmo valia para o temperamento. Se um era um preguiçoso imprestável (condição da qual ela foi se convencendo ao longo de mais de vinte anos de casamento), por que o outro não seguiria o mesmo caminho? A caderneta recheada de notas vermelhas que ela tinha de assinar todo bimestre também contribuiu para o declínio do conceito que formou do próprio filho.
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Ainda tenho duas horas antes de sair do hotelzinho no centro para a delegacia. Da cama, vejo meu rosto no espelho da cômoda. Os cabelos escuros emolduram um rosto pálido e oval. Sob meus olhos verde-cinza, iguais aos da minha mãe, percebo sombras escuras e alongadas. Nunca tive olheiras em meus trinta e dois anos de vida. Também é nítido o hematoma no queixo, onde o soco pegou. Terei de disfarçar as marcas com corretivo. Haverá câmeras na minha chegada.
Depois do banho, despejo o conteúdo da bolsa sobre a colcha. Apanho a foto que meus pais tiraram na lua de mel em Poços de Caldas. Eles estão apoiados em uma cerca e apertam os olhos por causa do sol. Dá para sentir o verde do vale ao fundo, apesar da cópia em preto e branco. Vestindo calça social e camisa de mangas curtas por dentro do cinto, ele mantém o braço esquerdo sobre os ombros dela, que usa saia com estampa de flores e uma blusa curta amarrada na altura do umbigo. Sob o lenço, uma mecha de cabelos negros dela parece flutuar ao vento.
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Dona Nenê era uma sobrevivente. Contava que durante a segunda guerra, ela e os quatro irmãos comiam “pão com banana”. A expressão significava que chegaram a passar fome. Nunca deixava claro se meu avô ainda estava presente na época – provavelmente já tinha se mudado para a outra família que mantinha num bairro vizinho da zona norte. Ela começou a trabalhar aos quinze anos, cortando tecido no Brás, depois virou vendedora e finalmente aprendiz de contabilidade em um escritório no centro.
Conheceu o futuro marido no bonde de Santana até o Largo de São Bento, e nunca escondeu que apenas tolerava o tom acobreado de seu Júlio. Dizia que convenceu a mãe espanhola e o pai italiano que o pretendente era “caboclo”, neto de índios, e não um “moreninho da África”. Assim que engravidou de Micael, antes do segundo aniversário de casamento, meu pai a obrigou a sair do emprego. Mudaram-se para perto dos meus avós paternos, com quem ela se dava bem.
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Resolvo ir a pé até a sede da polícia, na Brigadeiro Tobias. Calculo que levarei meia hora, mas me acabo demorando nos lugares onde passo. O Largo de São Bento não é mais redondo. Hoje se resume a uma laje de configuração irregular sobre vazios que deixam ver a estação enterrada do metrô. Algumas árvores sobreviveram no cinza geral, mas até seu verde parece sujo. Nos cantos, barracas imundas onde se abrigam os sem-nada. Num impulso, desço e tomo o metrô em direção ao nosso antigo bairro. A tela do vagão estampa a notícia: “Abel, a irmã de Caim, promete se entregar ainda hoje”. Do alto da minha experiência como diretora de marketing, sei que o jornalista que inventou anagramas para os apelidos Mica e Bela estaria rico caso tivesse registrado a patente.
Desço na Estação Carandiru. A plataforma elevada oferece uma visão do que foi o complexo penitenciário, hoje parcialmente ocupado por uma biblioteca e um parque. Olhando para leste, acima das árvores, é possível identificar o último prédio que resiste com sua função original: a Penitenciária Feminina de Sant’Anna.
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Penso nos homens massacrados em 1992, bem ali onde garotos de boné fazem manobras de skate. Penso nas mulheres encerradas ainda hoje atrás dos largos muros de concreto.
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Desde muito nova eu saía com meninos e meninas. Com o conhecimento prático que adquiri na fase do colégio e depois na faculdade, me fixei nas meninas. Na primeira vez que fui a um “bar de mulheres”, como se dizia não sem ironia, eu ainda morava na casa dos meus pais. Voltei tão acabada que nem cheguei ao quarto, desabei no sofá mesmo. Sonhei com peixes, muito peixes pretos que executavam um balé sincronizado. O cardume foi diminuindo de tamanho até restarem dois peixinhos redondos, que se aproximaram da máscara de mergulho que eu usava. Acordei com os olhos negros de Micael a um palmo do meu rosto. Ele estava só com a calça do pijama.
“O que você está fazendo?”, gaguejei, empurrando seu peito.
“Nada, só estava olhando você sonhar. Seu olhos estavam se mexendo mesmo fechados.”
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O futuro de glórias vaticinado para meu irmão nunca chegou. Micael passou raspando em todas as séries do colégio. A rotina de fim de ano incluía provas de segunda época, conselhos de classe e muita angústia ─ do resto da família, porque ele mesmo só se interessava em jogar futebol e namorar. Chegou a cursar uma faculdade que cobrava mensalidades baixas e, em compensação, não ensinava nada. Sua vida profissional se resumia a bicos e subempregos aqui e ali, entremeados por longos períodos de ócio às custas dos nossos pais.
Gastava o que não era seu, principalmente o dinheiro que eu lhe emprestava desde meu tempo de estagiária. Era chegar o quinto dia útil do mês para começar a choradeira. Eu dava umas notas e vales-refeição que ele gastava com os amigos no bar. Também usava as coisas que eu conseguia comprar com sacrifício. Ouvia meus discos nas longas tardes de vadiagem, descobriu onde eu guardava os chocolates importados e até de minhas roupas se apossava. Certa vez, confrontei-o ao sentir seu cheiro em minha jaqueta predileta. Ele se alterou tanto com a cobrança que me deu um soco. O segundo eu consegui desviar graças a meus reflexos como goleira de handebol. Ao aparar o golpe, joguei o corpo dele contra a cristaleira da sala, que veio abaixo com os pratos e copos quebrando sobre sua cabeça. Tomou doze pontos na testa e nunca me perdoou.
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Passo em frente ao cartório onde me estranhei com minha ex-cunhada. Estávamos na calçada esperando dar a hora para assinar um documento que nos permitiria vender a velha casa depois da morte do nosso pai. Dona Nenê não queria ficar sozinha e pediu para morar comigo. Conversei com a Marina, minha mulher na época, e preparei um quarto para ela. Enquanto aguardávamos o funcionário nos chamar, Sônia, a ex-mulher do meu irmão, começou a reclamar. Disse que não precisava estar ali, que o inútil do Micael não se mexeu para fazer uma procuração que a livrasse da burocracia.
“Ele é um frouxo”, soltou olhando para mim, sem se incomodar com a presença do ex.
Meu conceito era até parecido com o dela, mas eu não podia admitir que alguém ofendesse meu único irmão daquela forma.
“Cala a boca”, disparei.
“É frouxo, sim. E eu posso dizer isso de cadeira.”
“Pode, mas não aqui. Não agora.”
Ela ficou tão furiosa com minha reação que foi embora sem assinar o papel. Demorou mais de um ano (e um aumento na porcentagem) para convencê-la a avalizar a venda.
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O saldo daquela cena foi mais prejudicial à nossa mãe do que ao meu irmão. Ela ficou desgostosa com o perrengue público e foi definhando. Acho que finalmente se deu conta do péssimo trabalho que desempenhou como mãe de menino. Perdeu o gosto e a paixão pela vida, ela que nunca vi recusar prato, copo ou pito. Passou a comer quase nada. Por conta de uma série de infecções, acabou internada no hospital do convênio. Em duas semanas, o pulmão de fumante cobrou seu penhor até o coração parar de bater.
Dona Nenê queria ser sepultada ao lado do marido, de quem adorava reclamar, mas a cuja presença se acostumara em cinquenta anos de convivência, somando o tempo que viveram primeiramente na casa em Santana e depois na chácara de Mairiporã. “Se passamos tanto tempo ao lado de alguém é porque merecemos isso, né?”, dizia sem sorrir, mas com uma expressão marota nos olhos cor de cinza.
Micael recebeu a notícia da morte dela quando passava a lua de mel na Argentina com a quarta ou quinta mulher loira (em algum momento deixei de contar). Como filho mais velho, era o administrador oficial do túmulo da família. Sua decisão foi uma surpresa para mim.
“Me espere para a cremação”, ordenou ao telefone.
“Mas por que isso?”, estranhei. “Você sabe tanto quanto eu que ela queria ser enterrada no velho túmulo no velho bairro.”
“É melhor cremar na Vila Alpina. Podemos escolher umas músicas e tal… Depois, com mais calma, fazemos uma homenagem. Marcamos um churrasco na chácara e jogamos as cinzas dela no açude, que tal?”
Eu disse um palavrão e desliguei sem ouvir a reação dele.
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Micael chegou ao velório acompanhado da loira atual e de outra anterior. Além da tintura, suas mulheres tinham em comum a bunda grande, o rosto harmonizado e alguma fonte de renda suficiente para bancar a inércia do marido. O rosto dele estava vermelho, sinal de que havia bebido.
“Eu dei ordens expressas para ela ser cremada!”, berrou com a voz enrolada.
“Primeiro que não recebo ordens de você”, eu disse sem me importar com o constrangimento das pessoas nos encarando na antessala. “Fora isso, já tomei as providências para o enterro.”
“Sapata de merda!”
O soco me lançou dentro da sala onde repousava o caixão. Devolvi com um tapa de mão aberta. Ele cambaleou sobre umas tias sentadas na lateral. Apanhou um castiçal de bronze e o brandiu sobre a própria cabeça. Veio para cima de mim no curto espaço entre o caixão e o banco. Desviei o golpe com uma mão e o empurrei com a outra na direção da barreira de coroas e faixas de condolências. Ele atravessou as flores e caiu, produzindo um som oco ao se chocar contra a parede do fundo. De relance, pude ver que de sua fronte jorrava sangue.
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Fui descobrir que no velório havia câmeras de segurança quando já estava na casa de uma amiga, onde busquei refúgio. (Por que razão alguém pode achar boa ideia gravar as imagens de um serviço fúnebre?) A fixação nessa dúvida me distraiu de pensar no que havia acontecido ao meu irmão.
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Cheguei a pé na delegacia. Os repórteres que entupiam a rua não me viram a princípio; esperavam que eu saltasse do carro do advogado ou algo assim. Parei no terreno onde, alguns anos atrás, um prédio pegou fogo e ruiu matando uma dúzia de sem-teto. Fiquei um tempo ouvindo os comentários sobre os irmãos da Bíblia, Caim fez isso, Abel aquilo. Até que reconheci o delegado Espinoza no alto da escada. Abri caminho até ele entre as câmeras e microfones.
“Ah, você chegou, Bela. Como havia prometido.”
“Sim, delegado, como prometido. Só não me trate por Bela. Meus amigos me chamam de Isa.”
