Nunca precisei de mais do que quatro ou cinco horinhas de sono. Tem gente que só recarrega as baterias após se desligar por oito, nove, dez horas. Passa a noite se revirando, sem achar posição, dorme e acorda, dorme e acorda, tem um monte de pesadelos. Na manhã seguinte, já se levanta um caco. Eu costumo me deitar bem tarde, mas apago logo depois de encostar a cabeça no travesseiro. E desperto quase sempre virada pro mesmo lado, cheia de disposição. Bem que meu médico diz, não importa o tempo do descanso e sim a qualidade dele. Saio da cama inteira, faço um alongamento, passo o café e vou cuidar das minhas flores. Já levo um balde de água e sabão, porque é certo que ainda terei de tirar o fedor de xixi do meu portão.
Hoje, não escapo das compras. Olho na geladeira e o leite acabou. Carne também, foi tudo, bem rápido. Cândida, sabão, material de limpeza em geral, uso demais. Pó de café tem, mas filtro já era. E o veneno de rato. A Prefeitura deveria pagar pros moradores exterminarem essas pragas. Como em Ushuaia. Quando comprei aquela excursão pela Patagônia, anos atrás, o guia levou nosso grupo a um parque lá no cu do mundo, onde uns canadenses idiotas haviam inserido castores. Imagina, o bicho não tinha predador natural, se reproduziu feito coelho e as florestas começaram a desaparecer. Porque é isso que esses roedores gordos fazem, foder e derrubar árvores pra construir diques, engenheiros do demônio. Então, o governo paga sei lá quanto a quem aparecer com o bicho morto. Aqui deveriam seguir esse modelo. Traz doenças? Prejudica o todo? Tomamos uma atitude extrema.
Esse bairro mudou demais. Antes havia mais senso de comunidade entre os vizinhos, as pessoas se conheciam, todos se ajudavam e eram zelosos com o bem comum. Não ficava tudo largado como hoje, sujeira pra todo canto, esse calçamento deteriorado, fachadas implorando por uma pintura nova. Do que adianta um preservar seu espaço se tudo em volta parece um chiqueiro. Desvaloriza a vizinhança inteira, atrai morador de rua, logo aparecem uns muros pixados e, pronto, as construtoras caem matando, fazendo pressão pra vender. E, óbvio, o preço cai lá no chão com essa imundice. Sozinha, só dou conta do meu quintal. Mantenho apresentável, mesmo com essa gentalha que joga bituca de cigarro por cima da cerca. Grama aparadinha, tiro o mato ruim, adubo as roseiras, olha que bonitas. Também trato das orquídeas nos troncos das árvores em volta. Na pracinha, mesma coisa. Adianta de nada. Vem esse gordo, deixa o cachorro cagar na frente da minha casa e vai embora na maior cara-de-pau?
Que beleza, hein? Volta aqui e cata.
Oi?
O cocô do seu vira-lata. Vai largar aí?
Mas, Dona Esmeralda, não é do Fredi, não.
Como não?
Pra mim, parece cocô de gente.
Ah, virou especialista em bosta agora. Aposto que é ele que mija no meu portão.
Imagina, ele só faz nas árvores e…
Muito pior. Urina de cachorro é ácida. Acaba com os troncos. Por isso cai árvore o tempo todo por aqui.
Olha, não vou discutir com a senhora. Bom sábado, tá?
Rapaz abobalhado. Coitado dos pais, já velhinhos, trabalhadores, tendo que aguentar um traste como esse em casa, um aproveitador, quase quarenta anos nas costas e só fica no computador. Sai pra passear com o cachorro e sujar minhas rosas. Coloquei a placa em frente, letras garrafais, “não deixe a sujeira do seu animal para outro limpar”. Coitadas das orquídeas. Essas árvores ocas, o tronco já inclinado sobre a rua. Com toda esses mijo nas raízes, vão cair e amassar um carro, matar um desavisado, com certeza um dos quatro mendigos que perambulam pela pracinha. A caminho do mercado, sou obrigada desviar deles ou vão me abordar. Não vou comprar fralda nenhuma, muito menos um par de havaianas.
Não é dinheiro, não, senhora. Só tô com fome.
Posso comprar pão de forma ou um pacote de bolacha.
E um sanduíche?
Nem pensar. Depois passa mal, vão me acusar de te dar algo estragado.
Ôxe, o estômago aqui aguenta tudo.
Só comida embalada. Não vou arriscar te dar um presunto fora da validade.
Cedo assim e o horti já lotado. Que tanto esse povo compra? Depois reclamam de crise. Passo na área de frios e coloco na cesta uma garrafa de leite. Material de limpeza, não. Pra não misturar com os alimentos. Depois, volto. Paro no balcão do frigorífico, tudo caro. Peço fígado, mais em conta. Para mim, umas tiras de frango. Ao meu lado, está a minha vizinha dos fundos, conversando com o açougueiro. Ela nem olha na minha cara desde que reclamei dos uivos do fila dela. A mocinha sai pra bater perna, volta altas horas da noite, bêbada, e eu tenho que suportar a choradeira do animal o dia inteiro? Faça-me o favor.
Não vai levar nada pro Sansão hoje.
Ai, moço, nem te conto. Perdi o Sansão essa semana. Tô que não me aguento de chorar.
Minha filha, não diz isso. Que tristeza. Como foi isso?
Não sei. Acordei e tava morto. Parece que o coraçãozinho não aguentou.
Mas sabe que aconteceu o mesmo com o shih-tzu daquele casal do sobrado verde.
Os nutricionistas? Que fazem vídeo de dieta no Instagram?
Não sei. Só ouvi dizer que o bicho vomitou na casa toda de madrugada e depois… puft.
Que dó. Será que comeu porcaria na rua?
Filtro de café. Não posso esquecer. Assim que chegar vou preparar a composteira pra adubar os canteiros. Agora, a bolacha e o pão dos coitados. Vou pegar um iogurte, isso não tem perigo. São quatro, vão estar alimentados até amanhã pelo menos. Só não dá pra fazer isso todo dia com o dInheiro da minha aposentadoria. Que outras pessoas ajudem. Separo os produtos de limpeza e pronto. Já na fila do caixa preferencial lembro do veneno de rato. Só faltava esquecer o mais importante.
Ó, aqui. Vê se divide com os outros três.
Sim, senhora. Mas são só dois agora. Essa noite, o Véio do Rio fez a passagem.
Qual era esse?
Ué, o velho de barbão branco. Botou os bagos pra fora com sangue e tudo.
Hmmm, lamento.
Era gente boa, o Véio.
Não duvido. Se cuidem, então.
Esse Véio do Rio foi o primeiro a ocupar a pracinha. Os outros que vieram mais tarde eram jovenzinhos. Ele ficava afastado, falava menos. Nem era assim tão gente boa. Não comigo. Meio arredio, desde que não deixei tirar minhas orquídeas das árvores. Queria tentar vender, com certeza. O gordo vagabundo do vira-lata disse que era cocô de gente. Podia ser mesmo, talvez desse Véio do Rio. Se for, bem feito. Onde já se viu cagar na porta de uma casa? Olha a merda ainda lá. E, reparando bem, tem sangue nela. Melhor lavar é já. Largo as sacolas de compras ao lado do portão e só pego um vassourão largado no quintal. Saco os produtos de limpeza e esfrego direitinho, antes que alguém pise e venha me acusar de não cuidar da calçada em frente a minha casa. Ficou um brilho, o pedaço de rua mais limpo de toda a região.
O tempo voa. De repente, já é hora de almoçar. Preparo meu franguinhos. Desfio e improviso umas panquequinhas. Misturo com o arroz e feijão de ontem e pronto. Agora posso passar a tarde cuidando do jardim, minha verdadeira paixão. Enquanto as demais casas mantém o mato alto, aqui prevalece a paz e a harmonia. Aproveitar o espaço disponível é o segredo. As pessoas pecam por querer colocar planta demais no aperto. Ou desperdiçam uma área muito grande, deixando uns vazios ou apostando na mesmice. Nada é mais triste que um quintal chato, pior que terreno baldio, onde, ao menos, há vida no meio do caos. Bom se atentar ainda à quantidade de luz que o lugar recebe. Aqui sempre teve árvores enormes em volta, agora esses prédios monstruosos cobrindo o sol. Então, escolho mudas que se adaptam bem à sombra.
Boa tarde, dona Esmeralda.
Ai, que susto, Francisco.
A senhora me perdoe. Tô aproveitando a minha ronda diária pra fazer umas perguntas aos moradores.
Perguntar o quê?
A senhora, que cuida tão bem desse jardim lindo, nunca achou uns restos de comida no meio dos vasos?
Não entendi.
Tem aparecido umas comidas nos canteiros, entre as raízes de árvores, nos arbustos, até nas sarjetas.
Ué, só pode ser os infelizes que vivem na praça. Mas não dou comida, comida de verdade. Só uns lanches.
Pois é, mas nem é marmita. Só comida, jogada no chão. Não entra uns baratões na casa da senhora, umas ratazanas?
Aqui só entra quem convido.
Tem acontecido nas ruas do entorno, onde faço a segurança. Esses bichos carregam doença, sabe?
Então, fala com quem não cuida direito dos seus quintais. Minha parte eu faço.
Claro, onde a senhora toca fica bonito.
Cai a tarde e eu me recolho. Nessa época do ano aparece muito pernilongo e eu tenho um sangue bom, eles amam me picar. E dengue? Eu faço o certo. Aqui no meu quintal ninguém vai encontrar água parada, de jeito nenhum. Mas tenho que ficar de olho nos outros, porque o mosquito não obedece muro ou cerca. Se o vizinho é um irresponsável, todos se ferram. Vou para o banheiro tomar uma ducha e me encher de repelente, antes de jantar e ver minhas novelas.
Desligo a televisão passado das dez horas da noite e vou pra cozinha preparar o fígado. Fica melhor pra meter o enchimento fazendo uns cortes fininhos com a faca. Mas sem vazar pro outro lado. Depois é só colocar com cuidado nas sacolas plásticas e sair. A iluminação pública está cada vez mais fraquinha na rua, um tanto esparsa, vários pontos no breu. A essa hora o Francisco não deixa a guarita dele. Ainda mais hoje, que tem jogo do time dele. Povo saiu com os cães para a última mijada ácida. Não encontro ninguém. Minhas árvores são as únicas testemunhas e elas são parte interessada.
Toda noite, escolho pontos diferentes. A raiz da figueira fez um calombo no asfalto. Vai servir. O mato alto do sobrado da esquina. A folhagem sai pelas grades e invade a passagem. Ali é ótimo. A tampa de concreto entreaberta da boca de lobo. Sobra um vão que a cachorrada vive farejando, essas pestes. Uma rachadura grande na mureta da casa abandonada, tijolo aparente. Bem baixinho, ideal pro animal meter o fucinho sem o dono se tocar. Desta vez, evito a pracinha. Vai que tem outro esfomeado como o Véio do Rio, a ponto de pegar sobras do chão. Espalho os pedaços de fígado com recheio de raticida por toda a área. Ao voltar para casa, já é madrugada. Tomo um banho de gato na pia, escovo os dentes, visto o camisolão, passo um creme nos braços e no rosto e me deito. Certeza de que nem cinco minutos e estarei roncando pesado.
