Samanta, a feiticeira (de Carol Schettini)
Conto cinco gatos. Cinco gatos deitam junto comigo. Pepsi, a chefe do bando, respira no meu rosto. Nossa! Quase meio-dia. Por pouco, não perco o horário do almoço. Tia Cássia gosta de almoçar em ponto ou fica enjoada.
— A Aninha ligou pra falar com você — ela começa, mal coloco a cabeça para fora do quarto.
— Podia ter me chamado, tia.
— Fiquei com pena, você dormia tão bem.
— O que ela queria?
— Falar com você. Quando eu disse que tava dormindo, começou um interrogatório, sabe como é.
Sim. Eu sei como é. E nas inúmeras vezes em que isso havia acontecido, eu dei instruções para a tia Cássia agir. Número um: não responda nada, nada vezes nada.
— E você fez o combinado?
— Mais ou menos.
Aposto que contou tudo. Velho não pode ter uma amizade com alguém que quer contar até quantas batatinhas descascou para ferver no purê da hora do almoço.
— Primeiro ela queria saber sobre uma blusa de coração rosa. Se tinha visto você vestir, essas coisas.
— E você disse que não, né?
Tia Cássia vira de costas, se apoia na pia e com toda a carga dramática apreendida nos anos cinquenta em teatros de vedetes, aperta o pano de prato e responde:
— Ai, Lu, desculpa, quando dei por mim, já havia respondido.
Nem me abalo. Sirvo uma colher de arroz com feijão bem farta.
— Ela disse que é para você devolver hoje. Hoje, não. Semana que vem. Ela vai viajar e não quer você bisbilhotando a casa dela. Falou pra você devolver porque foi o namorado dela quem deu de presente e.
— Ela tem namorado?
— Disse isso.
— Com aquela feiura toda?
Deixo o prato na mesa descansando e vou para o quarto procurar a tal da blusa da minha prima porre. Deu para isso agora. Vigiar roupas que não usa. Duvido que sirva nela. Pego o tricot de coração e fico na dúvida. Corto o coração da frente ou o de trás. Será engraçado ela usar sem reparar que falta um pedacinho de pano. Corto logo os dois. Amasso bem, enfio num envelope e anoto seu nome: Aninha, a sem coração.
— Você não vai terminar o almoço? Tem mais uma coisa.
Com a tia Cássia, sempre tem mais uma coisa. Mais um verbo ou até mais uma fofoca que ela esqueceu de dizer. O gato branco pequeno está sentado na minha cadeira. Coloco ele no meu copo e antes de levar o garfo à boca, olho para ela, esperando pelo resto da história.
— Ela disse se você pegou um cheque no talão dela, pra nem pensar em usar. Ela deu parte na polícia. Na polícia!
— Cheque? Quem vai na polícia por causa de cheque com fundo baixo?
— Ela disse.
— Tia, pode ficar tranquila. Não sei de cheque nenhum. Depois, delegado tem que preocupar com assassinato, roubo, marido que bate em mulher, velho preso com correntes em casa. Cheque de aspirina, quero ver.
A pessoa pega cheque no banco e guarda na gaveta como comida para traças. Por que não faz logo um quadro com um monte de cheque em branco? Arte moderna. Capaz de ganhar milhões. Ajudo na arrumação da cozinha. A gatinha enrolada na barra da minha calça. Vou precisar ir à cidade. Ainda aparece essa blusa para devolver.
— Você pode trazer leite quando vier? Descer cinco lances de escada tem me deixado muito cansada.
Concordo e ela me dá uma nota de cinquenta reais.
— Você viu minha pulseira de ouro, aquela mais grossinha?
— Tia, se esqueceu? Mandou colocar no prego!
— Foi? Quando?
— Tem tempo.
— E o dinheiro?
— Gastou, né? Com tanto gato gordo em casa.
— Não pode. Ela tinha um design. Devia valer muito.
— Tia, eles pagam o ouro. Tanto faz ser uma hstern ou uma quinquilharia. Ouro. Ouro. Ouro. Vale nada.
Ela me olha como se não soubesse disso. Tá certo que ela não sabia da pulseira sendo levada a penhor, mas fingir não saber quanto a Caixa paga, já é demais. Vou pegar algo mais fino ou mais escondido da próxima vez. Não entendo algumas pessoas viverem na miséria, comprando leite aguado, escondendo dinheiro no guarda-roupa, podendo se fartar de leite condensado.
Desço a rua, largo a blusa da Aninha feiosinha na caixa de correios e vou ao bar.
— Oi, seu Joca. O senhor já descontou o cheque de ontem? Troca aqui. Trouxe dinheiro. Melhor pro senhor. Faz um desconto e me dá um litro de leite. Do mais barato. Aquele pra vencer.
Observo sentada, ao fundo do bar, a advogada, dona do cartório. Ficou de passar em casa para resolver a documentação do apartamento da tia Cássia. Nunca mais voltou. Está sentada lendo um romance de folhas pardas, tão de época quanto ela mesma. Seu cabelo chanel escuro combinando com sua roupa de uma cor só, incluindo os sapatos e bolsa parecem perdidos no século vinte e um. Em um filme, teriam sido plantados por um vilão mau dono de uma cápsula do tempo.
Puxo assunto como quem não quer nada, e a vida?, o livro é bom?, qual tinta usa no cabelo? 5.0? não fica escura?, blá, blá, blá, e o apartamento?
— Sabe como é sua tia, na hora de assinar, disse que teve um sinal. Me expulsou com uma gentileza de uma vassoura empurrando teia de aranha. Disse que volta a me chamar. Um dia.
Um dia? Que dia? Corro de volta para casa. Já é tarde. Tia esquenta a sobra da janta como se preparasse um jantar cordon bleu. Não vai comer. Aposto.
— A senhora não acredita quem encontrei por acaso: a dona Jerusa, do cartório. Disse que está esperando a senhora chamá-la de volta.
— Ih, vai demorar! Talvez, tal-vez, na próxima década. Um pouco antes do fim do século.
Sento na mesma cadeira da manhã. A gata pula de volta no meu colo. Preciso continuar o assunto de uma maneira discreta. Só que não tem como ser discreta num assunto indiscreto.
— O que aconteceu? Sabe como sou curiosa. Morro se não souber.
Tia ri. Senta na minha frente com uma xícara de chá e um biscoitinho seco de água e sal.
— Foi um sinal, minha filha, um sinal. Sei que só volto a pensar em assinar depois que a Samanta morrer.
— Quem é Samanta, meu pai?!
— Essa gatinha linda de olhos azuis que está no seu colo.
— Samanta? Não é feiticeira?
— Samanta, a feiticeira, não lembra da série?
Aperto a gatinha um pouco mais forte do que desejo, ela resmunga. Solto. Ela continua aninhada no meu colo.
— E?
— Estava com a caneta na mão, ela pulou na minha frente, fazendo eu errar. Pensa! Um sinal. Quando ela morrer, assino.
— Ela é uma gata nova. Tem meses de idade. Por que a senhora não escolheu a Pepsi, uma debutante!
— Tadinha da Pepsi, tão velhinha e tão gordinha. Se não tivesse essa cor escura, podia ser eu! E não quero que ela morra. Parece que estou jogando praga. Por isso, elegi a Samanta, a mais novinha.
Ela não quer assinar, isso sim! Onde já se viu? Colocar a idade da gata, uma gata que vai viver com leite e grama na boca para firmar um negócio. E eu? E eu?
— Ficou chateada?
— Claro que não, né tia? Sinal é sinal.
Começo a suar. Fui mordida por uma mosca que paralisa todos os músculos, preciso respirar.
— Abre a janela, tia. Preciso de um pouco de ar.
— Janela aberta e gatinhos não combinam.
— Tá de noite. Não vai passar nenhuma distração.
Tia Cássia escancara a janela ao ver meu rosto contraído. Abro os braços e despenco o corpo em cima da mesa, sentada com Samanta no colo. A tia me deixa descansando e vai para dentro se preparar para ver a novela e dormir. E eu? E eu? Fui criada a vida inteira com essa gataiada no meu colo, no meu banho, no meu almoço. Agora eles tem que se intrometer até na minha herança?! Tenha dó!
Faço carinho em Samanta. Nunca vi gata mais tranquila. Nem unhas deve ter. Ah, Samanta, gosto tanto de gatos. Tanto tanto. Gosto muito de você. De verdade. Por isso, do fundo do meu ser, espero que saiba voar.
