Serafim

por Américo Paim

Noite de raios e trovões. Era questão de tempo e aconteceu: faltou energia. Passava das onze. Sozinho no apartamento, estava entediado. O breu total me trouxe uma lembrança peculiar. Resolvi reler um dos meus textos antigos. Sei que essa é uma mania perigosa, guardar tais informações, mas gosto. Busquei e achei no PC o relato de quase um ano atrás. Preparei uma dose de uísque e fui ler.

***

O amanhecer tem efeito estranho sobre mim. Se é muito bonito, talvez o dia tenha problemas. Coisa curiosa. À minha frente a Serra, com aqueles riscos de neblina e o sol ainda tímido, tingindo tudo entre vermelho e amarelo. Um artista faria boa coisa daquela cena, eu tinha certeza. No fim das contas, foi bom mudar para esse apartamento no 15º andar. Vista privilegiada. Perdi um pouco ao sair da velha casa, não ouço mais a passarinhada nas mangueiras, por exemplo, mas esse novo panorama compensou. Uma aurora como aquela inspirava a enfrentar tarefas complexas, como as que teria naquele dia.

Tomei o café da manhã na varanda ampla. Não perderia o visual enquanto comesse. Deveria reformar o espaço, talvez alguma estrutura de cozinha gourmet. Tomei meu suco de laranja feito da fruta mesmo e antes de comer ou colocar o descafeinado na xícara de porcelana trabalhada, herança de minha avó, abri o jornal. Sim, sou desses que ainda gosta do papel, do tal do meio físico. A Tribuna de Pedra Velha ainda era o melhor veículo de comunicação da região. Após passada rápida pelas manchetes, onde não li nada interessante, fui ao que mais me interessava: a página policial. Verdadeiro fascínio. Sempre imaginava as cenas e os motivos para os eventos e, considerando que a cidade não era nada monótona, eu usava muito a criatividade. Tinha crime de tudo que é jeito. Banal, passional, meticuloso, improvisado e por aí vai. Embora não houvesse muita novidade – a maior parte das notícias era continuação de casos de outros dias – vi com excitação a informação mais apetitosa, pouco abaixo do meio da folha.

Sucinta, bem escrita e para mim atrativa: “Mulher morre asfixiada no Morro do Coentro”. Li como se fosse algo à toa, engasgo com espinha de peixe, doença respiratória, mas a verdade era mais elaborada. Ela foi enterrada viva. Espancada até o limite. Os médicos afirmaram que estava consciente quando foi, digamos, sepultada. Chamava-se Dirce. Ela me lembrou o Sítio do Pica-Pau Amarelo, no tempo que a Dirce Migliaccio era a Emília. A mente faz essas coisas. Eu estava tão ansioso com o primeiro compromisso do dia que uma coisa puxou a outra. Saí de casa na sequência e me apressei para chegar à cerimônia de doação de suprimentos para o Hospital da Criança. Faço isso com alguma regularidade, contudo sem aparecer muito. Dessa vez insistiram tanto que tive que dar o ar da graça. Conversei com funcionários, médicos, enfermeiras e com Vandevaldo, administrador do local. Já trabalhou comigo em outros empreendimentos. Bom rapaz, me obedecia sem titubear. Entreguei a soma em dinheiro em uma sacola preta, como de hábito. Fiz minhas recomendações. Sei que as cumprirá e não terei problemas. Ele bem sabe com quem está lidando.

Como o evento demorou, perdi toda a manhã. Saí de lá bem na hora do almoço e fui ter com Demétrio. A conversa deveria ter sido no escritório, mas não deu para esperar. Entreguei o envelope que ele deveria utilizar na diligência que aconteceria no início da noite. Repassei todos os detalhes com atenção. Era uma tarefa delicada e ele sempre foi de confiança. Me deve muitos favores e ainda lhe pago um ordenado. Trabalha para mim de forma exclusiva e temos nossos acordos. Disse-lhe na despedida que não ia tolerar falhas. A empreitada era por demais importante. Saiu do encontro um pouco assustado, é verdade. Compreendo a reação. Se despediu assim: “Seu Serafim, pode confiar, considere feito”. Aprecio essa lealdade, mas ele sabia que o preço que ia pagar em caso de as coisas não saírem a contento seria bastante alto.

Após o almoço, caminhei no parque para uma melhor digestão. Gosto da brisa e do verde por todo lado. Como faço às vezes, dei comida aos pombos. Crianças brincavam e jovens passeavam de bicicleta ou namoravam nos bancos. Gente da minha idade lia ou conversava em duplas. Tais cenas sempre me revigoraram. Encontrei pessoas conhecidas, que pararam para dois dedos de prosa. Sigo respeitado na cidade. Verdade que alguns apenas me temem. Tanto melhor. Houve algo diferente, porém. Já era do meu conhecimento que o tal Fenelon Rodrigues tinha influência por aqui e percebi que está crescendo além do necessário, pelo que ouvi de alguns. Falaram bem dele e de forma espontânea. Sempre achei que aquele jeito discreto de ricaço boa praça dele escondia alguma coisa podre. Pensei que era melhor eu ficar bem esperto e um dia tirar aquilo a limpo.

 

Saí do parque e fui ao escritório. Precisava despachar uma papelada. Por volta de quatro da tarde, recebi a visita inesperada do ex-prefeito. Sua renúncia foi há três meses, por ocasião da morte da esposa, Dona Gracinha, que Deus a tenha. Com isso, perdi espaço no meio político. O vice que assumiu não me deve nada. Isso precisa ser ajustado. Enfim, o pobre diabo queria conversar comigo sobre dois assuntos. O primeiro deles foi pedir apoio para sua candidatura a Deputado Estadual, dali a dois anos. Confabulamos e estabeleci a condição para empréstimos ou doações de campanha: mais espaço para a minha empresa. Expliquei sobre o quanto venho agregando à cidade, e como deveria receber de volta mais oportunidades diretas, sem essa perda de tempo de tomada de preços. Citei como exemplo a recente obra na Praça Coronel Soriano. Serviço simples, que garantiu a valorização da região onde moram vários familiares dele. Entendeu meu ponto de vista e as consequências em caso de eventual desapontamento da minha parte. Como esperado, concordou. Até me sugeriu como influenciar os que agora estão no poder. Aproveitou também para pedir um adiantamento em dinheiro. Ficamos de acertar isso no dia seguinte.

O problema foi o outro tema. Veio pelas beiradas sobre os rumores de que eu tive um caso com sua falecida esposa. Coloquei as coisas no devido lugar. O ameacei com o fim da nossa frutífera parceria, o que logo resolveu tudo. Na época que a fofoca apareceu, eu me controlei e de lá para cá defini um ponto final, a se resolver mais cedo do que se pensa. Ele saiu do escritório com o rabo entre as pernas. Como já estava perto de cinco horas, resolvi que ia mais cedo para casa. Precisava ficar à disposição de Demétrio e sua missão. Bem na hora de sair, me apareceu uma pessoa com quem eu não queria estar. Disse ter agendado e que era assunto do meu interesse. Resolvi receber e aproveitar para dar uma regulagem. Dona Rejane, minha secretária, ouviu o que nem sonhou. Minha agenda deveria estar bloqueada. Ela errou as datas. Não perdoei. Saiu chorando da minha sala, mas se recompôs logo. Sabia que eu tinha meios de tornar as coisas ainda mais desagradáveis para ela. Conhecia tudo do seu passado com o ex-noivo. Homem escroto que teve morte violenta, porém, adequada.

Ele entrou na sala. Eu tinha ali na minha frente Guaraci, o homem que vinha trabalhando forte contra mim, como apurei com meus informantes. Muita coragem dar as caras e com “proposta de oportunidade única”. Talvez me tivesse como idiota. Uma ideia que chegou a me dar pena dele. O coloquei para fora de um modo, diria, contundente. Saiu falando grosso e até ameaçou, mas foi embora bem surpreso com esse lado meu que revelo em poucas situações. Sei trazer desconforto e medo. Ele saiu sabedor que um próximo encontro só se eu quisesse e as coisas poderiam acabar não tão pacíficas.

Cheguei em casa ansioso para rever a cópia que guardei do bilhete que Demétrio levaria ao destinatário. Estava bom, eu sabia. Só quis conferir de novo. Peguei um uísque e fui ao sofá. Dei uns bons dois goles e então li, em voz alta.

“Prezado senhor.

Resolvi lhe responder da mesma forma como me abordou e escrevi essas breves notas.

Vejamos a quantas anda sua coragem. Me escreveu coisas que não deveria e me chantageou pedindo dinheiro para “ficar calado”.

Achou mesmo que sairia dessa tranquilo?

Imaginei que não soubesse com quem se metia, ainda assim resolvi tratá-lo como mereceria um bom rival, apesar de entender que não passa de um reles verme.

Seus comentários sobre supostas falcatruas na minha empresa são irrelevantes, até primários. Nem vou me preocupar se tem provas e essa mulher de quem falou, Santinha, não faço ideia de quem seja. Se ela existe, já deve estar rezando nesse momento.

Espalhou por aí que eu tinha um caso com Dona Gracinha. Essa foi sua decisão mais errada. Me custou tempo e dinheiro para acomodar as coisas e hoje acertaremos sua dívida.

Por fim, o tal Guaraci a quem se referiu está com os dias contados se continuar a me aporrinhar com essas conversas de compra de imóvel e outras bobagens, tentando até me tirar dinheiro.   

Preciso garantir que pare de me espionar, de escrever asneiras e falar besteiras sobre a minha pessoa, então as providências serão definitivas. Terá oportunidade de ver, ainda que de forma breve, que são justas e coerentes.

A polícia, quando souber, já será tarde. Os médicos explicarão melhor.

Ao final, o senhor poderá me imaginar falando o que me perguntou na sua carta: fiz bem?”.

Fiquei satisfeito com o conteúdo. Só me restava esperar o desfecho que Demétrio me traria. Ele foi escolhido para a difícil tarefa por eu confiar muito nos seus talentos específicos. Chegaria ao local com armas, ferramentas e capuz. Depois de imobilizar e amordaçar o sujeito, deveria fazer com que o condenado lesse o texto na íntegra. Só então consumaria a tarefa.

Ouvi um estrondo. Algum transformador explodiu. Fiquei sem luz. Não me restava muito a fazer, então, enquanto esperava pelo retorno dele, imaginei uma boa manchete para a página policial do jornal no dia seguinte: “Homem encontrado morto sem as mãos, a língua e os olhos. Sangrou até a morte”.

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