O Ártico está derretendo. A Groenlândia está derretendo. Meu cérebro está derretendo. A cocaína do Leme é vagabunda, a política me desanima, a economia me brocha, meu eu lírico anda afônico desde o golpe, tá tudo uma merda, Carla. Papai não tolerava esse linguajar, mas boa parte do tempo eu não tolerava papai.
Que porra de pai pede pra ser chamado pelo nome? E era nome composto. Chegava a ser ridículo! Na sexta série rolou boatos que eu era adotado. Um colega visitou a nossa casa pra um desses trabalhinhos de escola e ouviu.
— Por que você chama ele de Charles Douglas?
— Porque é o nome dele.
— Sim, mas o nome do meu pai é Alexandre e eu chamo ele de pai.
— É que ele não gosta.
Daí pronto, foi o ano todo com a balela de que eu era adotado. Criança não perdoa. Mas criança não entende. Eu não entendo até hoje, Carla. Até cheguei a suspeitar que pudesse ser adoção. Mas eu tinha aquela cara avermelhada dele, essa maldita falta de melanina correndo nas minhas veias, como me faz falta a melanina. Você sabe que eu queria ter o suingue, o borogodó dos brasileiros que sambam na Lapa. Aquilo é de uma dignidade que eu jamais terei.
Esses cabelos sem cor, esse nariz de batata, esse corpo grande que ocupa lugar demais, que não remexe, que não tem ginga. Charles Douglas me disse pouca coisa da infância dele. Eu sempre perguntei detalhes de sua vida ultra marítima, queria saber o que ele era antes de da gente vir pro mundo, Carla. Eu só morei no Rio, queria saber como era mudar de país, de continente.
A única coisa que eu lembro foi que ele me disse algo sobre o ser humano e sua capacidade de adaptação. Se você colocar uma marmota na América Latina ela aprende a dançar tango. Hoje entendo que ele era a marmota. Na época eu nem sabia que porra de bicho era esse. Aqui não tem marmota. Aqui tem macaco e macaco é incrível. Macaco é o homem sem o filtro. Macaco joga merda nos seus pares, e quantas vezes, Carla, nós não quisemos tacar merda um no outro? No meio da tua cara, esparramar tudo no teu cabelo alisado, e eu te amo Carla, juro que amo, mas tacaria merda na tua cara ainda assim.
Era uma metáfora, Charles Douglas usou metáfora, a frase trabalhada e bonita, invés de jogar bosta na minha cara pálida. Ele sempre foi cortês, isso eu não posso negar. Se adaptou bem, aprendeu uns passos do tango, comeu churrascos, assistiu jogos no domingo, fez um pé de meia, morreu a tempo de não ver nada disso.
