por Américo Paim
Pelas suas contas faltava mais de hora para chegar à rodoviária, mas pegou a pequena mala e foi se arrumar logo. E se tiver fila pro sanitário? Já tinha visto que não havia espelho. Como é que quebra e ninguém substitui? Absurdo. Passou a mão no rosto e conferiu a aspereza. Fez a barba com sabão mesmo, cuidadoso, pois já lhe bastava a cicatriz embaixo da orelha esquerda. O rosto amassado pelos erráticos cochilos a noite toda sacolejando na estrada não lhe tirou a confiança em causar boa impressão. Aos trinta e dois anos, sua juventude se notava. Sem vincos na testa ou nas bochechas magras. A expressão era atenta, sobrancelhas grossas e olhos castanhos confiáveis. Tudo compensava o cabelo liso lambido e o pomo-de-adão proeminente. Ajeitou o cabelo devagar e checou pela câmera do celular. Após o desodorante sem cheiro, trocou de camisa. A quadriculada era muito informal. A azul de manga curta e botões resolvia melhor e estava calor para mangas compridas. Vou ficar suando, cheio de pizza… E essa é escura, emagrece. Não que precisasse. Voltou para a poltrona 18.
Entrou na cidade e admirou-se com Pedra Velha. Não era atrasada como o povo ciumento de Serra Quente lhe falou. Vou me dar bem por aqui. Desceu do ônibus e foi atrás de opções baratas de hospedagem para economizar. Antes de definir o lugar, resolveu rodar um pouco para uma olhada aqui e ali. Assim chegou ao Hotel Alvorada, não tão perto do centro. Esse aqui não dá, muito caro… Impressionado com a fachada moderna, entrou no amplo salão e aproveitou um pouco da refrigeração. O pé direito gigante, paredes espelhadas, a decoração, tudo lhe aparentou chique. Se eu arrumasse um trampo aqui ia ser o ouro. Andou uns dois metros e um sujeito impecável, de terno e gravata o abordou. O bigode parecia pintura e o cabelo quase brilhava de tão arrumado. Passava a mão nas orelhas de abano a cada instante. Leu o crachá: Paulo Alberto – Gerente. O homem o examinou curioso por breves instantes, o pegou pelo braço em silêncio e foram a uma sala meio escondida, atrás das colunas revestidas com aço escovado.
– Temos que ser discretos.
– Hein? Olhe, eu só…
– Não se preocupe. Está tudo arranjado.
– Ah, é?
– Vá ao balcão e se identifique com esse nome aqui.
– Venâncio Antunes?
– Isso. A suíte presidencial já está reservada.
– Oxe, mas o que é…
– É fundamental começar de imediato!
– Oi?
– A certificação já está em cima!
– Ah, a certifica…
– Teste tudo. Peça tudo.
– Você diz…
– Como Dr. Everaldo definiu!
– Você fala…
– Restaurante, serviços, atendimento, instalações. Tudo!
– Ah, tá…
– Aliás, gostei da roupa simples. Isso já serve de teste Dr. Everaldo pensa em tudo mesmo.
Genildo estava confuso. Que diabo tá rolando aqui? E quem é esse Venâncio? Entendi foi nada… Estava desconfiado, mas gostou da ideia. Fez o que lhe disse o homem: foi ao balcão, se apresentou e disse ter reserva para a suíte presidencial. O protocolo para aquelas situações foi cumprido e o recepcionista chamou o gerente, que veio fazendo cara de paisagem, como se estivessem se vendo pela primeira vez. Falava ao celular.
– Sim, Dr. Everaldo, já chegou. Claro, Dr. Everaldo. Sim, tudo que for necessário. Obrigado, bom dia.
Ele piscou o olho para Genildo. Saíram juntos para a suíte. A reserva era de três dias e noites, prazo suficiente para testar tudo a contento. Genildo entendeu melhor. Rapaz, os caras pensam que eu sou o tal Venâncio… Num sei se eu digo… Porra niúma… Melhor ver esse negócio de suíte aí… A porta foi aberta e se apresentou um novo mundo. Ele ficou bobo com a sala enorme. Véi, dá pra bater o baba aqui… O sofá cabia três dele e a mesa de centro dava para uma partida de pingue-pongue. TV que parecia tela de cinema. Uma coleção de controles remotos para som, TV, luz. A cama absurda e os móveis que dava até pena usar. Geladeira com bebidas, queijos e geleias. E o banheiro? Espelhos enormes, piso de pedra lisa. Banheira de hidromassagem, cremes, toalhas, roupões, pantufas e por aí vai. O gerente lhe apresentava tudo como uma gravação, quase sem respirar. A cada espaço mostrado, um sorriso e uma piscadela. Quando acabou, foi claro: tudo estava pago. Foi até a porta, piscou de novo e saiu.
A primeira coisa que Genildo fez foi dar um grito, correr e pular na cama macia. Ficou ali se esfregando todo e rindo. Porra, isso que é vida, véi! Que cama é essa, papá? Futucou os controles, abriu long neck. Outras duas na sequência. Pegou uma quarta e levou para a banheira. Por lá ficou por meia hora. Ao sair, estava com fome. Onze e meia ainda. E daí? Ia compensar aquela noite de cão no ônibus. Não entendeu os nomes chiques dos pratos no cardápio, mas achou filé e lagosta e foi o que pediu. Oxe, vou perder essa boca? Lá ele… Quem vai é o coelho… O pessoal da cozinha estranhou ao telefone. Dois pratos lhes pareceu um exagero. Não era só ele? A comida chegou em menos de trinta minutos e ele se esbaldou. Fez bagunça e sujeira na mesa de jantar. Navegou pela TV. Entediado, decidiu sair um pouco e conhecer o que hotel tinha. Antes, porém, pediu serviços de limpeza e deixou a recomendação de trocarem toalhas e roupa de cama, onde deixou cair cerveja. A caminho, pensou sua situação. Era só sugerir umas coisas ao gerente. Vai que ele gosta de mim e me arruma um trampo? Depois explico esse troço de Venâncio aê…
Começou pela academia de ginástica. Olhou tudo com atenção. Não conhecia bem aquele ambiente. Gostou das músicas e achou o som muito alto. Se queixou ao responsável que lá estava que o ar-condicionado era muito fraco. Ficou ali de conversa mole, vendo os jovens na malhação. Quando cansou, foi para a piscina, no piso do terraço. Na recepção, perguntou à pessoa se ela era salva-vidas. Diante da negativa, reclamou com firmeza. Aquilo era inaceitável. Onde já se viu? Se eu passar mal aqui? Babau? Quis experimentar entrar na água. Tá um calor da desgraça… Pediu roupa de banho, uma sunga. A moça lhe disse que cada usuário deveria trazer a sua. Ficou indignado e tudo piorou porque foi até a beira da piscina e sentiu a água fria. Como assim? Não tem aquecimento? Um dos chuveiros não tinha água. Estava em manutenção, só que nem isso ele aliviou. Deu um chilique diante da pobre moça, que anotou suas insatisfações. Achou que saiu de deixando impressão de cliente que exige. Nem conferiu a sauna.
Desceu ao salão de jogos no mezanino. Eram dois espaços, separados por uma parede envidraçada. Em um deles, mesas para baralho e jogos de tabuleiro. No outro sinuca e totó. Começou por ali, onde duas pessoas jogavam com tacos. Ele quis participar, mas não lhe deram bola. Né por nada não… essa mesa tá meio velha. E o totó, com os bonequinho tudo acabado? Foi para a outra sala. Primeiro checou a caixa de War, faltando coisa. Como é que joga assim, véi? Desistiu de abrir o Banco Imobiliário. Na mesa de baralho, duas duplas de homens se enfrentavam no buraco. Era um jogo a dinheiro. As expressões nos rostos mostravam tensão. Ele ficou de pé, inclinando o pescoço para ver as mãos dos jogadores. Não acabou bem.
– Qual o seu problema, cidadão?
– Oxe, tô quieto aqui…
– Se saia, mermão. Vaza!
– Peraê… Tô fazendo nada demais.
– Tá surdo, babaca?
– Ei, tá me ofendendo! Assim não dá.
– E amassar tua cara besta, dá?
Foi a última coisa que se lembra de ter ouvido. Foi o que contou na enfermaria do hotel, ajeitando a bolsa de gelo em cima do olho esquerdo. Estava em uma cama pequena cercado por uma enfermeira, Paulo Alberto e mais um funcionário bem jovem. O gerente quis saber o que houve, mas antes que Venâncio, quer dizer Genildo, pudesse falar o rapazinho emendou:
– Foi na mesa de Pança, Seo Paulo.
– Sério?
– Quem é esse?
– É complicado… Por que foi ficar justo lá?
– Ué, só tava olhando.
– Logo na mesa dele?
– Devia chamar a polícia!
– Não, Sr. Venâncio, calma – disse e piscou o olho para Genildo.
– Rapaz, esse tique aí é de nervoso é?
– Hein?
– Tá piscando aí… É toda hora isso?
– Veja, não foi nada tão grave, não é? Vamos esquecer isso tudo?
– Oxe, qualé? E meu olho?
– O médico disse que não teve lesão grave.
– Mas e a muqueta que eu levei?
– Hein? Olhe só, Seo Pança já se retirou – mais uma piscadinha.
– Amanhã ele volta, só digo isso – falou o rapazinho
– Cale a boca! Se ocupe. Sai daqui, moleque.
Convencido pelo gerente, decidiu voltar à suíte. Antes, porém, quis ver as quadras de esportes. Se dirigia para a área externa quando ouviu de uma pessoa que vinha em sua direção:
– Genildo!
Fez de conta que não era com ele e tentou mudar de caminho.
– Genildo, Moqueca! Tá fazendo o que por aqui?
– Falou comigo?
– Oxe, tá doido? Sou eu, Cardoso, rapá!
– Lhe conheço?
– Tá de brincadeira, Moqueca?
– Olhe, me dê licença – falou e piscou o olho para ele.
Paulo Alberto interveio, preocupado com seu “cliente”.
– Ele está lhe incomodando, Sr. Venâncio?
– Oxe, Venan… É o quê? O nome dele é Genildo.
– O senhor está enganado.
– É não, a gente pegou de soldador lá naquela obra do Buraco do Chifrudo.
– Com licença, eu vou ali.
– Ô, Moqueca, peraê, vá não. Então me dê seu zap aê…
– Senhor, preciso mesmo ir.
– Que maluquice é essa, véi. Ó, cê que sabe… Tem um trampo massa lá perto da Serra.
Retomou o destino das quadras. Paulo Alberto andava à sua frente. Aí apareceu outro homem. Genildo ficou abismado. Ele tinha a sua altura e usava uma camisa quase idêntica. O rosto era tão parecido, com aquelas sobrancelhas espessas. Porém, o que assustou mesmo foi a cicatriz embaixo da orelha esquerda e o jeito de passar a mão naquele cabelo escorrido. Oxe, oxe, oxe, será que painho deu algum rolê aqui em Pedra Velha, meu santo? O visitante se dirigiu a Paulo.
– Boa tarde. Venho a mando de Dr. Everaldo.
– Sobre o quê?
– É uma coisa de certificado…
– Certificação! Mas é impossível que seja o senhor!
– Não, sou eu mesmo. Houve um atraso, peço desculpas.
– Está me dizendo que é a pessoa para os testes?
– Roberval, a seu dispor.
Paulo virou-se para Genildo. Ele não estava mais ali. Ainda o viu correndo pelo saguão do hotel a gritar:
– Cardoso, Cardoso, peraê! E esse trampo? Cardoso, véi!!
