(Angélica)
sticar o braço direito e permaneceu um tempo olhando a palma da minha mão. Sua cara não era lá muito boa, em seguida fechou as pálpebras, se não estivesse torcendo os lábios, eu podia dizer que ela estava cochilando. Na hora que a Vilma arregalou os olhos, um outro gato escalou as minhas costas, subiu no meu ombro e foi para junto dos outros, cheguei a gritar. Ela não deu a mínima, continuou com boca de aberta, parecia uma boneca inflável da terceira idade. Até que olhou bem para mim e disse:
– A mão direita é do passado e do presente. Vi que você namorava alguém que era mais ou menos conhecido, não é? Alguém que mexe com arte.
– Sim, isso mesmo. – Nem lembrava mais do meu defunto.
– E foi trocada por outra. O engraçado é que eu estou vendo uma mulher muito alta. Vilma riu e depois perguntou – Do tamanho de uma girafa?
– Quase.
– Fez bem em cair fora e não se rebaixar. Essa mulher é uma peste e o seu ex está muito arrependido.
Só de ouvir isso me conformei de ficar só com as batatas e esquecer o bacalhau. – Bem feito.
– Tem um outro homem aqui, entrou na sua vida faz pouco tempo.
– E espero que não saia.
– Me dá a sua mão esquerda, a do futuro, vamos ver isso agora.
De tão tensa, apertei uns dos gatos e acabei levando uma mordida. Depois de analisar as linhas da minha mão, Vilma fechou os olhos de novo, mas por demorar bem mais, achei que ela estava dormindo.
Só que em vez de um ronco, ouvi o celular dela tocar. Vilma arregalou os olhos e saiu correndo para atender. Foi para algum outro cômodo. Como estava muito silencioso consegui escutar uns trechos da conversa, o que me ajudou também foi ouvido absoluto.
– Ah, advogado. Juliana. E o que mais? Está bem, você é perfeito. Mais tarde, mais tarde.
Que Bisca, pensei, não quis me olhar no espelho, mas tinha certeza de que eu estava branca. Ela voltou com dois cafezinhos, eu agradeci e deixei o meu de lado com medo que tivesse Racumim.
– Me perdoa, querida. Vamos continuar. – Ela puxou a minha mão com tanta força que por pouco não desloquei o braço, meu tronco foi para frente e as cabeças dos gatos ficaram entre a minha barriga e a bainha da mesa.
Depois de uma olhada rápida, ela voltou a fechar os olhos. Ai, meu deus, vai dormir outra vez? Ainda bem que a Barbie de testa lisa deu só uma piscada, logo suas sobrancelhas estavam grudadas no cabelo.
– Esse homem que eu falei trabalha com alguma coisa ligada à justiça, não é mesmo?
– Sim.
– Só que eu preciso dizer uma coisinha. Tem uma mulher com ele.
– Eu sei, ele é casado, mas será que…
– Se você vão ficar juntos? Estão me dizendo o nome dela.
– Quem? Esses gatos falam?
– Juliana. Sebastião e Juliana. Sinto muito, eles não vão se separar. E o Sebastião não vai ficar com você.
Mesmo sabendo que essa mulher era uma impostora, fiquei arrasada. Puxei minha mão, só que a Vilma segurou meus dedos e puxou de volta com muita força dizendo que não tinha acabado. Como os gatos continuavam presos na altura dos meus seios, ao ir mais para frente, ouvi um miado alto. Nós duas nos assustamos. Me levantei depressa, agora em posse da minha mão. O gato rajado e o branco saíram andando, o preto rolou para o chão, não sei se desmaiado ou morto, mas estava molinho. Ela começou a berrar e a puxar o cabelo, não sabia o que fazer. Tinha outra consulta logo mais, o celular dela tocava sem parar. Deu até pena.
– Tem um veterinário aqui perto? Eu levo o gato.
– Você faz isso? É aqui do lado, nesse quarteirão, vou sempre lá.
– Depois trago de volta.
– Aí eu acabo a sua consulta, minha flor.
– Seria ótimo. Quem sabe não aparece outra pessoa para ficar comigo.
– Já posso até sentir, logo mais falo para você. Preciso atender o telefone. Até loguinho.
Desci as escadas correndo, louca para me livrar da bruxa botocada e do gato. Andei o quarteirão todo, não havia nenhum veterinário. Era uma bisca mesmo. Sacudi o bichinho algumas vezes para ver se ele ressuscitava. Pelo menos morreu nos meus peitos. Isso ia me trazer muito azar?
Na lixeira ou de capacho na entrada do prédio? Na lixeira ou de capacho na entrada do prédio? Enquanto eu me decidia, vi uma mulher gorda tocar o interfone. A próxima cliente. Enfiei uma nota de dois reais na boca do gato e fui até lá. Expliquei que tinha ido ao veterinário, não teve jeito, se ela podia, por favor, levar o gato lá para cima. Ela não gostou muito, mas eu também não tinha gostado. Depois mandei uma mensagem para a Vilma dizendo onde estava o pagamento da consulta.
Resolvi voltar de metrô, o trânsito estava infernal. Mesmo assim demorei bastante para chegar no meu apartamento. Só aí eu me lembrei da Tatiana e que ela era doida de tudo. Ia aprontar alguma para o dono da cervejaria por causa de outra doida, só que do mal. Mandei uma mensagem, estava cansada para meia-hora de telefone.
– Tati, não faça nada, preciso falar com você.
Ela não respondeu. Tomei um banho e logo em seguida saí para jantar. Quando o garçom anotou o meu pedido, a Tatiana me escreveu.
– Ninoca, dei uma grana para uns mendigos, eles estão na cervejaria. Dá para ver daqui de cima, todos comemorando, uma festa!
– Vem para cá, acabei de pedir um bacalhau.
