Uma esquina argentina

(Bruno Vicentini)



Tenho algo importante pra te contar, amigo leitor.

Mas antes, fiel à crônica dos balcões de bar e das biroscas da cidade, vou descer do tablado, só um minutinho, pra te falar de um bar de esquina, lá na Vila Marumby. Fica no cruzamento entre duas pacatas ruas de casas, por onde não passam os ônibus. Bem ao lado estão os fundos de um motel, veja só, o único que, em vez de isolado numa beira de estrada, tá logo ali, à mão, pra quando o desejo tem pressa. Isso faz com que as ruas daquela vizinhança sejam muito discretas, ruas do mais profundo sigilo, onde ninguém caminha distraído, assoviando, com as mãos nos bolsos da calça. Na Vila Marumby, numa encruzilhada, perto dos fundos de um motel, existe uma esquina argentina.

Conhecemos esse bar, a Rannah e eu, numa sexta-feira indistinta. Nossos amigos Thiago e Bruna nos esperavam numa mesa na parte de fora, já com a vela acesa – uma cerveja na proa e quatro copos. Tão logo nos sentamos, o dono, Oscar, argentino até o último fio de cabelo escorrido, vem de dentro do recinto com uma caneta atrás da orelha, pra perguntar, sem rodeios, como diabos a gente tinha ido parar ali:

– Certo, os dois aqui me disseram que tavam esperando os amigos. Agora, vocês chegaram. Mas, como? Quem foi que falou daqui pra vocês?

Eu estranho a saudação. Respondo que tinha sido uma indicação de outro amigo, o Astorga, que frequenta, ele sim, a casa. Oscar me olha como se eu tivesse contado uma anedota que ele tentava decidir se servia como indireta. O homem é pura desconfiança. O bar é pequeno, apenas duas mesas pra dentro e uma pra fora. Ele cuida de tudo sozinho e, claro, conhece todos os seus fregueses.

– Marcos. O nome dele é Marcos.

– Marcos? Qual Marcos?

– Marcos Peres.

Não funciona. Oscar desiste de tentar entender a nossa presença no seu bar e passa a nos atender, mas eu percebo que uma pulguinha continua ali, atrás da sua orelha patagônica, junto com a caneta. Ele nos explica que a casa não tem cardápio, mas que ele serve comida de bar argentina – ou, antes, aquilo que nós, os brasileiros, entendemos por comida de bar argentina: empanadas, choripán, um bom chimichurri. A decoração beira um lugar-comum de uniformes de futebol, quadros de tango, o pacote completo. Mas tudo funciona, porque Oscar, e isso fica logo evidente, ama o que faz. Nos mostra uma bola de futebol autografada por Don Dieguito em pessoa, jura que quase seguiu carreira no esporte, tinha futuro, ensaia até umas embaixadinhas na nossa frente, sem pudor algum. Quando traz o nosso pedido, vem da cozinha cantarolando Por una cabeza, sem qualquer afetação. Oscar ama mesmo o próprio país, e é por isso que faz questão de tratar seus clientes, que chegam ao bar dispostos a conhecer um pedacinho da Argentina, com muita simpatia.

As empanadas são ótimas e o choripán, autêntico. Segundo Oscar, quem prova do seu molho chimichurri aprende na hora a falar espanhol, mais ou menos como acontece com o português e a cachaça. Não duvido. No fim da noite estamos os dois, ele de cachaça e eu de chimichurri, comprometidos com a tagarelice, numa charla do mais salvaje dos portunhols. Ele aproveita o ensejo e tenta de novo:

– Marcos, é?

– Isso, Peres.

Eu explico, entrego outras características, auxiliado pelo pentecostes do azeite com limão e ervas. Seu rosto finalmente se ilumina:

– O escritor?!

Confirmo: meu amigo é, sim, o escritor. Oscar fica tão contente que, apesar de nos ter tratado tão bem, parece até um pouco frustrado de não ter nos atendido ainda melhor, agora que sabe que temos um amigo em comum. Corre pra buscar o livro do Astorga na prateleira – uma prova dos nove, àquela altura, já desnecessária. Diz que nunca conheceu alguém que fosse tão fanático por Jorge Luis Borges. Rasgamos, juntos, elogios ao Astorga e à sua camaradagem. Então eu me lembro:

– Ele agora é pai! Tá sabendo? O filho nasceu ontem!

– Que pelotudo, não me disse nada!

O que me leva ao que eu tinha de importante pra contar: eu também, amigo leitor, vou ser pai.

Eu vou ser pai.

Algumas semanas mais tarde vejo numa rede social a foto do Oscar com o Marquinhos, filho do Astorga e da Silvia, no colo. Penso na fortuna que são as amizades. Quando meu filho nascer, quero ter a sorte de também poder levá-lo a um lugar como aquele, onde nos receberão com genuína alegria, um lugar como aquela esquina argentina.

Deixe um comentário