Assim você tem me brincado

Antes quando a gente ficava junto você só pedia pra ver. Desde pequeno você queria ver e ver e ver de novo. Eu não entendia o que era tão interessante assim pra ver porque eu pensei bom se fosse interessante não teria a cueca pra esconder. Como é o caso da orelha, que é menos tímida, fica lá gritando a beleza e as curvas esquisitinhas pra todo mundo. De vez em quando até a cerinha alaranjada aparece. Mas você gostava de ver lá, e era um pouco mais trabalhoso porque eu tinha que tirar a calça e as vezes eu tava até de cinto, porque a mãe reclamava que eu era magro demais e comida nenhuma fazia eu engordar um pouquinho então tinha que te mostrar porque você era sete meses mais Velho então você que mandava. Depois você quis mostrar o seu e eu nem queria tanto assim ver, só um tiquinho, só pra comparar. Como quando eu comparava os cachos do meu cabelo com seus fios bem lisos. Assim você brincava e eu via que o seu era mais escuro e um pouco maior, acho que porque você era sete meses mais velho. Daí muito que bom que você começou a querer relar, já foi logo pedindo pra eu relar no seu também, e a gente se brincava assim todos os dias, brincando de atiçar até que ficasse parecendo um controle remoto de tão durinho. Tinha dias que o meu não ficava duro, mas o seu ficava sempre. E depois começou a soltar uma gosma. Deixava a mão grudenta, eu tinha que ir direto lavar com sabão. Eu não sei como que a gente fazia nos dias que não se via, porque começou a virar nossa brincadeira favorita, mais que Lego ou até que bater bola no campinho da rua de baixo. A gente se brincava assim, bem de pertinho, sentindo a respiração molhada um do outro, sem fazer barulho pra não chamar atenção dos adultos. Porque teve aquela vez na chácara que a Tita viu a gente e contou pra todo mundo e seu pai ameaçou de bater de chinelo, a gente se brincando e a Tita abrindo o berreiro pra gritar e depois fazendo fuxico pra todo mundo. Daí a gente entendeu que era uma brincadeira só nossa, pra ser feita no sigilo, afinal era brincadeira de mão e mamãe sempre dizia que essas são as piores, que alguém sempre acaba machucado. Mas eu pensava que era machucado algo tipo corte. Não achei que era esse sufoco estranho no peito. Esse sufoco desde que você começou a namorar a menina chamada Giovana da quinta série B. E assim que todo mundo já tava falando, que Cícero Vicente tava com namoradinha. E só queria saber de blá blá blá com ela. Na escola, no clube, e até na sua casa quando ela terminava o dever cedo e a mãe dela deixava ficar por lá. E sua família tava feliz e gostava da Giovana. E a gente nunca mais se brincou, e fico preocupado pensando que você esteja brincando com ela, porque você sabe, a anatomia muda e duvido que ela faz tão bem como eu. Eu tenho anos de práticas; mesmo nos dias de enxaqueca, mesma em véspera de prova, era sempre você e eu se brincando assim. Eu acho que você podia ter contado que ia entrar uma terceira pessoa na história. Eu tava disposto a dividir a minha bola, eu não sou egoísta, apesar de filho único, você sabe. Mas o lance é que desde que ela chegou você não quer mais falar comigo, e foi na mesma semana que me chamaram de bichinha na escola. Então eu fiquei mal falado e sozinho. E você ficou com essa namorada gordinha que você arrumou. Você devia ter me falado que ia sumir, talvez seria melhor que me deixar falando sozinho, desligar o telefone na cara, essas coisas que você tem feito. Eu agora brinco sozinho pensando em você, porque não sei pensar em outra pessoa, não conheço outro corpo e nem outro jeito de brincar que não seja o que você me ensinou.

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