O cheiro do primeiro café ainda exala do boteco quando um falatório borbulha na esquina, despertando a vizinhança em torno da grande figueira. O mais exaltado é o taxista Adalberto, que pinga suor até das costeletas grisalhas e dos mullets. Enquanto agita uma mão ao céu e aponta o inferno com a outra, seus colegas tentam frear seu avanço. Logo as calças devem cair, pois sempre afrouxa a fivela do cinto ao se sentar no banco do ponto de táxi para aguardar passageiro. Seu alvo é Eduardo, jovem de óculos, enfiado em uma camisa social larga demais. Atrás de dois policiais militares e um barbudo de capacete de operário, o coitado procura aparentar calma. Mesmo assim, usa sua prancheta como escudo, no caso de precisar se defender de uma eventual muqueta.
Tô há meses tentando resolver essa merda e o vagabundo só vem aqui pra me ferrar. Enfia a notificação no rabo.
Líder dos motoristas do ponto, Adalberto se prontificou a resolver a questão da árvore. Aquele monstrengo de mais de quinze metros de altura e copa densa vive causando o rompimento de cabos de energia. E, muito tempo atrás, suas raízes emergiram do calçamento. Chegou-se a improvisar uma pequena passarela de tapumes sobre um calombo mais robusto. Com certeza, foi por causa dessa figueira que o asfalto engoliu um carro outro dia. Nem taparam o buraco. A figueira não pertence a esse lugar. Cada vez mais inclinado, o corpo periga deitar sobre a rua. Vão esperar que amasse um dos veículos? De jeito nenhum. Se as autoridades não tomam providência, cabe aos cidadãos agir.
Não tem como fazer uma poda sem autorização, seu Adalberto.
O caralho! Mandei mil pedidos. Nunca veio ninguém ver a porra da árvore.
Só a Unidade de Áreas Verdes realiza esse serviço, pra não lesionar o tronco.
Lesionar? E o prejuízo que essa coisa dá pra gente. Cocô de passarinho corrói a pintura do carro. Um galho já trincou o para-brisa do Silvio.
Ainda assim. O senhor não tem o direito de mandar podar a árvore. Cortaram até raiz de sustentação.
São necessários cinco motoristas para conter o velho grandalhão. Parece defesa de time de rúgbi. A dupla de policiais, que por acaso passava no início da discussão, pouco se compromete. Eles apenas mantêm os braços estendidos, encenando alguma autoridade. Com o capacete, o barbudo esconde o riso enquanto Eduardo se encolhe e dá meio passo atrás. Além de três táxis dentro da área do ponto, há outros dois parados mais atrás. Um deles, em frente à garagem de um sobrado. O outro, pouco antes da entrada de um estacionamento, quase ampara a figueira em prantos.
Depois de solicitar várias vezes a poda, por telefone e internet, Adalberto foi atrás do subprefeito. Nunca falou com ele, mas entregou a documentação aos servidores de plantão, junto a uma série de fotos de celular, mostrando que a situação era insustentável. Nunca obteve resposta. Chamou bombeiros, bateu à porta da Secretaria do Meio Ambiente, circulou abaixo-assinado entre os moradores, defendendo a remoção total do monumento verde. Chegou a movimentar o assessor de um deputado em quem nem tinha votado, mas que o primo do vizinho de um amigo conhecia de vista. Nada de resposta. Um cego tropeçou nas calçadas esburacadas, uma velhinha foi atingida no rosto por fruto podre, alguém precisou trocar a calota da roda porque estacionou muito perto da guia erguida pelas raízes. Não teve dúvida. Contratou dois serralheiros por conta própria.
Governo só aparece pra meter a mão no nosso bolso. Tô de olho na indústria da multa.
O certo, seu Adalberto, é esperar. Recebemos solicitação da cidade inteira.
Tenho a vida toda não.
A vistoria fica a cargo de um engenheiro agrônomo. Ou biólogo, como o Michel. Não é, Michel?
Michel já se afastou do confronto e foi conferir o estrago na figueira. Uma árvore desse tamanho, deve ter um século de vida, quem sabe mais. Incrível sobreviver em área urbana, com todas as transformações do bairro. Se fosse em um parque ou praça, com espaço para explorar o solo e abraçar o mundo, tudo bem. Do jeito que está, cercada de piso impermeável e com as águas subterrâneas bombeadas pelos prédios, a bicha ficou sedenta. Não quebrou a calçada à toa, ia sufocar. Talvez dê tempo de aumentar esse canteiro. Os idiotas mexeram nos galhos de forma agressiva, abrindo caminho para os cabos entre os postes. Um pecado. A cidade enterra rios e pendura fios.
Até parece que vou esperar a bosta de um técnico dizer o que posso ou não fazer.
O senhor não precisava fazer nada. Assim que a poda saísse no Diário Oficial…
Diário Oficial? Era o que faltava. Por isso esse país não vai pra frente.
A essa hora da manhã, o trânsito começa a truncar. Com o asfalto cedido de um lado da rua e, no outro, a viatura policial na diagonal, sobra um funil no meio para os carros passarem, bem devagar. Fosse o dia da poda, haveria equipe da CET fechando a rua. Hoje, é tudo no improviso. Michel calcula o ângulo de inclinação da árvore, rodeia o tronco com uma fita métrica, depois mede a distância até o portão da casa, ainda se ajoelha para cutucar as raízes expostas e olha até debaixo dos táxis estacionados. Ao voltar ao debate interrompe Adalberto em uma tomada de ar.
Esses carros têm que sair dali.
Olha, seu botânico sei-lá-o-quê, a dona da casa deixa a gente parar em frente, tá? Ali, ninguém usa a garagem.
Também é bom esvaziar a casa. Por segurança.
Endoidou? Essa merda tá tombada pra rua. Óbvio que a casa não corre perigo.
Não dá pra saber sem ver até onde vão as raízes. Elas podem fazer todo o resto pender de volta, tipo joão-bobo.
Bobo é você. Minha mulher me mata se tiver que deixar a casa.
Sua mulher? O senhor mora ali?
Ex-mulher. É complicado. Ainda mais se ela não tá sozinha.
Quantas pessoas vivem lá?
Difícil dizer. Tem muito entra e sai. Pessoal gosta de discrição, sabe? Se invento de todo mundo sair… Xi, o tempo fecha.
Desde que a casa vizinha pegou fogo e virou estacionamento da noite para o dia, Adalberto e Adelaide não param de receber proposta de compra do terreno. As construtoras já tomaram várias áreas em volta. Sobraram eles. Na verdade, ela, que se saiu melhor no divórcio, pois os bens estavam no seu nome. Ele se conformou com a licença do ponto de táxi e a permissão da ex para estacionar em frente. Além de ter exclusividade para trazer e levar, sem conversa fiada ou fofoca, os frequentadores do lugar: gente rica adepta de um bom e velho swing. Por fora, fachada fria, carente de uma pintura, e janelas de vidro escuro. Lá dentro, ferveção para poucos, em horários nada convencionais. De manhã, por exemplo, no meio de uma semana qualquer.
Seu Adalberto, pra evitar o pior, ou o senhor bate lá ou vou eu.
O velho nem parece o mesmo que cinco minutos atrás soltava lava pela boca. Amansou e diminuiu. Só o suadouro se intensificou. Agora o homem é um chuveiro ambulante. Ele enxuga a cara rosada com a manga da camisa, puxa as calças para cima e fecha o cinto. Demora o crescimento de outra figueira para passar pelo portãozinho de ferro, subir os seis degraus até pequena varanda e apertar o botão da campainha, tão silenciosa que os demais imaginam estar quebrada. Enquanto aguarda, ele contempla a árvore como se fosse uma entidade divina. Se é para cair, que seja sobre sua cabeça, para acabar com seu sofrimento.
Uma portinhola se abre e Adalberto diz algo ao interlocutor oculto na escuridão. Mais um minuto para permitirem sua entrada. Um homem de terno e cabeça de ovo – pelo formato da cabeça e pela ausência de pelagem – observa o grupo reunido na rua e some de novo. Em seguida, dois taxistas se achegam a Michel e questionam se devem estacionar em outro lugar. A resposta afirmativa provoca uma correria digna de parada nos boxes em prova de automobilismo. Já os policiais se posicionam de na passagem dos carros, direcionando o trânsito. Um buzinaço impera. Mais tranquilo, Eduardo respira, livre da surra.
Alguns moradores, a pé, param na calçada oposta. Assistem á movimentação e comentam. Falta pouco para alguém trazer cadeira e pipoca. Cada vez mais gente. No meio da galera, uma mulher faz vídeos com o celular. Heloísa se apresenta como jornalista, diz que mora no prédio do buraco e improvisa a enquete: a figueira deve ou não ficar? Primeiro, essa cratera, agora, a árvore. O bairro só piora. Se dependesse de mim, já teria pulado fora . Estão descaracterizando tudo, nem reconheço a quadra onde cresci. Ouvi falar que querem abrir um shopping. Ninguém consegue parar o progresso. Tem que ver pelo lado positivo: vai trazer emprego e segurança. Se está atrapalhando a população, ela deve ser retirada sim. Já vai tarde. Fora, árvore.
No auge do rebuliço, sem chamar a atenção, um homem se aproxima do portão da casa. Ele tem uns quarenta anos, rosto inchado, muito sono acumulado sobre os olhos, um nariz de batata, cravejado de poros cintilantes. Veste uma jaqueta de couro marrom, com uma estrela grená bordada nas costas, mangas um tanto curtas para seus braços longos. Carrega uma corrente, que passa em volta de uma intersecção do tronco. Após abraçar a árvore, prende com cadeado às costas, na altura da cintura.
Não vai ter corte! Não vai ter corte!
A plateia se agita. Uns apoiam o protesto inesperado. Outros vaiam. Mas a maior parte se mantém neutra, apenas se divertindo com o espetáculo. Os policiais até procuram impedir a invasão da rua, mas é como conter vazamento de um dique em desenho animado. Tapa um furo, surgem outros dois. Os carros não se movem. Eduardo corre até a árvore e tenta abrir o cadeado. Em vão. O ativista continua incitando apoiadores e adversários com a mesma veemência. Um dos taxistas também chega.
Larga disso, Arthurzinho.
Não vai ter corte!
Conhece ele?
Não vai ter corte!
É o Arthur, filho do Adalberto.
Não vai ter corte!
Rapaz, isso é perigoso, vai se machucar.
Não vai ter corte!
Arthurzinho, melhor sair antes do teu pai voltar.
Não vai ter corte!
Se essa árvore cair, te amassa.
Foda-se! Não vai ter corte!
O Adalberto não pode fazer nada?
Vixe, eles nem se falam desde que o Arthurzinho virou Uber.
Adalberto aparece na entrada da casa e se depara com o circo. Sua primeira reação é esconder o rosto. Muitos celulares apontados para ele. Então, reconhece o filho e sua expressão volta ao modo panela de pressão. Adelaide também dá as caras, antes de descer a mão nas costas largas do ex-marido.
Imbecil. Peço descrição e você arma um showzinho bem aqui na frente.
Não é culpa minha, Adê. Os caras me multaram porque…
Ah, foi ideia sua tirar a árvore. Resolve isso.
Mas só mandei dar uma podadinha.
Com que cara eu digo pros meus clientes largarem uma suruba e cair nos braços do povo?
Adelaide volta para dentro e bate a porta, enquanto Adalberto vai ter com o filho acorrentado. Já chega puxando uma das orelhas dele.
Seu moleque traíra. Foi assim que te criei?
Ai, você me criou na rua, dentro de um carro velho.
Cala a boca.
Não vai ter corte! Não vai ter corte!
Os taxistas se unem para imobilizar o velho líder. Mais uma dupla de PMs chega já descendo o cassetete nos mais afoitos. Isso força o resto a se afastar e dois deles escorregam no buraco. Por um instante, as testemunhas deixam a árvore de lado e se voltam ao incidente. Michel aproveita para correr até o porta-malas de seu carro. Em menos de um minuto, volta com um alicate enorme. Sem muita dificuldade, ele esmigalha a corrente. Apesar das tentativas de se agarrar à árvore, Arthurzinho é arrancado do pedestal pela polícia, que o joga com a cara no chão, braços nas costas, algema nos punhos. PMs brotam de todo canto, mas o salvamento na cratera esfriou a turva.
Ninguém percebeu, além do jovem sabiá que, na marra, arriscou seu primeiro voo e deixou o ninho vazio para trás, mas, durante toda essa sequência de eventos, no calor dos debates, das trocas de acusações e das humilhações públicas, sem que fosse necessário um mísero ventinho contrário, algo mudou no cenário geral e levou a grande figueira a se mover três milímetros, não para a via, como sugeria sua inclinação, e sim, no sentido oposto, obedecendo seu centro gravitacional.
No instante em que o filho, colocado atrás da viatura, e o pai, sentado no banco do ponto de taxi, cruzam os olhares, ressoa um estalo seco. O silencio absoluto dura o tempo de uma piscadela e é interrompido pelo rufar de um milhão de tambores. Assim que a calçada explode em um só golpe, os tentáculos de um polvo gigante de madeira se revelam. Ninguém presente emite um grito sequer antes de o asfalto se rasgar na transversal e, como uma catapulta, toda a copa do monstro romper fios e cabos dos postes, gerando uma chuva de faíscas sobre os infiéis. Por fim, quem se atreve a continuar de olhos abertos ainda presencia a fúria com a qual a besta se arremessa, kamikaze, contra o teto do sobrado, fazendo-o ruir por completo.
Do lado de fora, aqueles que não foram digeridos pelas profundezas correm sem olhar para trás. Os penitentes, ajoelhados, permanecem em transe, estátuas de sal, inertes até quando ratazanas em fuga passam sobre elas. Das ruínas, uma dezena de homens e mulheres arrebentam as vidraças e se jogam para fora, com seus corpos nus rubro-acinzentados de gesso, cimento e sangue. Uma água turva jorra do chão, misturando-se no ar à fumaça e à poeira. Assim que o transformador chamuscado se solta do poste e cai sobre o capô do táxi de Adalberto, alarmes de veículos e imóveis disparam em sincronia.
A poucos quarteirões, o único morador da cobertura de um prédio, ainda de pijamas, olha para o horizonte e se pergunta que povo é esse que frequenta uma rave diabólica às nove da manhã de uma quarta-feira.
