por Américo Paim
Segunda-feira, 28 de julho
Uma lembrança me apertou a mente. Tô aqui tem seis meses! Quem me abriu a porta foi o finado Marino, silencioso por causa daquela língua enorme, com a cara velha de olhos esbugalhados e os dentes pra fora. Quatro dedos em cada mão. A esquerda normal e aquela pata direita. Foi no tempo que aquilo me assustava. Ainda sinto pena dele. Foi a transformação que não deu certo.
Dia de aula de psicologia animal. Logo depois do copinho branco, claro. Será que estão percebendo diferença no meu comportamento? Tenho que ficar esperto. Não posso dar na vista.
Hoje eu trabalhei na equipe de alimentação dos animais. Não aguento mais nem pensar nisso. Na ala dos insetos, correu tudo bem. Só as baratas ficaram agitadas por causa de algumas voadoras que chegaram semana passada. Gosto de ver as borboletas. Queria essas asas pra sair daqui.
Elano me ajudou com as aves. Ele tá orgulhoso com os progressos. Queria dizer a ele que não dou a mínima. Fiquei surpreso como suas garras tão grandes. O dedo mindinho tá quase todo atrofiado, os outros começaram a torcer e as unhas já tão escuras. Tem dor nos ossos, mas Dr. Tornelo lhe disse que é natural e que isso ainda vai durar muito. Não reparei nada na pele dele. A mudança deve ser mais para frente.
Os mamíferos sempre com fome. Continuo sem entender de onde vem dinheiro pra comprar tanta comida. As vans dos fornecedores que chegam aqui são estranhas, sem marca de empresa, com o mesmo motorista. Talvez eu só descubra quando for embora. Falta pouco.
Não vi Carloto hoje. Será que tá na reclusão? Ou foi castigo? Dr. Tornelo é capaz de qualquer coisa. Quem esquece as chibatadas que fez o pobre levar, não faz muito tempo, por que mordeu o infeliz do Tijolo? Carloto já tem alterações grandes. É de se ver. As doses dele devem ser fortes. É um cara muito estranho. Me dá um pouco de medo perto dele. Acho que vai virar um cão raivoso.
Leonia segue sem coragem. Precisa fazer o que falei. Tem que parar de tomar os copinhos. Eu tô apaixonado e se ela me quer do jeito que diz, vai embora comigo.
Terça-feira, 29 de julho
Depois da ginástica animal, dei uma rolê pelo jardim. Ainda não achei brecha pra minha rota de fuga. Pelo jeito, vai ser pelo portão principal. Só não sei como…
Tentei de novo entrar no laboratório, sem sucesso. Ninguém coloca o pé ali. Só Dr. Tornelo. O que acontece lá dentro deve ser coisa muito errada. A conversa dele sobre realizar os desejos das pessoas com a transformação é balela. Aqui só chegou gente desesperada, sem saída. Ninguém acha estranho que todos queiram virar bicho? Aonde… Eu, por exemplo, apareci cansado e perdido. Queria comer, beber, um lugar para dormir e no outro dia vazar pra Pedra Velha. Estamos perto da cidade, tenho certeza, mas nunca tinha ouvido falar desse lugar. Como conseguem se esconder assim? Pois bem, tomei do copinho branco e só lembro de querer virar aranha, coisa incrível. O que será que tem naquela poção? Não fosse por Eva me avisar, eu já tava era dominado. E o copinho azul, então? Ali tá a resposta. É aquilo que causa as mudanças, com certeza. É três vezes o tamanho do branco e tem gosto muito melhor. Já pega o trouxa assim.
Eva hoje tava com muita fome e também deu uns passeios. Tenho que ter mais cuidado. Se encontrarem ela, o home manda matar. Só porque ela tem sete pernas e meia. “Não é perfeita”, foi o que ele disse, assim que viu a pobrezinha. Eu nunca deveria ter mostrado, só que me empolguei… Uma aranha tão linda, grande daquele jeito, em pleno jardim. Ainda lembro do que ele falou: “Não é possível uma tarântula-golias nessa região!”. Mandou dar fim. Não consegui. Me conectei a ela de imediato. E se ele descobrisse que eu Eva nos comunicamos? Ela entende o que falo. Não sei explicar, mas é assim.
Quarta, 30 de julho
A aula de fonoaudiologia animal de hoje me assustou. Ver o povo tentando falar como bicho. E o pior é que tem uns que tão quase no ponto. Só tem doido aqui. E a empolgação de Dr. Tornelo? O homem fica malucão, rindo alto, batendo na mesa. Pancadaço.
Leonia não quer saber de sexo comigo. Nunca transei com uma mulher que quer virar pantera. “Não pode ter relações, Beto”, disse que tá no regulamento. Pior é que tá. E aí, faz o que com o tesão? Ela precisa é tirar esse lugar da cabeça. Isso é de se viver? É nada… Ela e os outros, aliás. Tão pensando que quando se transformarem por completo o miseravão vai deixar ir embora? Duvido. Vai todo mundo apodrecer aqui. E se a transformação não funcionar? Olha o Marino, coitado. As coisas ficaram pela metade, envelheceu mais depressa e tá morto. Será que ninguém vê isso? Vou perguntar na próxima aula de transformação animal.
Quinta, 31 de julho
Acho que Dr. Tornelo tá pegando desconfiança. Desde que tô aqui foi a primeira vez que entrei no escritório dele. Que sala grande, viu? Um monte de quadro na parede, livro, bicho empalhado. Até uma geladeira. Ele fica muito tempo ali. E os canarinhos amarelos? Francisco e Gregório. Olha só que coisa: deixa tudo em jaula e os bichinhos dele tudo criado solto, sem gaiola. Será que ele quer virar passarinho? Porra niúma. Ia querer no mínimo uma águia ou outro grandão. Me disse que tá estranhando que minha evolução tá devagar. Vai mudar minha dosagem. Se soubesse que não tomo mais nada faz tempo… Menti que me sinto estranho e muito atento, essas coisas de aranha, pra ele me deixar quieto.
Foi um exagero o castigo que deram em Sarapito. Se o home quer virar serpente, não é normal comer os pintos da granja? Tudo bem que tavam vivos, mas não é essa a ideia? Bateram nele demais. Dava pra ouvir os gritos e o choro. Isso tá errado. Quando sair daqui vou denunciar na polícia. E o Doutor dizer que “a disciplina precisa ser mantida”? Debaixo de broca? Lá nele…
Preciso achar um jeito de passar por cima de Gorgulho. O home não sai do portão principal de jeito nenhum. Aquela mistura de macaco e homem parece que nunca dorme nem come. Toda hora que eu olho, ele tá por lá. Deve algum remedinho especial. E se eu perguntasse por que ele nunca descansa?
Sexta, 1º de agosto
Carloto foi transferido pra uma jaula. Eva entrou por uma falha no teto e viu tudo. Ele já tá de orelha grande e não fecha mais a boca por causa dos dentes crescidos. Faz um som que parece latido. Taí, isso eu queria ver de perto.
Os braços de Leonia tão ficando pocados e tão crescendo uns pelos. A pele continua branca, mas a voz tá mais grossa, coisa pouca. Pedi de todo jeito que pare com os copinhos. Pelo menos com o branco, o que dá leseira e que a gente perde a vontade. Ela me disse que Dr. Tornelo não sai de perto até ela tomar tudo. Diz que a pantera é a experiência mais importante. Ela tá cada vez mais assustada. Falei que comigo funcionou parar de tomar os copinhos. A cabeça ficou boa, não tive mais reação e a transformação parou de vez.
No fim da noite, olhando Eva, percebi que ela cresceu de uma forma estranha. O abdômen está maior. Fui dormir com a cabeça na minha fuga.
Sábado, 2 de agosto
Eva tava estranha hoje, desde cedo. Segue crescendo a barriga, sem se comunicar mais.
Reparei que o povo mal tá falando comigo. Só uns olhares estranhos e as conversas pelos cantos. Agora, Dr. Tornelo andou foi muito amiguinho. Me perguntou se meus reflexos melhoraram e tal e coisa. Conversa esquisita. Marcou comigo no escritório dele amanhã cedo.
Domingo, 3 de agosto
Foi uma surpresa no escritório. O home não tava sozinho. Elano, Leonia e Gorgulho, todo mundo lá! Primeira vez que o vi o monstro longe do portão. Leonia tava com cara de choro. Lhe perguntei, mas só o Doutor falou. Soube que eu tinha uma aranha. Foi ela quem contou. Traíra… Queria saber por que o animal não tava junto com os outros e porque as outras aranhas sumiram tudo. Fiquei foi calado. Contou que alguns pássaros desapareceram e não foi porque fugiram. As gaiolas tavam fechadas. Gorgulho confirmou que ninguém entrou ou saiu da propriedade. Eu só ouvia, fazendo de conta que não era comigo. Quando percebi que os canarinhos do home não estavam lá, ouvi sua voz: “Sim, Gregório e Francisco também não estão aqui. O que tem a me dizer, Beto?”.
Enrolei e saí da sala sem dizer coisa com coisa. Fui atrás e encontrei Eva escondida no fundo do quintal, atrás de umas caixas e outros bagulhos. Me assustei. Tava gigante, quase do tamanho de um cachorro! Ela vinha tomando a mesma coisa dos copinhos do Dr. Tornelo. Descobriu onde ele guarda. Confessou que queria virar gente. Comeu os pássaros, incluindo os canários. Eu falava e ela confirmava tudo. Libertou as aranhas? Sim. Entendi de vez que era hora de ir embora. Gorgulho chegou e nos pegou no flagra. Vinha pra cima de mim, mas foi contido por um salto veloz e mortal de Eva. Quase não teve luta e foi um horror ver o veneno paralisando e o monstro sendo mordido pela aranha. Dr. Tornelo viu também, da janela atrás do prédio. Ele gritava: “Assassino, assassino”.
Logo deixei Eva por lá, voltei para o prédio e andei com pressa pelos corredores, abrindo portas e gritando por Leonia, sem resposta. Ela não estava no quarto dela e nos demais só o povo dormindo. Esqueci que tava todo mundo dopado, o tal do descanso semanal. Lembrei do laboratório. Entrei lá e o Doutor tava com um revólver na mão. Leonia em uma cadeira, torniquete no braço, desacordada. Ele deu alguma coisa pra ela. Ele gritava: “Você matou meu filho, seu desgraçado! Pensou que ia ficar assim?”. Corri, mas ele atirou. Só me lembro de uma grande explosão.
Na hora que acordei, tava no meio do mato. Ainda vi a fumaça preta subindo no local onde estava o prédio. Eva tava do meu lado.
Segunda-feira, 4 de agosto
Cheguei na cidade. Fui logo atrás de jornal. Li a manchete na Tribuna de Pedra Velha: “Explosão e incêndio na Serra. Sem notícia de sobreviventes”. Encontrei mais detalhes: “… vários corpos carbonizados ainda sem identificação…”, “… um homem usando um crachá que só se consegue ler Dr. T e outro de aparência muito estranha, foram dilacerados, ao que parece, por mordidas. Polícia acredita em algum animal silvestre”.
Fui até a pet shop e comprei uns passarinhos. Fiquei morrendo de pena, mas Eva ainda segue faminta.
