Lucas estacionou o Gol na entrada da cidade. Fazia duas horas que percorria a estrada desde Caracol, tendo cruzado com poucos veículos que também desviavam dos buracos. Buzinava ocasionalmente para os sertanejos sentados sob as árvores isoladas para vencer o tédio. Ao longe, à direita, uma parede de rochas conferia um ar marciano à paisagem do interior do Piauí.
O arco pintado de azul sobre sua cabeça informava que ele tinha chegado ao seu destino. Lucas leu em uma revista que Guaribas tinha sido o piloto do Programa Fome Zero dez anos antes, em 2003. Imaginou que a população já teria a essa altura guardado um bom dinheiro no colchão.
Saiu do carro, certificando-se de que não havia ninguém perto o suficiente para ver o estoque de tapetes no porta-malas. Ainda não era hora do show. Da maleta de couro pescou uma toalha, com a qual limpou a poeira que grudava na testa e nos braços. Também retirou uma camisa branca e a vestiu por cima da camiseta manchada de suor.
Conduziu o carro até as únicas pessoas à vista. Eram dois homens com mais de sessenta anos sentados sob a cobertura de telhas de um mercadinho.
“Ola. Hablas espanhiol?”
“Oxe, é gringo”, declarou Abdias, o que coçava o dedão do pé.
“Positivo”, confirmou Diomedes. Usava uma jaqueta da polícia militar e calça listrada de pijama.
“Estoy a busca de pousada nesta bela ciudad.”
“Pousada aqui não tem, não, moço. Tem hotel.”
“Si, por supuesto.”
Abdias gritou para dentro. Uma mulher perto dos cinquenta anos e de aspecto vivaz apareceu enxugando as mãos num pano de prato.
“Ô, Mercedes, vê se entende o que esse gringo fala.”
“Gringo?” O rosto dela ficou iluminado. “Mas se não é o doutor estrangeiro que o prefeito disse que vinha!” Antes que o recém-chegado tivesse reação, pôs a mão em seu ombro e o conduziu para dentro da venda.
“Dona Mercedes, no es? Jô não…”
“Por favor, seu moço…”
“Lucas.”
“Seu Lucas, deixa eu dizer como funciona. O prefeito está fora, mas me deixou encarregada de receber o médico do programa. Ele disse que a hospedagem e as refeições no hotel vão ser por conta da prefeitura, ou seja, fora do salário.”
“Salário?”
“É, do Mais Médicos. Me disseram que é dez mil. O senhor vai ganhar mais que o prefeito!”
“Vou?”
“Vai. Eu sei porque sou a enfermeira do postinho. O mercadinho aqui é do Abdias, meu marido.”
“Sei…” Lucas resolveu entender melhor a situação antes de falar qualquer coisa.
“Vamos fazer o seguinte: o senhor vai até aquele predinho ali e diz que já falou comigo. Se refresca, almoça e depois passa no posto de saúde que eu mostro tudo.”
Lucas concordou com o arranjo. Um bom banho e um prato de comida iam fazer bem depois do que passou em Petrolina. Além de não vender nenhum tapete, havia sido escorraçado por um delegado que não aceitava arreglo. Definitivamente, o Nordeste brasileiro foi uma péssima escolha para desovar o carregamento que ele havia trazido de Ciudad del Este.
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Lucas chegou ao posto de saúde vestindo calça bege e a mesma camisa de antes. Mercedes o recebeu paramentada de branco, incluindo a touca com uma cruz vermelha no centro. Apresentou “o médico cubano do programa” à pequena equipe: porteiro, secretária e ajudante de limpeza. O homem respondeu aos cumprimentos com monossílabos.
“O senhor só fala cubano?”, quis saber Reginaldo, o porteiro.
“Bien, puedo arriscar el portunhol”, respondeu Lucas.
“Deixa o doutor trabalhar, Reginaldo”, cortou Mercedes. “E é espanhol, não cubano.”
“Mas você disse…”
“Ele é de Cuba mas fala espanhol, criatura!”
Mercedes conduziu Lucas até uma sala nos fundos onde havia uma escrivaninha, duas cadeiras com assento de palhinha e uma cama de ferro. Um jaleco branco e um estetoscópio estavam pendurados no mancebo. As duas janelas laterais mantinham o lugar claro e fresco.
“Como ninguém ainda sabe do senhor, não vai ter atendimento hoje. Mas amanhã…” Mercedes explicou que, desde a morte do antigo médico itinerante, os moradores precisavam viajar mais de cem quilômetros, até São Raimundo Nonato, para uma simples consulta.
“O doutor Ramos era uma ótima pessoa, mas já estava bem velhinho. Me ensinou tudo o que sei hoje, de tirar sangue a encanar braço e perna.” Acrescentou: “E não se preocupe que eu estarei sempre ao seu lado para traduzir o que esse povo fala. Tem vezes que nem quem é nascido na terra entende.”
Quando ficou sozinho, Lucas avaliou os riscos de continuar com aquela comédia de erros. A carne-de-sol, o chuveiro elétrico e os dez mil deixavam leve um dos pratos da balança de sua decisão. Na outra bandeja, porém, pesava demais a possibilidade de um processo por charlatanismo ou, pior, uma boa surra de pau. Decidiu pela fuga – à noite, depois do jantar. Já se preparava para voltar ao hotel quando ouviu batidas tímidas na porta.
“Desculpe incomodar, doutor, mas apareceu uma emergência”, informou a secretária, os olhos no chão.
Aturdido ao chegar, Lucas não havia prestado atenção na mulher à sua frente. Jovem, morena, as bochechas rosadas denunciando o acanhamento por incomodar um superior na hierarquia. Seus lábios vermelhos contrastavam com o vestido verde que mal continha a abundância de curvas. O homem ficou calado até que ela levantou a vista e devolveu o sorriso.
“Voy avaliar o casso, dona Soraia. A senhora puede jamar la enfermera Mercedes para acompanhar-me, por favor?”
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Um homem sujo de terra entrou mancando. Lucas quase desmaiou ao perceber que o pano amarrado em sua coxa pingava sangue. Sem saber como proceder, levou a mão na direção do estetoscópio pendurado. Mercedes se interpôs e mandou o homem se deitar.
“Fique quietinho para não sangrar mais”, comandou com voz firme. “O doutor vai instruir o procedimento.”
Chamou Lucas e pediu que supervisionasse enquanto ela aplicava a anestesia. Em seguida, perguntou se ele concordava que vinte pontos bastariam para fechar o talho provocado pela foice mal manejada.
“Sssim…”
Mercedes saiu da sala. Voltou um instante depois empunhando agulha e fio cirúrgico.
“Agora fica quietinho que vai doer só uma cutucadinha de abelha”, disse para o acidentado.
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Depois do jantar, Lucas saiu para fumar no terraço do hotel, o único prédio com dois pavimentos da cidade.
“Boa noite, doutor. O calor não passa nem de noite, né?”
“Es verdade, senior Diomedes.” Havia reconhecido o policial aposentado, que caminhava pelo meio da rua balançando um cassetete.
“Facendo la ronda noturna?”, perguntou.
“É isso mesmo. Mesmo depois do Bolsa Família, ainda tem ladrão de galinha por aqui. Se pego um deles, ó!” Fez o movimento de esmagar uma cabeça imaginária.
Naquela noite, os sonhos de Lucas foram assombrados pelo cassetete de Diomedes. Era tão pesado que desequilibrava a bandeja negativa de seu destino. Acordou ensopado de suor e só recuperou a calma ao evocar a boca de Soraia, vermelha como uma flor da caatinga.
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Lucas pulou da cama cedo, vestiu-se e saiu para o posto de saúde. Viu o porteiro chegar e depois Soraia, que trazia uma garrafa térmica.
“Bom dia, dona Soraia. Um cafezito ia cair bien.”
“O meu pó é melhor que o do posto”, justificou ela.
“Non tengo dúvida.”
Beberam conversando na copa. Ela contou que morava em uma pensão porque o sítio dos pais ficava longe. Disse de sua vontade de estudar enfermagem em Salvador. Estava só esperando sair uma licença-prêmio a que tinha direito para se matricular.
Lucas observou-a abrir a primeira ficha do dia: um menino pálido trazido pela mãe. Mercedes deu bom-dia e seguiu em direção ao armário de medicamentos. Ao chegar a sua sala, Lucas viu um frasco de vermífugo sobre a mesa. Perguntou à mulher se o menino tinha bebido água direto da cacimba. Com a resposta afirmativa, entregou-lhe o frasco, pedindo que perguntasse as instruções de uso para a enfermeira.
O dia transcorreu sem maiores contratempos para Lucas. Atendeu doze pacientes, sempre com Mercedes por perto sugerindo a melhor solução para cada caso. Ele percebeu que alguns apareciam só para conhecer “o doutor”. Queixavam-se vagamente de algum mal-estar sem importância, bebiam um copo de água gelada ou um cafezinho e voltavam para seus afazeres com a alma mais leve.
A rotina fez bem para Lucas. Cansado da vida instável de mascate, acostumou-se rapidamente à rotina de três refeições diárias e cama limpa. O contato com os pacientes ficava cada vez mais fácil. Os casos leves se resolviam com a intervenção de Mercedes. Se o doente apresentasse alguma complicação, Lucas até servia de motorista, transportando-o no próprio Golzinho para o hospital em São Raimundo.
“O senhor engordou neste mês”, disse Soraia durante a pausa para o café.
“É que sou bem tratado por todos aqui,” respondeu Lucas fixando os olhos na moça.
“Até o sotaque sumiu”, comentou ela, sustentando o olhar.
Ele conteve o impulso de revelar que só imitava o acento dos paraguaios que conheceu no interior do Paraná, no passado. Um vulto vestido de branco passou no corredor. Mercedes tinha a expressão fechada, como Lucas ainda não tinha visto.
De volta a sua sala, encontrou um envelope repleto de notas de cem reais e um bilhete: “Tomei a liberdade de passar no banco para sacar seu salário”. Sob o envelope descobriu uma cópia de e-mail: “Temos a satisfação de informar que o doutor Samuel Garcia, médico formado pela Universidade de Havana, aceitou o convite do Programa Mais Médicos e passará a dar expediente na cidade de Guaribas. A chegada do profissional está prevista para amanhã, no horário regular do ônibus intermunicipal”.
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Ainda estava escuro quando Diomedes saiu de casa para a ronda matinal. O ar já era abafado. O veterano levava o cassetete em uma mão e o farolete na outra. Logo no início do trajeto, percebeu uma sombra diante do mercadinho de Abdias. Dirigindo o facho de luz para a soleira da porta, descobriu que se tratava de um tapete. Era avermelhado e tinha desenhos geométricos ─ tapete persa, como o pessoal dizia.
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O Gol seguia sem pressa na estrada para Caracol. Lucas reduziu a marcha para transpor uma valeta. Olhou sobre o ombro esquerdo e viu que a borda superior do maciço rochoso começava a ser iluminada pelos raios da manhã.
“É Serra das Confusões que chama, né?”
“Sim. Por causa das cores”, explicou ao seu lado Soraia, que usava o mesmo vestido verde de quando se conheceram. “Tá vendo que varia do branco para o vermelho quando o sol bate? Dizem que isso confundia os viajantes.”
“Pois para mim foi o contrário. Acho que a serra corrigiu a confusão da minha vida.”
