é fantástico!

    Você não me apareceu num campo com grama seca perto de alguma cidade mineira e nem veio pela janela, como costumam narrar. Você chegou em mim pela televisão quando o programa popular de domingo à noite cismou com consequentes reportagens sobre sua existência e a dos seus amigos. Além do mais, você não veio sozinho. Quem te acompanhava era a loira do banheiro e o chupa-cabra. Um trio parada dura capaz de desencadear os primeiros sintomas de transtorno de ansiedade em uma criança de oito anos. Mas de todos eles você se fez o mais presente na minha vida. A loira morava no banheiro da escola e só apareceria se eu optasse por visitar o sanitário coletivo e o chupa-cabra por ora não passeava em áreas urbanas. Então sobrou pra você invadir meu quarto e meus pensamentos. 

    “Eles têm um super poder que faz com que as unhas do seu pé e da sua mão brilhem e também faz com que você consiga acender a luz com a força do pensamento”, foi o que me disse que Alessandra na segunda feira no intervalo, quando discutíamos as imagens e os dados do Fantástico. A Alessandra era a prima da Gabi, minha melhor amiga, e um ano mais velha do que nós, logo deveria saber de todas as verdades do universo. Aquela foi nossa noite de núpcias. Me desnudei de qualquer sensatez e decidi que de agora em diante dormiria com as unhas do pé e da mão escondidas. A do pé era moleza, só esconder sob os lençóis. As da mão tinham que ficar embaixo dos travesseiros. Logo meu kama sutra de posições para dormir ficou limitado. Demorei a pegar no sono testando a cada minuto se eu conseguia ligar a luz com a força da mente – e falhando.

    Sua aparência seria óbvia: cabeça grande, olhos imensos, cor verde, estatura mediana, voz esquisita. Imaginei quais seriam nossos diálogos. Você ia querer me levar pro seu planeta? Ia me separar da minha família e dos amigos? Ia implantar um chip sob minha pele e controlar minhas ações, me obrigando a matar pessoas, dominar nações e por último e menos importante, fazer as luzes do meu quarto se acederem?

     A Alessandra saiu de cena num acidente trágico que tirou sua vida aos 23 anos. Mas nem mesmo a morte de quem me contou o causo foi capaz de me tirar o hábito de dormir com os dedos escondidos. Quase 25  anos depois, ainda me contorço como uma ginasta do Cirque do Soleil para esconder carpos e metacarpos. A irracionalidade ainda me pega no colo e me aninha como se eu fosse aquela menina assustada tentando sozinha lutar contra seus OVNIs.

     Tola que fui. Como seria bom ter um amigo nas noites insones. Como seria legal – embora evolutivamente inútil – ter as unhas brilhando. Como eu gostaria de voar por aí, conquistando territórios, aniquilando os inimigos, que agora são maiores e em maior número do que naquele tempo. Desculpa ter lutado tanto contra sua presença. Gostaria gentilmente de pedir que me visitasse numa dessas noites quaisquer. Não vale rir da posição em que eu vou estar deitada. Ou vale. E se encontrar a Alessandra por alguma galáxia, avisa que vai ficar tudo bem.

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