Mefinho

por Américo Paim

Vou contar a verdade sobre esse caso tão antigo. É assim que me lembro dele. Talvez publique.

Em uma manhã de sexta-feira, meus tios chegaram lá em casa com suas filhas pequenas. Eu já sabia o que fazer: buscar no meu quarto os brinquedos velhos, para elas passarem o tempo. Estavam com cinco e quatro anos e eu com doze. Peguei a caixa de papelão na parte superior do armário que ficava ao lado da estante de livros e revistas. Quando a coloquei sobre a cama, fui surpreendido. Uma voz vinha de dentro da caixa. Me aproximei com medo, não vou mentir. Olhei cuidadoso e só vi restos de coisas, bolas de gude e miniaturas de plástico.

– Me tire logo daqui. Venha me pegar.

– Oxe, de jeito nenhum! Quem é?

– Aqui, embaixo do índio vermelho.

Era um boneco antigo de plástico duro, sem articulações. Não lembrava que pertenceu a mim. Com uns quinze centímetros de altura, pintado, com cara estreita, boca enigmática sem sorriso, olhos meio mortos e uma camisa amarela, como as de botões. A calça era azul e os sapatos foram marrons um dia. Estava de pé, em pose esnobe, sobre uma base verde que simulava grama. Umas partes descascadas revelavam que, por baixo da tinta, ele era vermelho. O coloquei sobre o móvel de cabeceira. Levei os brinquedos para as crianças e voltei. Me sentei na cama. Foi bem estranho porque conversamos. Eu ouvia tudo, mas o boneco não se mexia.

– Eu tenho uma missão, menino.

– É o quê?

– Dar um fim na sua lerdeza.

– Entendi não.

– Meu caro, lhe conheço bem.

– Oxe, se nunca lhe vi antes?

– Me viu sim, em outro lugar. Na casa de Bira.

– Óia… Lembro não. Como é que veio parar aqui?

– Ele morreu e meu trabalho acabou.

– Seu o quê? O que cê tem a ver com a morte dele?

– Não estamos aqui para discutir meu currículo.

– Oxe, conversa doida. Quem é você?

– Tenho muitos nomes, mas pode me chamar de Mefistófeles.

– Mefi o quê?

– Mefinho fica mais fácil. Sou um diabo júnior.

– Eu hein… Gosto de alma não. Veio me assustar, foi?

– Ao contrário. Vai gostar de como vou mudar sua vida.

Não me deixou falar mais nada. Me contou que ia acabar com a pirraça dos outros meninos, a perseguição, as chacotas e ainda me fazer popular, até com as meninas. Achei foi bom. Um boneco falante me dizendo quase tudo que eu queria ouvir? Concluí que só ia ter benefícios com ele. As coisas começaram a melhorar para mim, até então o tímido, o devagar, o leso, um medroso profissional. Na escola, em casa, na vizinhança, tudo ficou interessante. Eu só precisava carregar ele comigo, dentro do bolso. Me acostumei com ele por perto. Ninguém o via.

 

Mefinho me passou muitas manhas. Em casa, meu comportamento mudou, ganhei confiança. Com respostas na ponta da língua, passei a sedutor e malicioso. Meus pais estavam felizes, mas nada percebiam. Joaquina, nossa empregada, foi a única com olhar mais preciso: “ele tá com encosto”. Meu pai arrotava que eu tinha puxado a ele, coisa que sempre negou antes. Minha mãe achava que tinha menina no pedaço. Aliás, essa foi uma das maiores transformações. Tão rápida que custei a acreditar. As garotas até me olhavam agora. Antes, só me ignoravam e esculhambavam minha aparência: cara fina e magra, nariz pontudo, mãos grandes, expressão descrente de tudo. Eu só servia para trabalhos e provas. Implicavam até com meu nome, detalhe que nem Mefinho aliviava.

– Fenelon… Seu nome mostra como seus pais gostam de você…

– Você acha mesmo?

– Isso foi uma ironia, por favor. Sabe o que é isso?

– Hum… Só sei que é uma homenagem a alguém antigo da família.

– E um peso para carregar.

– Não é uma cruz que fala?

– Não trabalho com isso, já lhe disse. É coisa do outro pessoal.

– Foi mal…

– Vamos no concentrar no tal menino. Me explique melhor.

Ele falava de Aurélio, colega da escola que implicava com tudo meu: roupas, andar, voz, não perdoava nada. Como mudei de atitude, passamos a nos pegar com frequência. Eu não aceitava mais as brincadeiras e a pressão dele e de sua turma. Ele não ficou feliz ao notar amigos comuns se aproximando de mim. Eu era o inteligente bacana. Sempre fui das boas notas e agora estava popular, envolvido com esportes, passeios e não raro organizando armações contra os professores. A liderança dele balançava. Tudo isso em poucas semanas com Mefinho.

Foi nesse contexto que aconteceu o tal caso.

Era fim de tarde de uma quinta-feira, após a última aula. Eu caminhava para o ônibus da escola e Aurélio veio com sua gangue. Fui cercado no corredor. Queria acertar as contas de uma vez. Deixou claro que era ele o único líder da turma. Eu, confiante, provoquei que era para resolvermos ali mesmo. Foi o que ele queria ouvir. Desafiou: uma briga limpa, um contra um. O perdedor pediria para sair da escola. Me surpreendeu com o lugar escolhido: a Serra, no sábado. Eu não gostei da ideia. Ele retrucou que eu estava era com medo. Cedi, mesmo desconfiado que devia ser uma armadilha. Mefinho me orientou.

– Ótima oportunidade.

– E se ele armou alguma?

– Se prepare para o jogo sujo, ora.

– Vai ser uma briga limpa.

– Nunca é. Tá ficando mole de novo?

– Não é isso…

– Leve o canivete de seu pai.

– Oxe, tá louco? Sei usar isso não.

– Na Serra tudo acontece. Não vacile.

No sábado, apesar dos conselhos de Mefinho, passei o dia com medo. No fim da tarde, disse a meus pais que ia andar de bicicleta. Com o dinheiro que afanei da carteira do velho, técnica que o diabinho me ensinou, peguei o ônibus. Cheguei à Serra. Ninguém na entrada oficial, que conhecíamos dos passeios da escola. Entrei e segui por uns dez minutos, até a marca de dois quilômetros para a Pedra do Asteroide. Virei à esquerda na picada que levava até a Clareira do Zumbido, onde seria a luta. A cada passo minha energia enfraquecia. Os braços tremiam e o estômago revirava. Pensei em propor uma conversa (era meu antigo eu falando) com Aurélio. Consultei Mefinho, que me deu bronca. Desisti. Seria vergonhoso.

Cheguei ao local ainda com luz. Era mata rasteira, cercada de árvores grandes e pedras. Ninguém nos veria ali, o que me trouxe desconforto. Fazia um frio esquisito e ouvia-se o zumbido clássico. Uns diziam ser o vento passando pelas frestas das árvores e outros que são os mortos chamando, pois o lugar era amaldiçoado. O tempo passando e nada de Aurélio. A noite se aproximava, meus pais iam me matar porque não falei nada para onde ia e ainda tinha a briga, que eu não sabia como seria o final. Pensava nisso quando do meio do mato, do lado oposto ao meu, apareceu um menino. Devia ter a minha idade. Usava uma camisa amarela, quase igual à minha. Gritou de lá seu nome: Venâncio. Carregava uma gaiola. Devia estar caçando passarinho. Veio em minha direção com sorriso honesto, mas ouvimos um rugido. Logo veio outro, mais alto e perto. Nervoso, o garoto correu, passou direto por mim, para a trilha por onde cheguei, gritando: “corre que é ele”. Hesitei, porém, no terceiro urro, fui pelo mesmo caminho e vinte metros depois, quase caí duro ali mesmo. À minha frente, um monstro pavoroso, mistura de lobo com homem, enorme, preto e peludo, garras e dentes que me paralisaram. Seu olhar redefiniu meu conceito de pavor. Apenas virou-se e sumiu lento no meio da mata, a tempo de eu contemplar a imensa boca transversal em suas costas, devorando o resto do pobre Venâncio, engolindo os sapatos sujos de barro que ele usava. Caí de joelhos, todo mijado, a boca temendo, mãos e pernas fora de controle. Mefinho voltou a falar.

– Criatura admirável, o Quibungo.

– Véi, o que foi aquilo, pelamordedeus?

– Lá vem… Só chama pelo outro pessoal…

– O que vai acontecer?

– Nada. Vão falar que o menino desapareceu.

– Mas e corpo?

– Cadê? Sobrou alguma coisa?

– E por que o monstro não me atacou?

– Ah, já devia estar sem fome.

– E agora, o que eu faço?

– Vamos para casa.

– Assim, fácil? Acha que vou esquecer isso?

– Estarei por perto para lhe lembrar.

– Véi, o menino morreu…

– Tá de recaída, é? Para mim é indiferente.

– O quê? Como pode falar isso?

– É a realidade.

– Eu quero é que vá embora! Você nunca foi meu mesmo. Eu não pertenço a esse mundo.

– Nem a nenhum outro. Você pertence a mim.

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