No aperto – Yan

1.
Caro Homem De Cabeça de Chave-Inglesa,

sonhei contigo depois de tanto tempo. Estava no meu quarto, esparramado no meu king-size, o ar condicionado de gelar Bangu no verão, minha mulher roncando entre mim e a babá eletrônica na mesinha de cabeceira. Enrolado no edredom de pele de onça feito um sheik e dormindo o sono dos safos – que é muito melhor que o dos justos –, eu sonhei contigo. Estava no meu quarto, meu segundo andar da beliche, minha irmã muito pequena pra roncar, eu no meu corpo de agora no aperto da cama. Minha mãe me deu um beijo e fechou a porta, porque eu ainda não pedia pra deixar uma fresta de luz, só tinha medo de gambá e meu pai tinha um revólver pra ladrão e dizia que era pra gambá. Estava no meu quarto esperando o sono dos inocentes – que é o pior de todos – e você entrou.

Seu corpo não me lembrava o de ninguém e até hoje se fecho os olhos é como se você tivesse o chassi de um homem que nunca vi. Mas mal olhei pra sua lata e lembrei do meu pai me proibindo de mexer na ferramenta preferida dele, que não era pro bico de menino folgado. Você, com sua cabeça cromada e a bocona ferrenha, era uma 3×4 gigante da chave-inglesa que meu pai beijava sempre que abria a caixa de ferramentas. Eu até achei que fosse meu pai entrando, mas lembrei que ele era vigia noturno. Pensei, pronto, ele levou o revólver – que também me proibia de mexer mas que nunca beijava – e entrou um ladrão pra me roubar.

Mas você não era estranho, isso eu percebi assim que te vi se agachar entre o armário e a porta. Sua cabeça cromada reluzia no escuro e eu conseguia te ver me observando. Eu gritei por minha mãe e tudo continuou em silêncio. Até que você escancarou sua bocona  e disse: “Vem cá me dar um beijinho, vem”. Sonhei contigo faz poucos dias, exatamente como sonhei pela primeira vez quando tinha quatro anos de idade. E, pela primeira vez desde que sonhei contigo pela primeira vez, acordei e quis voltar a dormir.

2. 
Sempre sonhei em me soltar por aí – e sempre soube o meu lugar. Fazia o que tinha de fazer. Aguentava o fedor de assadura e golfo azedo, me agachava entre o armário e a porta e passava noites inteiras no aperto, de boca aberta. Pra minha sorte eu tenho queixo duro, então podem me contar qualquer coisa que não me choco.  É verdade que não vi muito nos primeiros anos de vida além dos olhos medrosos do menino. Claro, nunca quis beijo nenhum, mas o menino era o patrão e o freguês. E eu, sem falsa modéstia, sei dançar conforme o trauma.

A diretora da escola chamou a atenção pros desenhos que ele fazia de mim, sempre horríveis. O pai ameaçava me chamar sempre que ele começava a fazer birra. Já a mãe rezava seu sono e fazia promessa de dar doce no dia de São Cosme e São Damião, que mandaram Doum atrás de mim. Depois vieram eles mesmos, viram minha situação e disseram:

“Que cruz carregas, filhinho”.

“É só labuta, chefia”, respondi.

O pagamento era a cama molhada; as olheiras marrons do menino antes de chegar à puberdade; e as vezes em que passou cola bastão nas pálpebras. Também visitei outros lugares, como a sala de aula lotada, o castelo de Harry Potter e o seu primeiro sonho de sacanagem no carro da professora de português. Mas, no fim das contas, por natureza não gosto de escangalhar nada. Sabia o meu lugar, mas pensava: já deu minha hora, me libera, dodói.

Aí os pais dele se separaram e começaram a aparecer mais do que eu, ora tentando dividi-lo ao meio com uma tesoura sem ponta, ora fugindo os dois pra lua. Eu comemorei, é claro. Comecei a ser chamado cada vez menos, nem dois minutos durante a noite toda. A última vez que ele se lembra de me ver foi quando um conhecido das pistas disse que ia comer sua irmã e o chamou de cunhadinho. Apareci pra ver se ainda tinha alguma serventia, mas ele fez nem-te-ligo e quebrou um skate na cabeça do outro. Nessa hora caí de joelhos: valei-me minha aposentadoria.

Faltava pouco. Ele decidiu sair da casa da mãe e foi morar com o pai. Fui chamado mais algumas vezes depois disso e ele já não se lembrava de sonho nenhum. Gritava dormindo – me xingando de tudo que é nome –, mas acordava como quem prega os olhos. Se alguém reclamava, ele dizia: “enquanto eu não lembrar de nada, não precisa me acordar”.

O pai o criou no final da adolescência e o jogou no mundo. Morar com o pai colocou sua cabeça no lugar. A mãe chorou lágrimas de búzios nas madrugadas que virou com ele no colo. Ele não acendeu vela pras Santas Almas quando ela morreu. Mas antes ela do que eu – e fui purgar minha aposentadoria, tão cheio de merda que estava depois da minha carreira brilhante. Ainda bem que a justiça ama uma soneca e eu aproveitei. Comprei uma caixa de ferramentas alemã, viajei, conheci uma mulher de cabeça de parafuso e noivei com ela. Como sacanagem pouca é bobagem, fui chamado pra um serviço urgente, em nome dos velhos tempos, no dia do casamento.

Cheguei pronto pra espremer alguma coisa e notei o quarto em que vim ao mundo. Espremido entre o armário e a porta, notei a irmãzinha sonhando tranquila e o notei se esbugalhando ao me ver. Estava gordo e careca, metade do corpo pra fora do segundo andar da beliche. Eu me esqueci dos protocolos e xinguei mesmo. Ele me olhava com o medo da primeira vez e confesso que gostei, porque tinha raiva. Então a porta abriu e o menino-ele entrou. Foi no meu canto, se atirou com seu catarro e sua fralda cheia, enfiou as mãos nos meu pescoço, tapou minha boca e disse com voz fina:

“Me deixa em paz, porra”.

Minha coluna de aço virou espinha, minha cara cromada embrasou, ganhou carne, hematoma, asfixia. Fiquei pronto pra morrer, num aperto pior que qualquer pesadelo dentro da minha larga bagagem profissional. Aí veio um choro de criança, ele acordou, eu fugi, me escondi e passo os dias rezando pela intercessão do sindicato.

3.
A menina ouve o barulho pela fresta da porta que não deixa o quarto tão escuro. Está sem sono e desliza da cama, desliga a babá eletrônica longe dos olhos da câmera e vai olhar pela fechadura do quarto dos pais. Na primeira vez em que fez isso teve medo, mas nunca foi descoberta e passou a espiar com um travesseiro entre as pernas, no aperto. O anjo que mora em seu quarto, que é muito bonzinho, a avisa quando eles começam. Dessa vez, porém, o anjo a diz para dormir, a menina faz que não liga e cola o olho embaixo da maçaneta.

Vê o pai por cima da mãe, como sempre. Tentou fazer o mesmo com o Luquinha atrás do escorrega, mas ele tinha preguiça, queria ficar deitado e estragava a brincadeira. Olha pela fechadura e vê o pai por cima, de pijama, não consegue ver a mãe. O pai está vestido e também muito agressivo, mas isso não preocupa a menina. A mãe sempre grita, “ai amor, ai amor” e acorda feliz e não briga na hora de chamá-la para a escola no dia seguinte. O pai lhe dá dinheiro para o lanche e beija sua testa, coisa que não fez nos primeiros meses depois que o irmãozinho nasceu. Não ouve a voz da mãe. Só a do pai, “tá gostando?, hein, tá gostando?”, coisa que ele sempre grita. Mas agora grita com raiva, fala nomes:

 “Hein, seu viado, tá gostando? Tá aqui, tá aqui o teu beijinho, porra”.

A menina percebe que a mãe está muito calada e se tranquiliza quando ouve um gemidinho. Muitas vezes a mãe geme assim, no começo, quando o pai ainda não está suado e a cama não começou a ranger Mas, no lugar de aumentar, os gemidos diminuem

“Mamãe?”, a menina sussurra com um aperto na garganta. Chama pelo anjo, que não vem, e o travesseiro cai do meio de suas pernas. “Mamãe, papai, mamãe”. O irmãozinho berra junto, o pai abre a porta do quarto e começa a chorar. A mãe vai embora numa tábua de madeira com uma almofada em volta do pescoço, o pai vai embora com umas pulseiras atrás das costas. A menina e o irmãozinho vão para a casa do avô. Ele dá uma mamadeira para o irmãozinho, deita a menina em sua cama (ela trouxe o travesseiro de casa), lhe dá um beijo na testa e diz:

“Seu pai sempre teve um parafuso a menos”.

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