O anúncio em frente à casa quebra o silêncio e atiça o vira-lata, que salta do sofá e vai latir na janela. Após bufar, Olavo pousa a caneta nanquim sobre a mesa. Não costuma abandonar um desenho pela metade, mas sabe que o animal foi doutrinado pelos vendedores do bairro, cada um divulgando um produto diferente por meio de potentes e repetitivos alto-falantes. São como como os badalos do sino de uma igreja. Pela manhã, produtos de limpeza com desconto. No fim de tarde, as pamonhas de Piracicaba, às vezes, os morangos de Atibaia. E agora, depois do almoço, o carro do ovo. Hora de mais um passeio.
O cão arrasta o dono pela coleira até o portão, rebolando um pouco para frisar sua empolgação. Por cima da mureta, Olavo acena para a senhora Zimmermann. Apesar de a vizinha jamais esboçar qualquer reação, nem um leve espasmo de pescoço provando ter um coração ativo dentro daquele corpinho azulado, ele tenta vencer seu campo de força, quase que por hobby. Afinal, é a ela que paga aluguel. Nada. A velha é um boneco de cera.
Lá vai a kombi cheia de ovos, devagar, com sua mensagem chamariz pré-gravada, martelando a mente dos moradores. Nunca sai ninguém das casas geminadas para comprar. Mesmo assim, ela passa ali todos os dias. O cachorro, porém, já não se importa com o barulho. Para em árvores e postes e solta umas gotículas territoriais. Queria apenas sair na hora certa. O carro do ovo é seu relógio. Na esquina, a granja sobre rodas vira à direita, Olavo, à esquerda.
Não demora e o som ambiente muda, do tom declamatório para uma batida pop. No meio do quarteirão, há um pequeno movimento, o bastante para conquistar a atenção do vira-lata. Logo, identifica-se na calçada um menino feliz com um balão vermelho, ao lado do pai. Um tanto mais e percebe-se um arco de bexigas vermelho, verde e branco. Uma caixa de som coloca Beyoncé cantando “Crazy in Love” no volume máximo, abaixando um pouco, fora do refrão, para um sujeito fantasiado de palhaço anunciar a grande promoção de linguiças, alcatra e maminha. O circo está montado diante de um tradicional açougue.
Opa. Bom que você veio.
Juninho já chega fazendo uma massagem no ombro. Como não estava com o shih tzu cegueta do lado, Olavo demora reconhecê-lo. Na verdade, como ficou sabendo após o velório do tal Adriano, seu colega de passeios caninos não se chama Juninho, mas Jorge. Jorge, o Vareta. Que ainda o confundia com um amigo de infância chamado Túlio. O falecido era Dentinho. Ainda tinha um Francesco “Mazzola” e um Adalberto “Carimbo”. O outro tinha um nome estranho, Tibúrcio qualquer coisa, mas não dá para se lembrar de todo mundo.
O Tibério perguntou de você na missa de sétimo dia. Não deu pra ir?
Ah, tive muito trabalho.
Num domingo? O que você faz hoje mesmo?
Sou… cartunista.
Tá de brincadeira? Todos sempre falavam, o Rato, esse vai virar artista.
A verdade saiu fácil da boca de Olavo não só porque estivesse cansado de mentir para aquele bando de velhos saudosistas, mas porque achou complicado demais inventar outra profissão para o seu duplo de fachada. Menos mal que o cara já tivesse uma veia artística.
E você? Trabalha com o quê?
Ora, eu toco o velho açougue do meu pai, claro.
Puxa, então essa… festa aqui, foi ideia sua?
Sim, sim. Fiz dois anos de Publicidade e Propaganda, sabe?
Sei…
É pra melhorar os negócios. E esquecer um pouco do Merlin.
Não era Adriano?
Oi?
Quem é Merlin?
Ué, meu cachorro. Não soube? Ele está perdido?
Puxa, que chato. Como foi isso?
O portão tava entreaberto. Saiu correndo e escapou.
Achei que ele não enxergasse bem.
Sim, coitado, tá bem ceguinho.
Sei… Eu preciso ir.
Espera, Rato. Olha os caras chegando.
Ao se virar, Olavo reconhece Francesco e Tibério, do dia do velório. Devia ter falado sobre o mal-entendido quando teve chance. Mas lá, com caixão, a mãe do morto, essa turma de garotões de meia idade, todos precisando que ele, ou melhor, o Rato estivesse lá. Não teve coragem. Seguiu com a farsa até conseguir sair do cemitério antes do enterro, sem ninguém notar. Podia até ter acabado com o teatro quando cruzasse uma próxima vez com Jorge, nos passeios. Bem nessa semana o shih tzu deve ter fugido, pois não se encontraram mais. Até hoje. Ia falar o menos possível, deixar que conversassem e sair de fininho.
Cara, que bom te ver de novo.
Verdade, naquele dia a gente nem se falou.
Não tinha clima, né? Aquela merda com o Dentinho.
Quem ia imaginar?
Ah, passou. Agora a gente precisa se sentar num boteco, beber até cair e saber o que você tem feito.
Conta aí, Ratão. Que merdas aprontou nos últimos quarenta anos?
Nem o vira-lata está colaborando. Se estivesse puxando, teria uma boa desculpa para seguir seu caminho. Mas o desgraçado se deitou na calçada, bem no meio da rodinha de amigos.
Ele mora vizinho da Dona Rosa. Locatário dela, dá pra acreditar?
Sério? Logo você aguentando aquela velha chata?
Não por muito tempo. Ela logo vai me mandar embora. Todas aquelas casas lá vão ser derrubadas. Tem uma construtora comprando tudo.
Ih, tem uma construtora comprando tudo. Daqui de cima até o nosso velho campinho, lembra?
Pois é, pelo visto vou ter que ir embora do bairro.
De jeito nenhum. Ô, Zóio, Você tem um monte de imóvel aqui. Aluga um pro Rato.
Ah, não precisa se preocupar…
Claro, acho que tem um apezinho bacana pra você.
E nada de exigir fiador de amigo nosso, seu muquirana.
Cada um começa a lembrar uma história sobre a muquiranice de Tibério e Olavo se distrai, puxando, em vão a guia do cachorro, que responde ficando de barriga para cima, brincando com as patinhas no ar. O palhaço aproveita para se aproximar e amarra na coleira um balão branco, com o qual o animal começa a brincar.
Ah, que fofo. Esse aí é amigo do Merlin. Putz, que saudade do meu menino.
Não teve pistas dele?
Não, mas o Carimbo está trazendo a Jocarla e ela vai colocar no jornal.
Ah, quem lê a merda de um jornal de bairro?
Povo do bairro, ué? Justo quem pode ter visto o Merlin.
Ih, a Jocarla já sabe que o Rato voltou?
Putz, é verdade, esqueci que ele era a grande paixão de juventude da Jojo.
Com exceção do impostor, a zoação transforma todos em crianças de novo, um querendo falar mais alto que o outro, em meio a risadas, rendendo retalhos de histórias que Olavo nem procura entender. Talvez seja a hora certa para fugir. O reencontro com um amor da adolescência pode ser por demais revelador para um ator ruim como ele. Uma opção seria pegar o cachorro no colo e simplesmente correr. Mas um grupo de meninos e meninas com mochilas e uniformes de escola já cercou o animal para brincar com ele e a bola.
Em vez do palhaço, eu devia é contratar seu cachorro. Juntou até mais gente.
Com dois tapinhas no ombro, Jorge aponta para Adalberto e Jocarla subindo a rua na direção deles. Não há mais rota de fuga. Os recém-chegados passam cumprimentando um por um. Ele, na frente, abusando dos tapas nas costas. Ela, bem mais discreta, com bochechadas. Todos
