Tbt Indigestão

(Angélica)

Não sei se foi a indigestão com o bacalhau mas lá pelas três da madrugada acordei suando bicas e por estar toda ensopada tive que me levantar para trocar o pijama. Quando voltei para cama e olhei para o outro travesseiro, vi uma sombra no meio da fronha. De tanto sono, resolvi deixar para lá, devia ser uma ilusão de ótica causada pelos pedaços de alho que ainda boiavam no meu estômago.

Dei as costas para a mancha escura e quando fui desligar o abajur, um sopro quente envolveu a minha nuca. Parecia que eu estava numa praia do Nordeste sentindo a brisa do mar, só que depois de passar o dia fritando no sol, já que comecei a suar de novo. Logo em seguida, umas unhas finas, afiadas e pequenas escorregaram pela lateral do meu pescoço. Isso não podia ser um efeito colateral do jantar. Putz grila, o gato! A tal da Vilma devia ter feito uma urucubaca para mim, me odiava com todos os dentes e aplicações de botox e mandou o fantasma do gato para cá.

Sem deixar que ele percebesse, rodopiei bem depressa na cama para que ele se assustasse e sumisse do meu quarto. Não só não fugiu, como o meu nariz ficou grudado no dele e por ser bem menor do que eu, suas orelhas batiam nos meus cílios. Apesar de serem peludas, elas pareciam um cone preto de rua ou um temaki de ponta-cabeça. Só de pensar em peixe com arroz me deu vontade de vomitar. Afastei meu rosto pondo a mão na boca para segurar a ânsia.

Isso não é um gato, pensei. Que porcaria de bicho é esse? Quando dei por mim, ele tinha se afastado e estava plantando bananeira. Depois de curvar o corpo num arco, apoiou as patas traseiras no colchão e levantou o tronco ficando de pé. Teria sido incrível se eu não estivesse apavorada. Seus olhos eram de um amarelo muito forte e o bigode dois tons mais claros do que o resto da penugem. Em vez de ser espetado, acompanhava o lábio e por ter uma falha no meio, tinha um que de Clark Gable. Quase perguntei se ele estava com hepatite, mas desisti, vai que ele quisesse levar o meu fígado. Só entendi de quem se tratava na hora que ele puxou o rabo lá de trás e bateu no meu nariz, talvez para que eu parasse de me lembrar dos filmes antigos e visse que seu rabo acabava num tridente.

Apesar de achar que este seria o meu último dia na Terra e querer chorar, fiz uma cara de quem não estava nem aí e ao me sentar, tentei apertar a garganta dele. Meus dedos não encontraram nada. Ele deu três risadas e depois me mordeu.

– Ai! Você me machucou.

– Foi só para você parar de ser besta.

– Não sou besta.

– É sim, e muito. Posso tocar em você, mas o contrário não rola, queridinha. Então desista de querer me matar.

– Isso não é justo.

– Desde quando a vida é justa?

– Quem mandou você aqui? A bruxa da Vilma?

– Ela é uma ridícula. E você continua sendo uma besta.

– E você é o que? – Disse brava querendo puxar o rabo dele.

– Eu? Oras, você não está vendo?

– Um diabo esquálido.

– Mais que isso, bem mais… Sou seu Diabo da Guarda.

– Isso existe? Qual seu nome?

– Não vou falar ou você vai ficar me chamando toda hora, não gosto que me atrapalhem. Nesse momento ele puxou um espelho negro do bolso e pôs virado para mim. – O que você está vendo?

– Aquela vidente vigarista. Ai! Você me mordeu de novo!

– Para você não fazer mais pleonasmos, meu bem. Todos os videntes são farsantes. Afinal você é uma escritora ou uma ratazana? Por falar nisso, precisamos voltar para o nosso livro.

– Nosso?

– Da onde você acha que vem a sua inspiração? Do céu é que não é…

Por ficar com cara de tacho, comecei a pensar que podia fritar uns bolinhos com o bacalhau que ainda estava na minha barriga, se ele comesse até entupir, parava de me atacar e dizer essas barbaridades. A imagem do óleo escorrendo fez com que as náuseas voltassem, desisti.

– Você também acredita em gnomos?

– Acredito. Acredito em gnomos, fadas e diabos peludos do tamanho de um gato.

Dando mais uma risada, ele falou – Prefiro você assim, nervosinha. Olha para o espelho outra vez e me diga o que a vigarista está fazendo.

– A Vilma ficou louca? Esse não é o gato que morreu hoje à tarde? Onde já se viu depilar o coitado com cera quente.

– Ele está bem vivo. Faz parte do golpe. A clínica veterinária é do marido dela, eles dão sonífero para os bichinhos. O cliente acha que tem culpa por o gato ter passado mal e paga duas consultas, uma para ela, outra para ele. Foi bom você ter se feito de besta e devolvido o gato.

– Não me fiz de besta, não encontrei o veterinário e além do mais odeio pets…

– Não me olhe desse jeito, não me incluo nessa categoria.

– Mas por que ela está deixando o gato pelado?

– Chuta!

– Para fazer um Mega Hair nos pentelhos? É a cara dela.

O diabo raquítico começou a rolar na cama – Não me mate de rir. Por isso que eu gosto de você – Eu também gargalhei ao imaginar ela usando uma peruca preta entre as pernas.

Com uma cara ainda mais enjoada perguntei – E hipérbole pode?

– Pode, o que não pode é a ridícula usar o pelo do gato que você tocou para fazer um trabalhinho. Ela preparou uma sopa e quer que você morra de indigestão.

– Ufa! Eu jurava que era o bacalhau.

– Eu ia tirar o feitiço quando você sentiu minha pata. Deita, vamos acabar logo com isso antes que você comece a ficar com as extremidades roxas. Não, não precisa arregalar os olhos desse jeito, confie em mim.

Senti o sopro quente de novo, dane-se que fosse do inferno, e também a patinha do meu Diabo da Guarda. Antes que eu fechasse as pálpebras, ele falou baixinho no meu ouvido:

– A partir de hoje, você vai ouvir uma voz dentro da sua cabeça, não se assuste, sou eu. Preciso que você durma agora. Boa noite, Nina.

– Ah, você sabe o meu nome.

– Lógico que sei.

– Boa noite, Clark.

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