A coisa obscura

Não devia ser grande. Não podia ser muito grande. A não ser que se escondesse atrás do guarda-roupas com as coisas do vô, que ficava meio de quina por falta de parede na parede da janela. Sobrava um espaço lá atrás que meus bracinhos de menino de seis anos não alcançavam. Tateei, a mão não chegava. Tentei puxar, faltava força. Subi na cadeira, o móvel era alto demais. Só me restava olhar no vãozinho espremido até o chão, o que eu fazia toda noite. Não tinha nada lá.

A casa velha produzia ruídos. Quem estivesse no porão era capaz de acompanhar os passos nas largas tábuas do piso acima. Mesmo sem ninguém andando, ouvíamos barulhos. Guinchos no encaixe das janelas de vidros opacos, sussurros do vento nas frestas do telhado muito alto e sem estuque. O fogão dava estouros de vez em quando. As batidas do relógio-cuco na sala me irritavam. Às vezes o barulho vinha de fora. Casa sem jardim tem isso. Eu acordava com o diálogo de duas mulheres dentro do quarto: “…beliscou meu braço!” “Na igreja?” “É…” Ou o coro cantado na procissão: “…e então coroa digna/ de mão tão benigna/ feliz receberei”.

Eu nunca tinha entrado no quarto do vô enquanto ele era vivo. Quando me puseram lá, ainda tinha o cheiro dele nos cantos. Água velva é bom para os cortes da navalha, ele falava. Eu sentia o cheiro quanto espiava embaixo da cama e atrás da escrivaninha antes de dormir. Balançava a cortina para ver se caía alguma coisa que podia estar grudada nela. Nunca vi nada fora do normal enquanto estava acordado. Mas bastava entrar nas cobertas, fechar os olhos e esperar aquele embalo quase que chegando na portinha do sono. Aí começava.

Quase sempre era um barulhinho de coisa arrastando. Como quando eu punha a Princesa no tapete pequeno e puxava como se fosse um trenó na neve. Aí, parava o barulhinho, eu já acordado. Até que o olho pesava de novo. Quando eu ia fechando, vinha a luz. Não era igual ao farol quando passava carro. Esse vinha listrando a parede do outro lado da janela, e subindo, e sempre na direção contrária do barulho do motor. A luz da coisa, não. Começava vermelha, espalhada nas paredes e no teto. Passava para o azul, às vezes ia até o verde. Eu cobria a cara e prestava atenção. Olhava pelo lençol, a cor ia diminuindo, diminuindo até ficar só escuro de novo.

O pai não queria deixar a lâmpada do corredor acesa. “Aqui ninguém é sócio da Light.” Pedi. Chorei. Deixei sobrar comida no meu prato. A mistura, a azeitona, até a pizza de queijo não comia. Na aula de piano, cismei de não ir mais. “A dona Ilsa me deixa sozinho no porão”, menti. A mãe ficou do meu lado, disse que eu tava diferente por falta do avô. Ele deu um bufo e aceitou.

A coisa parou por uns tempos. Sem barulho nem luz colorida, eu dormia a noite inteira. Até a noite, acho que num domingo, em que acordei no escuro. Breu total. O quarto, o corredor, tudo um pretume. Ouvi um barulho que vinha de fora do quarto. Levantei e dei um pontapé na porta. O pai tomou o maior susto. Soube que era ele pelo berro. Teve um tremelique e soltou o roupão que segurava com a mão frouxa. Ficou pelado no corredor. Vi por causa da luz da rua que vinha da janelinha de cima da porta.

Foi assim que descobri que a luz do corredor não ficava ligada a noite inteira. O pai apagava quando eu dormia, acho. Só não sei por que ficava passeando pela casa de noite descalço e sem pijama, só com aquele roupão listrado de preto e verde. Só se era para ir no banheiro, que ficava no fundo, passando a cozinha. Convenci a mãe que eu devia dormir na sala, porque dava para ver a luz da janelinha. Ela achou que era por causa da saudade do vô que eu sentia. O pai reclamava porque eu parava o cuco. É que o tique-taque entrava no meu sonho e eu sonhava que a coisa saía de trás do guarda-roupa. Em vez de se arrastar como antes, usava uma muletinha de pau e fazia toque-toque pelas tábuas da sala. Aí eu segurava o pêndulo para parar. Ele reclamava porque não sabia a hora quando saía de manhã.

Uma tarde, eu estava caindo de sono e fui tirar um cochilo no quintal pra ninguém ver. Atrás dos pés de mamona tinha um canto sossegado que só eu sabia. A mãe passou gritando que a cachorra ia matar um gato. Fui atrás e vi que o gato estava em cima do pé de manga. Era cinza e seu pelo estava todo bagunçado. Acho que tinha pulado da rua para dentro. A Princesa tava latindo e dava pulos enormes para pegar ele. Eu gostava de subir na mangueira, era facinho, apoiando no tronco dava para alcançar o galho grosso, onde eu deitava de comprido. Subi no galho e estiquei a mão para pegar o bicho, que não era fofinho coisa nenhuma, porque deu um salto para a frente e fincou as unhas no meu peito. Engoli a dor e desci com ele enquanto a mãe segurava a Princesa que latia que só. Atirei o gato pra fora da cerca. Depois do banho, ela pôs tintura de fucsina nas feridas. Lembrei que o vô gostava de pintar meus machucados de roxo.

Até que voltei a dormir no quarto. Foi depois que o pai vendeu o guarda-roupa. A mãe ficou um dia tirando as coisas do vô lá de dentro. De vez em quando eu passava no quarto e via a montanha de roupas dele no chão. As botinas. O relho de couro. Os dois panamás, o bege e o branco. A caixa da garrucha. No fim, o pai chamou o tio e um amigo do tio para arrastarem o móvel. Tiveram de abrir a folha da porta que ficava sempre fechada e empurrar em cima do tapete grande. O pai parou e ficou olhando para a parte de trás. Chamou a mãe, o tio e o amigo do tio e ficaram olhando também. Foi só quando puseram no caminhão que eu vi a mancha na tábua de fora. Lembrei da marca escura que a Princesa deixava no canto do muro onde ela tirava soneca. De tanto que ela encostava no mesmo lugar, ali ficou o formato dela direitinho: o corpo arredondado, o redondinho menor ­da cabeça – e até a tirinha do rabo no fim. No fundo do guarda-roupa também tinha uma marca, só que parecia de um gambazinho ou um macaco pequeno.

Ninguém falou nada comigo, mas entendi que aquela era a marca da coisa que fazia os barulhos e iluminava o quarto de colorido.

Quanto mais penso na coisa atrás do guarda-roupa – e eu penso muito nisso – mais me convenço de que vem de lá a origem de tudo o que passei. Atravessei a escola empurrando as tarefas, sem ânimo de saber aquilo que desconheço. Não me casei; meus namoros não deram certo. Pulei de emprego em emprego sem realizar nada de útil em nenhum deles. Nunca pus os pés fora da minha cidade. Amigos, se os tinha, mudaram de bairro ou subiram na vida. Quando me olho nu no espelho, vejo meu corpo tomado por cicatrizes de que não me lembro. Desde que a mãe morreu, deixei de tomar vacina. Toda eleição, pago multa para não votar.

Ainda olho atrás dos móveis toda noite antes de deitar. Apago as lâmpadas; não permito que uma fresta de luz venha aplacar meu desconforto. Permaneço em silêncio, olhos abertos na escuridão, atento à tela cega da parede. Qualquer dia desses, a coisa vai voltar.

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