Até a Lua tem dono

O sol ainda tenta furar a neblina matutina quando Maria Elpidia alcança a buraqueira do tal metropolitano. Desde que começou essa bagunça no largo, há quase dois anos, ela sai mais cedo da favela e sobe a avenida no escuro. Tudo para evitar de cruzar o canteiro de obras bem na hora de maior movimento, com toda aquela poeira e o barulho infernal dos caminhões e tratores. Saudades do bonde. Ainda menina, a mãe a trouxe de Minas para se reunirem com o pai e ela se encantou com o passeio pelos trilhos, o ventinho batendo no rosto, balanço de um lado para o outro. Agora só tem ônibus, amanhã, esse trem debaixo da terra.

De-sen-vol-vi-men-to. Con-fi-an-ça. Pro-gres-so. Fu-tu-ro. Conforme passa pela construção, a moça lê devagar as frases dos cartazes nos tapumes. Nem vira a cabeça para o lado, sem deixar que os homens de terno e chapéu por quem passa notem que está contando as sílabas, como a patroa ensinou. Esconde-se por baixo do lenço florido que protege os cabelos do pó, enquanto a bolsa com a alça no braço vai à frente. Falta pouco para o castelinho dos Junqueira. Mas todos ainda devem estar na cama. É chegar na ponta dos pés, preparar o café da manhã e aguardar.

O jornal do dia foi atirado nos degraus que levam à entrada principal da casa. Maria pega e não resiste a uma olhadela na manchete: a-ber-ta-a-por-ta-pa-ra-a-lu-a. Os homens foram até o espaço, deram uma volta na Lua e voltaram. Ela coloca a leitura debaixo do braço e segue pela entrada lateral de veículos. Maciel, o motorista, não está ali, passando uma flanela no capô do Aero-Willys, como faz sempre, para mostrar serventia. Nem se vê o carro, a obra de arte que atrai olhares de quem passa pelo portão. Quase nunca ligam o motor. O senhor Junqueira caminha até sua fábrica. Faz tempo, tiraram o Miguelzinho do colégio. Ia estudar com a mãe, Dona Eulália. Esta fica enfurnada no quarto, não tem para onde ir. Um automóvel desses, à toa.

As dobradiças enferrujadas da porta entregam a chegada de Maria pela cozinha, após subir a escada de acesso sobre a lavanderia, voltada ao jardim e à estufa. Ela deixa suas coisas sobre uma cadeira, prende o cabelo com grampos e veste o avental, não sem antes esfregar um pano úmido ao tentar tirar uma mancha amarelada de óleo. Primeiro, corta e espreme algumas laranjas. Então, ferve o leite e esquenta os ovos, durinhos o suficiente para serem comidos de colher. Por último, faz o café no filtro de pano e passa manteiga nas torradinhas. Coloca tudo em uma bandeja de prata, com xícaras de porcelana, e leva à sala.

Agora é o piso de madeira que grita demais. A doméstica deixa a comida sobre uma bancada de mármore e forra a mesa de jantar com uma toalha, antes de dispor pratos e talheres, três lugares. Todo dia, faz questão de abrir as cortinas, admirar a figueira na rua e deixar a luz natural iluminar o ambiente. Para todo canto é alguma velharia nesse museu privado, um castiçal, um cinzeiro, um espelho emoldurado, um móvel com dezenas de gavetinhas sem utilidade alguma, itens que empoeiram tão logo são lustrados. De olho no relógio cuco, entre os quadros com cavalos e cães de caça, ela se posta perto da cozinha ao ouvir o som do sapato do patrão.

Ah, é você, Maria.

Bom dia, senhor Junqueira.

A Eulália está… indisposta. Pode… você sabe.

Chamo o Miguelzinho?

Melhor levar pro quarto. Vou receber… visitas.

Sem se sentar, o homem serve um pouco de café, joga um torrão de açúcar na xícara, ignora o pires e vai até a janela. Ele gira devagar uma colherinha, musicando a louça. Maria o larga em seu transe, coloca sobre a bandeja um copo de suco e o pratinho com torradas amanteigadas e sobe as escadas. No segundo andar do sobrado, passa pela porta fechada da suíte e vai até o quarto dos fundos. O garoto a espera de pijama azul, sentado no parapeito da janela, com as pernas penduradas para fora, projetando um braço na direção de um galho mais fujão da figueira.

Meu menino Jesus. Sai daí, Miguel.

Maria deixa a bandeja sobre a cama, se apressa até ele e o envolve por trás, passando os braços pelos sovacos e segurando-o os ombros. Um abraço de mochila, que dura uns dez segundos antes que ela reúna forças para puxá-lo. Miguel não reage, mas está sereno quando ficam cara a cara. Um rapagão, ele é duas cabeças mais alto do que a empregada miúda. Porém, seu rosto liso e o olhar perdido ainda são de uma criança.

Fazendo o quê na janela, menino? Imagina o tombo aqui de cima. Não faz isso, tá?

O passarinho fez casa na árvore.

Passarinho voa. Homem não.

Voa. Eu vi na televisão.

Tá falando do foguete? Isso é coisa de americano. Aqui só passarinho voa.

Miguel olha para os pés e sorri. Ela o acompanha, menos tensa. Depois, passa o copo de suco e o deixa bebendo enquanto recolhe do chão uma lanterna, uma bola e uma camiseta suja. Não sobra uma torradinha no prato. Bom, porque vai demorar para preparar o almoço. Pior se o patrão receber gente, talvez precise pensar em mais comida. Já sondou a dispensa. Quase vazia. Possível que tenha de ir ao mercado. Ah, se Maciel faltar logo hoje que precisa do carro.  

Vou ver sua mãe. Se arruma, mas não desce. O senhor seu pai tá esperando alguém.

Posso ir jogar bola com meu amigo?

Com os dedos, ela acaricia os cachos dele. Mas não diz nada e sai. Pelo vão da escada, percebe a movimentação no andar de baixo. Com certeza, Maciel chegou e está inventando mil desculpas pelo atraso.

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