(Bruno Vicentini)
Noite quente e, como todas as noites, cadeiras de área no pátio. Mira espiava pela fresta da cortina os vizinhos em roda, com guampa de tereré. Um piá magrelo e polaco importunava os adultos, corria em volta das cadeiras, levantando a poeira vermelha do chão de terra batida.
Se o marido demorasse ainda uma metade de hora, tinha parado no botequim. Mira vestiu a camisola do dia e fechou a casa, mas deixou a porta do jardim apenas encostada. Depois ligou o rádio da cozinha e na cadeira preferida se pôs a pensar na vida e na morte.
O rádio tocava uma guarânia, depois outra, a trilha sonora dos devaneios de Mira. Meia hora passou como nada. Imaginava o marido sentado sozinho numa mesa do botequim, o jornal dobrado no bolso, círculos do copo de pinga na mesa de madeira áspera e o seu Landinho lá, quieto, quase sóbrio. Mira conhecia a cena, um dia o seguiu na saída do trabalho, queria saber, tinha medo de haver outra.
Lembrava das juras de Landinho, que lhe dizia Mirinha, Mirinha, quando ainda namoravam. Teria sido feliz. Recém-casados no religioso e o marido acordava cedo pra fazer o café, levava na cama. Na penumbra das luzes apagadas, Mira viu uma ratazana passar correndo, rente à parede mais distante da cozinha, sumir num buraco do assoalho. Um choro discreto e distante, de criança no bercinho, quase não se ouvia.
Antes da bebida, Landinho vinha da rua nem bem caía a tarde, apaixonado pelo filho recém-nascido. Tudo mudou muito rápido, e o gordo agora não fechava as portas nem tampava a garrafa enquanto Landinho não saísse, sempre tarde da noite. Do bar até sua casa ele se enfurecia, descontava o infortúnio em Mira, ela que não lhe daria outro filho, os vizinhos só uma vez chamaram a guarda. Tivesse pra onde ir e ela ia. Outra vez ele chegou de corte no rosto e a camisa rasgada, Mira se lembrava, remendou a peça com agulha fina e linha de mesma cor.
Mira subiu na cama feita, alcançou o topo do armário alto pra buscar um apanhado de fotos. O marido sorrindo, uma piada que contava. Uma viagem de ônibus, Landinho sério, de óculos escuros. Ela num balanço de corda. Os pais dele, os pais dela. Do filho deles, uma foto apenas.
Landinho vai chegar tarde, vai dormir de sapatos. De um lado pra o outro, dentro da casa vazia, a agonia de Mira. Seria pior se esperasse acordada. Escutava mais uma vez o choro do filho, o inocente, ainda doentinho. De volta pra cozinha, esquentou a janta do marido, fez pra si um chá amargo, o boldo do jardim, jogou no lixo o vidro vazio do cotrine, que comprou no terminal. Infalível, diz o vendedor.
Mira dormia quando chegou Landinho, mais cedo que o normal. Desta vez manso, sem escândalo. Comeu a janta ainda morna. A fronha de Mira molhada, de suor ou lágrimas. Tirou os sapatos, entrou na cama como se não fosse a sua. Não ia acordar a esposa.
