um oásis

A boca seca, a sede ocupa a goela, começa a miragem, uma gota de água na ponta da tua língua faria bem. Um mínimo jorro umedecendo os beiços já ajudaria. Se não for pedir muito, o copo todo preenchido, pode ser daqueles de requeijão, pode estar trincado, pode vir da torneira, não tem problema. Quanto tempo leva pra uma pessoa começar a desidratar? Por outro lado, a bexiga vazia favorece a imobilidade, tornando-se descessário o ato de mijar. Você percebe o suor nas axilas, que inútil foi a compra de roupas especiais para amamentação, toda camiseta se tornou passível de uso a qualquer hora do dia. As que ainda te servem, claro. Metade do teu guarda roupa não se ajusta ao seu quadril de puérpera. Nesse momento mesmo você usa aquela blusa de seda bege, presente da irmã dois aniversários atrás. Apesar de decorrido os primeiros três meses desde o parto, aqueles julgados como os mais difíceis, você ainda se vê como um ser especial, não superior ao resto da humanidade, de forma alguma, apenas como alguém que consegue viver sem seguir as funções básicas de sobrevivência no planeta Terra. Miguel está no seu colo faz duas horas – ou seria três? – mas você sabe que se você se mexer ele acorda se ele acorda ele chora se ele chora chora você também se você se rende, você se torna desmerecedora do rótulo de mãe, mas você precisa da água, ou daquele suco azedo de laranja que Lucas insiste em trazer do Pão de Açúcar. Você se vê com as mãos em concha implorando por liquido, precisando molhar o palato, você esfrega a língua no céu da boca ela está áspera. Seus braços tremem e você já não os sente, seus membros fantasma sustentam o corpo de seis quilos e meio, uma vida inteira naquele pacotinho de ossos peles e panos. Roupinha amarela da Malwee. Amarelo cor da sorte. Atrai bons fluidos. A meia branca do pé esquerdo já caiu mas você não pode pegar não pode se mexer, fica aí parada na vida, estátua! Há quantas horas você está sem dormir? 10, 15, 20 horas em vigília? Se você dormir o bebê acorda se o bebê acorda ele começa a chorar então chora você também não estando apta a receber o prêmio de mãe boa o suficiente porque mãe boa o suficiente passa fome frio sede e você implora por um copo d’água , que seja uma água turva, sente vontade até de dar goles numa latinha de Itaivapa. Você sua ainda mais, a roupa grudada na sua barriga flácida te faz sentir repulsa, você sabe que não será capaz, vai se mexer, vai quebrar a regra da acinesia. A partir de agora todo movimento deve ser pré calculado, você se levanta com a sutileza de um cirurgião, você invoca o mantra por favor não acorde por favor não acorde por favor. Miguel resmunga ao ser colocado no carrinho vermelho. Deve se sentir incomodado lá dentro, quem mandou aceitar objetos de segunda mão da cunhada, se tivesse torrado milão na loja chique do Iguatemi ele certamente não se incomodaria. São 32 passos até a cozinha, você consegue fazer isso em menos de 60 segundos, numa velocidade média de 20 metros por minuto. Que bagunça, você não se lembra quando foi a última vez que conseguiu relar nas louças, empilhadas agora como totens de vidro ofertados a algum deus desconhecido. Foco na água que Miguel tá resmungando. Você alcança o Duralex sujo que está a próximo ao filtro. O líquido escorrendo em direção ao copo, o recipiente cheio, a transparência do líquido invadindo sua boca, tudo parece um oásis. Você faz tudo com a mão esquerda, porque a direita está adormecida, seis quilos é muita coisa, há no carrinho já usado o resto da vida daquele serzinho que você tanto desejou, o resto da sua própria vida. Suas amigas te alertaram que seria difícil. Você achou que daria conta. Elas reclamam mais do que você no trabalho, você dá conta. Dava conta. Agora largou a vaga porque o preço de uma babá não compensa o seu salário. Vai ficar em casa cuidando do Miguel. Vai ser bom, você trabalha desde os dezesseis, vai ser excelente pra criação do vinculo mãe e filho, por falar nele, quando é que ele começa? Quando é que chega aquele amor de dar a vida pelo outro? Você se distrai observando a trilha das formigas que saltam de um buraco no rejunte do azulejo. Alguém te disse que no formigueiro todos cuidam dos filhotes, formiga é bichinho coletivo, como seria bom ser formiga. Você pensa em si dentro de um formigueiro, descansando enquanto milhares de formiguinhas minúsculas ninam seu filho. Que imagem ridícula, termina logo o que veio fazer aqui, o bebê tá começando a chorar forte. Você sente o braço pinçando de dor, você está anestesiada após todas as horas na mesma posição. O único movimento permitido é a troca de um seio para o outro, e apesar de não sentir mais dor, não sente prazer algum. Você lembra que não almoçou. Ou seria hora do jantar? Esqueceu de sentir fome. Vai pegar um pãozinho Pulman que venceu há dois dias, comê-lo puro, enganar o sistema digestório. Tem um cadeira. Feia, dessas parceladas na Casas Bahia. Imita madeira, não deu dinheiro pra da Tok& Stok. Além de tudo está bamba. O barulho do choro pueril te incomoda como um vizinho que toca trompete no domingo pela manhã. Porque são tão barulhentos? Você senta pra comer o pão, sequer se percebe sentada. Pensa que está abusando da própria sorte. Vai que com todo esse choro o bebê regurgita o bebê engasga com o próprio vômito, leu algo sobre isso no “O que esperar quando está esperando”. Na cabeça a imagem de um pequeno caixão branco, como o que você viu uma vez no enterro acontecendo ao lado do da sua vó. Você corre, derruba no chão o pedacinho de pão, se desespera, agora faz o percurso em 28 passos passos. O bebê quer mamar. Faltam duas – talvez três – horas pra que Lucas chegue do trabalho e você possa pensar em um banho.

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