por Américo Paim
Às vezes eu perguntava a mainha sobre o tal assunto. Ela lembrava e ficava virada no estopô com o que painho contou uns meses antes de morrer. No fim do nosso papo, ela largava o doce sobre qual era a solução para mim. Nunca precisei, então não ligava. Agora tô é arrependido, não vou mentir. Eu tava doido pra perder a virgindade e foram três brochadas, em menos de quinze dias! E um monte de coisa maluca que me aconteceu, sem explicação. Continuei virgem e fiquei com medo de trepar. Sério. Precisava de ajuda e marquei com Dedé e Casca na beira do rio, perto do pesqueiro. Amigo é amigo ou que porra é?
– Fala, Merreca! Levou um pedaço sumido, hein?
– Lá ele…
– Porra, que cara é essa? Qual que é?
– Véi, tô mal, fudido.
Me olharam desconfiados. Eu sabia que assim que falasse que ainda não tinha comido ninguém, a merda tava feita. Sempre cantei de galo que não era mais virgem desde os dezessete. Agora, nós três com dezenove e eles cheios de história com mulher. Respirei, mandei a real. Riram tanto que um velhote pescando do outro do lado rio reclamou do barulho. Me almoçaram com farofa e pimenta. Quando fizeram um menos, contei a história da primeira brochada.
Totinha tava a fim e eu tímido, mas seco por ela. Fomos no ap de Cabelinho, que foi pedra demais liberando o lugar. Ela tava toda mara, cheirosa, no quilo. Rolou beijação e tal e coisa. Eu já tava quase na boca do caixa, e aí inchou. Comecei a tremer, um desespero retado. Fiquei tonto, leso. Suando feito porco, nem ficava em pé. Ela, que já tava assustada, pirou o cabeção porque eu comecei a mudar de cor. É verdade, eu juro: fiquei verde. Ela gritou, juntou os panos de bunda e abriu o gás. Eu fiquei lá, verdinho, sozinho, rezando pra voltar ao normal. Tomei banho, esfreguei e nada. Achei que ia morrer sem amadurecer. Foi barril.
– Pera, pera! Véi, tu tirou a menina de tempo, ficou verde e ela vazou?
– Pois é, Casca…
– Tu cheirou pó estragado, papá?
– Sabia que cês num iam acreditar…
– Merreca, tu ficou verde, assim que nem “vumito”?
– É vômito, seu jumento. E foi um verde cana, até bonito.
– E o negocinho, lá ele, num deu o ar da graça não, foi?
– Mortinho…
– Eita, logo com Totinha… Ali é gostosa!
– Epa, olha o respeito!
– Que “eito”? Num comeu…
– Porra, Dedé, para de apertar minha mente.
– Sim, mas colé a de mermo? Tu quer o quê?
– Véi, resolver. Já são três brochadas!
Falei assim, na tora. Assustaram. Aí, contei logo a segunda. Tinha uma semana que fui lá em Maria Pimenta tentar tirar o cabaço. Ela me chamou pelo nome: “Entre, Clésio”. Deve ter sido porque eu sou painho escrito e escarrado e xará. E ele andou por lá que eu sei. Me achei, mas deu merda de novo. Saí zerado do puteiro, debaixo de um monte de bifa, com os gorilas dizendo pra não voltar nunca mais. Foi feio. A mulher gritando, os home invadindo o quarto e me descendo a lenha. Nem sei como não fiquei todo roxo…
– Não era verde?
– Porra, filho da puta…
– A bola quicou…
– Sim, e como foi, Merreca?
– Cheguei cedo, inda tava vazio.
– Foi com quem?
– Uma pequena, do olho enviesado assim.
– Japinha Tsunami? Ali é problema…
– Disse o nome não.
– E aí?
– A gente tomou uma e ela me levou pela escada.
– Você se borrando todo?
– Não, tava de boa, sério.
– E o que teve no quarto?
– Ela me deitou na cama. Tava massa, mas deu o mesmo medo, véi, uma gastura do caralho.
– Como assim?
– Subiu uma aflição, deu tremedeira. Num respirava direito.
– Oxe, isso passa logo.
– Antes fosse. A coisa pegou geral e aí, verdinho de novo.
– Pau pequeno, merrequinha e verde? Me bata um abacate…
Mais gargalhadas. Eu queria matar os dois, mas contei a terceira, na noite anterior, com Salete, da Rua do Cabresto, colega nossa na escola. Foi a pior de todas. O bicho pegou mais de hora antes de ir pra casa dela, onde a fudelança ia rolar. Não era mal-estar. Era medo mesmo. A boca secou, as pernas bambearam. A pele coçava toda. Se eu tivesse dez mãos não dava conta de tudo. Suava gelado e fedia. Sério. Me tranquei no quarto, de olho no rodapé da porta e na janela, sem coragem pra me levantar. Achava que tinha alguém lá fora querendo me pegar. Já tava quase me mijando e aí começou. Nas pernas, nos braços, nas mãos. Corri no espelho do banheiro e já tinha bolas verdes na testa. Com dez minutos, eu tava igual a Hulk! Não dava pra sair daquele jeito e Salete me pagou um monte pelo celular. Tive vergonha de mandar foto. Ela ia achar que era montagem, mesmo com tanta doideira em Pedra Velha…
– Véi, saporra é mandinga…
– Cê acha, Dedé?
– Rapaz…
– E você, Casca?
– Sei lá. Acho que cê se fudeu mermo…
– Massa, obrigado…
– Venha cá, é assim do nada, é?
– Dedé, é um medo da desgraça…
– De tudo?
– Não, home, só de trepar.
– Eita, agora fudeu de vez… Aliás, não fudeu, né?
– Peraí, Casca! Clesinho, e se fizesse mais um teste?
– Que mulé vai comigo assim?
– Fora esse tira-gosto aí no meio das perna…
– Para, Casca. O caso é grave.
– E se isso for reza? Só tem um jeito: Madame Silveirinha.
– Porra é essa, Dedé? A véia doida? Nem fudendo…
– Minha irmã disse que é boa.
– Oxe, o povo fala que ela erra pra caralho.
– Que nada, Merreca, bora lá!
Fomos. Ficava lá no Arroz Doce, longe que só. Dedé já tinha ouvido falar que era lugar estranho. A casa ficava no topo de uma árvore enorme. Sério. Subimos por uma escada tosca. Entramos e uma mulher baixinha, de cabelo despenteado e sem uma das mãos, disse, com voz grave, que não tinha mais horário. Enchemos o saco, até que ela foi perguntar à madame. A véia cedeu e eu entrei sozinho.
A sala era muito pequena e meio escura, com uns quadros estranhos e feios nas paredes, quatro velas espalhadas e uma lamparina atrás da cadeira da mulher. Ela era enrugada e parecia ter dentes demais. Usava lenço branco na cabeça, da cor do vestido, e tinha um soluço na fala. A pele negra e as mãos magras, com veias saltadas. O cheiro na sala era de alguma erva. Não sei qual. Ficou sentada de frente pra mim. Ela começou a falar e me deu vontade de tirar o corpo na hora. Os olhos da criatura, de um azul que já era desconcertante, mudaram para um inexplicável verde cana:
– É essa a cor de seu problema, né, fio? Se avexe não.
– Mas nem falei nada.
– O que tu tem é maldição.
– Armaria… E quem colocou?
– Foi por causa de seu pai. Ele teve foi outra mulher quando tava com sua mãe.
– Óia… Mainha contou isso mermo, pensei que era…
– E fez fio à força na desgraçada…
– Filho? Eu tenho um irmão?
– Tem não. O diabinho num vingou. Por isso a praga.
– Como assim?
– Pai e filho brochado.
– Eita. E essa coisa do verde, Dona Silveirinha?
– A cor do vestido dela no dia.
– Oxe, coisa mais doida. E eu não podia assim… falar com ela?
– Tá morta faz tempo.
– Então, tô condenado?
– Tem dois jeito aí…
Eu não gostei do tom da fala dela e muito menos do olhar, azul de novo. Falou que para me curar, precisava de uma sopa com pelo menos um fio de cabelo de fogo da criança de história famosa em Pedra Velha. Falou que tudo da menina era poderoso. Achei essa bem difícil, então perguntei pela segunda opção.
– O chá azul, receita de voinha.
– Aff, isso deve ser antigo, né?
– Funciona. Só que tem uma condição…
– Oxe, precisa falar não. Vamo pro chá!
Ela botou em cima da mesa duas xícaras com um líquido quente. De onde veio aquilo, tão rápido, sem ela sair do lugar? Bebi tudo na mesma da hora e ela também. Fiquei com formigueiro nas pernas e me deu ginge, uma dor retada no olho e no cacete. Caí no chão ceguinho e me contorcendo. Quando passou, pode me chamar de culhudeiro se quiser, a velha tinha sumido e apareceu uma deusa maravilhosa, nua e cheia de vontade, deitada no chão da salinha. Fiquei louco, fui pra cima e tudo funcionou. Eu não era mais virgem! Ia levantar e tirar o time, mas ela falou:
– Vamo de novo, tesudo?
Olhei pra mulher e era a véia, óia! Ela se chegou, feito serpente pro bote, e disse:
– Às vez dá esse problema, num sabe? Fica o tesão de menina verde nesse corpinho peco.
– Oxe, deusémais! Vou embora daqui!
– Quando o efeito passar, volte, viu, gostosão?
